Net Matogrosso - foto Leo Aversa
Foto: Leo Aversa

Não se completam mais 80 anos como antigamente, se tomarmos como modelo Ney Matogrosso (entre outros oitentões de 2021, como Roberto CarlosBob DylanErasmo Carlos Nana Caymmi). O cantor sul-matogrossense de “Sangue Latino” (1973), “América do Sul” (1975) e “Bandolero” (1978) chegou à data redonda no dia 1º de agosto, ainda e sempre vinculado à imagem de juventude e androginia que o projetou a partir de 1973. Ney marcou o aniversário com o lançamento do primeiro terço de seu próximo álbum, batizado de Nu com a Minha Música, cuja publicação deve ser concluída em novembro. Ao mesmo tempo, vem à luz Ney Matogrosso – A Biografia, do jornalista Julio Maria, elaborada com intensa colaboração de Ney e caudalosa em histórias, fios musicais e um bocado de fofocas (aparentemente autorizadas pelo artista e por outros participantes ainda vivos).

Rotina na nova indústria musical, o formato EP antecipa o álbum que virá, oferecendo o aperitivo de quatro canções, a começar pela faixa-título, “Nu com a Minha Música” (1981), composta e gravada originalmente por Caetano Veloso. Os versos combinam com a torcida musical da irmã Maria Bethânia em 2021 e almejam se ajustar ao breu dos dias que correm, como se ajustavam, em 1981, aos estertores da ditadura militar: “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil apesar da dor/ vertigem visionária que não carece de seguidor/ nu com a minha música, fora isso somente amor”. Outros versos soam divertidos à luz atual, como “quando eu cantar pra turba de Araçatuba verei você/ já em Barretos eu só via os operários do ABC/ quando chegar em Americana não sei o que vai ser/ às vezes é solitário viver”. Em turnê rodoviária pelos interiores paulistas há 40 anos, Caetano embaralhava os peões de rodeio e os peões das metalúrgicas de São Bernardo, e Ney dobra a meta, mesmo se declarando ainda relutante em voltar a votar em Lula em 2022.

O EP segue com “Mi Unicornio Azul” (1982), do cubano Silvio Rodriguez, reafirmativa dos ideais pan-americanos de Ney desde os primórdios; “Se Não For Amor, Eu Cegue” (2011), dos pernambucanos Lenine Lula Queiroga, e “Gita” (1974), de Raul Seixas Paulo Coelho, rock-balada habitado pela MPB desde 1975, quando Bethânia o cantou num show com Chico Buarque. Entre as faixas a serem acrescentadas em novembro, fala-se em canções de Roberto e Erasmo (“Sua Estupidez”, de 1969), Tom Zé José Miguel Wisnik (“Xique Xique”, 1997) e Vitor Ramil (“Noturno“, 2004).

Se Nu com a Minha Música promete orbitar em torno das fórmulas já conhecidas de álbuns mais ou menos recentes como Inclassificáveis (2008), Beijo Bandido (2009), Atento aos Sinais (2013) e Bloco na Rua (2019), maior carga de novidade e espanto está reservada à biografia de 512 páginas que parece se comunicar diretamente com o cérebro do cantor e performer. Isso é ao mesmo tempo um trunfo e um ponto frágil: Ney se revela nu diante de sua música e de sua vida e dá ao biógrafo amplo acesso às suas memórias, mas também demonstra estar em pleno controle sobre o que elegeu revelar e o que manteve sob sigilo por debaixo dos panos.

Não são poucas as imagens desveladas, sobre a obsessão pela morte quando criança, a dualidade doida entre o filho hippie libertário e um pai militar, a propensão ao suicídio de pessoas de seu entorno, a relação conflituosa dos Secos & Molhados desde a gênese, os episódios de homofobia pingando ao longo das décadas, uma participação-relâmpago do futuro guru bolsonarista Olavo de Carvalho (como interno em uma instituição psiquiátrica), uma histórica apresentação de estreia do show Bandido (1976) para os internos da Penitenciária Lemos de Brito (no Rio), a indisposição insinuada (mas não aprofundada) de Ney com o gênero bossa nova.

Há muitas passagens sobre bastidores das indústrias musical, televisiva e jornalística, por vezes elucidativas. O programa Mixturação, levado ao ar pela TV Record já em tempos de avanço da Rede Globo no mercado e hoje muito menos lembrado que os anteriores O Fino da Bossa Jovem Guarda, aparece como crucial na exposição inicial dos S&M e no fenômeno que varreu o Brasil em consequência. O diretor televisivo Nilton Travesso surge como pára-raios de insistentes pressões por censura, vindas de militares e não-militares (entre esses os apresentadores Chacrinha e Carlos Imperial, que gritavam pela interdição de Ney Matogrosso nas páginas de suas colunas nos jornais) – escondia o assédio dos S&M, sempre protegendo o grupo do desgaste de acompanhar as tentativas de cerceamento e vir a se influenciar negativamente por elas.

O executivo de gravadoras Marco Mazzola é pintado como aliado, não sem ocasionalmente tentar transformar seu artista em cantor romântico ou relutar na inclusão de músicas das compositoras Luli & Lucina nos discos solo de Ney. Em 1983, o executivo Peter Klam (da multinacional Barclay) chantageia o artista, forçando-o a gravar a versão “Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay)” em troca de não mandar recolher das lojas o disco dos amigos novatos da banda João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Mais tarde, Ney contra-ameaça, no auge de um conflito com intermediários da também multinacional CBS: “Ok, se vocês me prenderem aqui, eu fico falando mal de vocês”.

No geral, a dicotomia de artista imaculado versus empresários, produtores e executivos vilanescos é mantida, como no final da relação com o poderoso Manoel Poladian (também agenciador de shows para Roberto Carlos, Rita Lee e o grupo iniciante afilhado de Ney RPM, entre outros). Poladian o alçara para um modelo de super-estrelato na época do rock “Pro Dia Nascer Feliz” de Cazuza e Frejat (“fodia pra ser feliz”, Ney adulterava a letra no palco) e do show circense Destino de Aventureiro (1984). A ruptura aconteceu, de acordo com a biografia autorizada, quando Ney percebeu que as antenas do empresário apontavam menos para ele e mais para uma nova artista que chegava ao tabuleiro de xadrez, Daniela Mercury.

O terreno é fértil para o culto ao espírito fofoqueiro, com farta lista de amores, romances, affairs, amizades, paixões platônicas, trepadas, namoros, casamentos, trisais etc., com figuras que já morreram ou continuam vivas. Ao primeiro grupo pertencem os atores Leonardo Villar, estrela d’O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte, e Hiram Keller, um dos protagonistas do Satyricon (1969) de Federico Fellini, além do notório Cazuza (ainda nos anos 1970). Ao segundo grupo pertencem as cantoras Lucina, Regina Chaves (futura integrante do grupo Frenéticas) e Simone, o cantor e compositor Fagner e a atriz Sonia Braga.

O estilo peculiarmente poético de Julio Maria dá graça ao episódio envolvendo Simone, ocorrido quando ela e Ney frequentavam o guru de um templo chamado Gotas de Orvalho: “O guru adotou Ney e Simone com empatia e os convidou para passarem alguns dias em sua casa de praia, pondo-os para dormir juntos em duas camas de solteiro coladas uma à outra. ‘Mário, não somos crianças’, advertiu Ney na primeira noite. ‘Vamos dormir assim de novo?’, advertiu na segunda. Na terceira, deu-se o enredo. Era madrugada quando Ney e Simone acenderam as chamas internas e caíram em tentação”.

A biografia chega ao último clímax no gozo da dor, quando começam as (muitas) histórias devastadoras vividas sob o signo do HIV, a partir dos anos 1980, com muitos e muitos amigos, namorados e ex-namorados morrendo em consequência do vírus contra o qual até hoje, cerca de 40 anos depois, a ciência não disseminou vacinas. O biógrafo passa a apressar a narrativa nas fases posteriores a essa, como se a terceira idade não fosse útil à manutenção dos mitos de juventude eterna e invencível do rock, do pop, de toda a cultura de consumo maciço e imediato. Tudo bem, esse é mesmo um dos efeitos adversos da fábula de Dorian Gray aplicada à cultura pop, mas isso não é assim tão verdadeiro no caso de Ney, que tem assinado, nos últimos anos, uma série de trabalhos retilíneos e espartanos, mas nunca desprovidos de ímpeto e inspiração.

Curiosamente, entrevistas de Ney Matogrosso sobre os 80 anos têm insistido em abordar os temas da política nacional, algo que até há pouco marcava muito mais as imagens públicas de Chico e Caetano. Não deixa de fazer sentido, no caso de um artista que fez da militância (homo)(bi)(pan)sexual uma de suas principais frentes de combate e de uma época em que o sub-fascismo achaca e assedia sem descanso as identidades dissidentes, chamadas de “minorias” pelos donos do mundo. O tempo passou num instante, e quase nem conseguimos notar (ou acreditar) que nosso ídolo juvenil se tornou um circunspecto senhor de 80 anos, pero sin jamás perder la altivez y la relevância.

EP "Nu com a Minha Música", de Ney Matogrosso

Nu com a Minha MúsicaEP de Ney Matogrosso. Sony Music, 2021. Nas plataformas digitais.

Ney Matogrosso – A Biografia. De Julio Maria. Companhia das Letras, 512 págs., 90 reais.

 

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