O cantor e compositor Paulinho da Viola. Foto: Marco Froner
O cantor e compositor Paulinho da Viola. Foto: Marco Froner

Os primeiros acordes do violão ocupam os ouvidos, seguidos de aplausos. Tudo como tem que ser: o fã clube está diante de mais um belo registro ao vivo de Paulinho da Viola e ele, merecedor de todos os aplausos e reverências, começa a cantar.

Sempre se pode sonhar. Capa. Reprodução
Sempre se pode sonhar. Capa. Reprodução

“Sempre se pode sonhar” foi gravado em 2006 e agora vem à lume, em tempos de pandemia, que afastou o portelense dos palcos. No álbum, Paulinho da Viola transita com a desenvoltura e elegância habituais entre clássicos de sua lavra e alheios, composição inédita e choros instrumentais.

No primeiro lote estão “Dança da solidão”, “Coração leviano” e “Coisas do mundo, minha nega”; quando digo alheios, refiro-me a obras-primas escritas por terceiros, mas que Paulinho da Viola se apropriou de tal forma que as composições parecem suas; refiro-me particularmente a “Nova ilusão” (Pedro Caetano/ Claudionor Cruz) e “Nervos de aço” (Lupicínio Rodrigues), que lhe batizou o disco lançado em 1973 – tal qual este que ouvimos agora, com capa desenhada por Elifas Andreato; em “Ela sabe quem eu sou” versa em primeira pessoa sobre um personagem, sambista e boêmio, que se casa. “Ela sabe que eu sou do samba/ ela sabe por onde eu vou/ e por isso não faz drama/ quando eu falo deste amor”, começa. E continua: “Já deixei o futebol/ já não passo mais no bar/ e declino quando alguém me chama/ para ir jogar bilhar/ assumi um compromisso/ e não quero vacilar/ pois o samba é um vício/ que eu não posso abandonar”, finaliza, num tributo a sua majestade, o samba.

Ao mesmo tempo em que reverencia velhos mestres, Paulinho da Viola sempre esteve atento aos jovens. Aos 22 anos, em 1965, despontou no espetáculo Rosa de Ouro, acompanhando as cantoras Clementina de Jesus e Aracy Cortes, junto de Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento; padrinho da Velha Guarda da Portela, de quem produziu o primeiro registro fonográfico, em 1970; ouvimos aqui, neste registro lançado 14 anos depois de gravado, o “Talismã” composto em parceria com Arnaldo Antunes e Marisa Monte – que guarda com ele interesse pelo patrimônio citado, a Velha Guarda da Portela (de quem ela também produziria disco, o elogiado “Tudo azul”, de 2000). Na introdução ele avisa: “chama-se Talismã, é um título provisório”. A música foi lançada em disco por ele, no “Acústico MTV” (2007).

O choro, gênero formador de Paulinho, filho de César Faria, violonista do Conjunto Época de Ouro, que acompanhava Jacob do Bandolim, merece um destaque especial neste novo disco. Há seis anos, quando esteve em São Luís, ele anunciou que não tocaria choro no espetáculo que apresentou na capital maranhense. “É algo que se tem que praticar, tem que tocar todo dia, não dá para fazer de qualquer jeito. Eu não toco há muito tempo”, afirmou. Anos antes, na gravação de “Sempre se pode sonhar”, e quase década e meia depois, quando do lançamento, declarou seu amor pelo gênero majoritariamente instrumental, gravando “Vibrações” – de Jacob do Bandolim, faixa que dá título a seu disco de 1967, apontado por muitos chorófilos como o maior disco de choro de todos os tempos –, “Vou me embora pra roça” (parceria de Paulinho com Mário Sève, flautista e saxofonista de seu conjunto), “Um choro pro Waldir” (homenagem ao cavaquinhista Waldir Azevedo, escrita em parceria com o pianista Cristóvão Bastos, também de seu conjunto), além dos clássicos de Pixinguinha, com quem conviveu desde a infância em rodas de choro na casa de seu pai: “1×0” e “Cochichando”.

Em “Fiz por você o que pude” a reverência de Cartola à Mangueira, escola de samba rival da Portela de Paulinho, que compôs um de seus maiores clássicos, “Foi um rio que passou em minha vida”, como uma espécie de “compensação”, após ter escrito a igualmente bonita “Sei lá, Mangueira”. “Cartola me influenciou muito. Nas minhas primeiras músicas, eu sinto muito essa influência, em termos de melodia, de forma – aquele desenho dele em que eu me amarro”, confessa, no material de divulgação distribuído à imprensa. E manteve o erro de português sublime e genial da letra.

A faixa-título, lançada pelo parceiro Eduardo Gudin no mesmo ano em que foram gravados os shows que deram origem ao disco, tem inspiração “adoniraniana”, no dizer do próprio Paulinho, referindo-se a Adoniran Barbosa e um certo jeito paulista de fazer samba. “Saí antes do dia amanhecer/ deixei Adoniran me consolar/ senti quando a tristeza me envolveu/ sem reagir/ lutei para esquecer aquele mal e perdoar/ talvez quando a verdade aparecer/ a dor faça você me procurar”, diz a letra. Outro lembrado no repertório é Sidney Miller, autor de “Nós, os foliões”.

O show intimista que deu origem ao disco ficou em cartaz no Teatro Fecap, em que artista e plateia ficam muito próximos, em São Paulo, entre 13 de setembro e 8 de outubro de 2006. Paulinho da Viola (voz, violão, cavaquinho e direção musical) é acompanhado por Cristóvão Bastos (piano), João Rabello (violão e supervisão artística), Dininho Silva (contrabaixo), Hércules Nunes (bateria), Mário Sève (saxofone e flauta) e Celsinho Silva (pandeiro e percussão). A estes somam-se Israel Bueno (violão) e Izaías Bueno (bandolim) no bloco chorão formado por “Vibrações”, “Vou me embora pra roça”, “Um choro pro Waldir” e “Cochichando”.

Monumento vivo da cultura nacional, Paulinho da Viola merece todas as honras a cada disco novo e não só. “Sempre se pode sonhar”, o título, parece nos dizer, que apesar de alguns brasileiros, o Brasil ainda vale a pena.

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Ouça “Sempre se pode sonhar”:

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