O poeta Marcelo Montenegro. Retrato: Marcus Steinmeyer. Companhia das Letras. Reprodução
O poeta Marcelo Montenegro. Retrato: Marcus Steinmeyer. Companhia das Letras. Reprodução

Há uma expressão particular que uso para dizer que um texto é muito bom: é digno de pendurar na porta da geladeira. Talvez soe defasado hoje, já que as pessoas hoje em dia não mais vão à geladeira, necessariamente, para beber água. Mas a expressão vem daí, para elogiar aqueles textos que você acha tão bons que pensa que todo mundo deveria ler, necessários como se hidratar, daí transformar a porta do eletrodoméstico numa espécie de mural de avisos.

Há uma conhecida boutade, pelo menos entre os que lhe são mais próximos, em que o poeta Marcelo Montenegro conta que, ao final de um encontro ou uma noitada, despedindo-se de um amigo, este lhe diz algo como “acabou que nem falamos de poesia”, ao que o autor de “Forte apache” [Companhia das Letras, 2018] retruca: “como assim? Falamos disso o tempo inteiro” – cito de cabeça, embora já tenha lido aqui e acolá este texto pendurado na porta da geladeira de minha cachola.

Esta não está no livro que ele acaba de lançar, “Vídeos caseiros” [Corsário-Satã, 2021], mas bem traduz o que é para o torcedor-devoto do Santos o ofício de escrever: “o primeiro poema que aprendi na vida, a propósito, foi “Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe”, confessa, em texto intitulado justamente “Por causa disso”, em que conta que “uma vez, alguém me perguntou porque eu escrevia”.

“Vídeos caseiros”, cujo formato de livro de bolso, algo entre o tamanho de uma antiga fita k7 e uma VHS, é, conforme a nota introdutória, “uma seleção de posts de blog e Facebook que abrange um período de quase 20 anos”, para sorte dos que lhe acompanham a trajetória – estes textos não mereciam o limbo das pages not founds da internet.

Comovente como o diabo, como diria outro poeta também citado em suas páginas, “Vídeos caseiros”, em seus poemas em prosa, sua prosa em poesia, suas crônicas e comentários que, na pena ou na boca de qualquer um, poderiam soar banais, mas nunca em Marcelo Montenegro, reafirma algumas características do poeta: a capacidade de tornar grandioso qualquer momento do cotidiano, a extrema sensibilidade ao abordar qualquer assunto, a capacidade de cruzar referências e de adaptar citações, sem nunca forçar a barra ou soar arrogante ou piegas.

“A canção “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”/ e a cena da Jeanne Moreau/ correndo na ponte com Jules e Jim/ são minhas “toalhas de neve fresca”./ Tudo o que escrevo/ é uma tentativa de escrever isso.”, anuncia/adverte em “Toalhas”, texto que abre o livro.

“Em 200 anos, tudo é poeira, em 300 anos não é nada, e em mil anos é como se você nunca tivesse estado aqui”, diz em “Canal 100”, talvez alertando a geração que passa os dias a correr atrás de likes e comentários nas redes sociais; ou refletindo sobre a aceleração da transformação das coisas em poeira ou nada pela sanha destruidora do governo neofascista de Jair Bolsonaro, vide o episódio do incêndio na Cinemateca Brasileira, onde armazenavam-se rolos de filme com o conteúdo do programa que dá título ao texto, outrora exibido antes das sessões de cinema.

“Se Nelson Cavaquinho e Cartola nascessem em New Orleans, seriam grandes bluesmen. Assim como Howlin’ Wolf e Muddy Waters seriam grandes sambistas se nascessem em algum morro carioca”. É esse tipo de estalo, na melhor linhagem “por que é que eu não pensei nisso antes?” – evoé, Itamar Assumpção! – a matéria-prima da poesia de Marcelo Montenegro. E poesia aqui está para além do formato consagrado, com linhas quebradas, geralmente terminando em rimas: falo de qualquer texto seu. Ou antes: de qualquer conversa com ele.

Para não me alongar mais do que devia, afinal de contas escrevo sobre um livro magro – seu único defeito, aliás: cabiam mais textos, hein? – faço questão de transcrever inteiro o texto intitulado “Luisão”, a fim de explicar melhor o que digo:

“Em 1996, eu apresentava um programa na saudosa Rádio Vitrola, em São Caetano do Sul, ABC paulista. Nesse dia, toquei “Timoneiro”, parceria de Paulinho da Viola com Hermínio Bello de Carvalho, paixão à primeira vista de Bebadosamba, novíssimo disco do mestre que havia acabado de comprar.

O Luisão, que estava no ar antes de mim e recolhia as suas coisas no estúdio para ir embora, parou por um instante, cerrando os olhos e erguendo o queixo, como se tentando entender para que lugar longínquo aquela canção o levava. E então ele comentou, com sinceridade: “Nossa, quanto tempo eu não ouvia essa música!”.

Essa história prontamente se converteu na minha definição preferida do que é um clássico. Aliás, só alguns anos depois eu toparia com a definição do Italo Calvino: clássico é aquele livro que, quando se lê pela primeira vez, tem-se a impressão de já tê-lo lido; e, quando o relemos, a sensação é a de que o estamos lendo pela primeira vez.”.

Cito trechos de mais dois textos do livro para dizer mais umas poucas coisinhas sobre Marcelo Montenegro. “Vi um show do João Gilberto, simplesmente porque ao menos uma vez na vida eu precisava ver aquilo”, diz ele em “Paula e Hortênsia”. E em “Walkscapes”: “Durante um tempo, não me conformava em estar num show – digamos, do Itamar Assumpção – com poucas pessoas na plateia. Eu me debatia entre o lamento – podia ter muito mais gente assistindo a essa maravilha – e a irritação: “Você nem imagina o que não conheceu/ Agora é tarde, é tarde/ Meu saco já encheu” (Fellini). Embora isso ainda me angustie, com o passar dos anos fui invertendo o raciocínio: as poucas pessoas que estavam – e estão – ali formam o sumo da cidade que me interessa”.

“Vídeos caseiros” nasce clássico, num limbo entre leitura inaugural e releitura – particularmente acompanho com especial interesse qualquer postagem sua em blog ou rede social: ler Marcelo Montenegro é algo que todos deveriam fazer uma vez na vida. Depois dessa primeira vez a tendência é tornar-se leitor contumaz. Quem sabe assim teríamos mais gente assistindo a essas e outras maravilhas.

Vídeos caseiros. Reprodução
Vídeos caseiros. Reprodução
Serviço
“Vídeos caseiros”, de Marcelo Montenegro. Corsário-Satã, 2021, 64 p., R$ 27,00 no site da editora. Lançamento hoje (1º.), às 19h30, no instagram da editora, com bate-papo do autor com os editores Fabiano Calixto, Natália Agra e leitura de textos do livro por Aline Bei e Fabrício Corsaletti.

 

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