César Mello (Luís Gama) e Romeu Evaristo (Santos) filmam "Doutor Gama" em Paraty
D.W. Griffith
D.W. Griffith

Como cineasta brasileiro negro, Jeferson De é um dos muitos (mas proporcionalmente pouquíssimos) trabalhadores hercúleos que têm corrido contra a desvantagem de um século e alguns anos desde a invenção do cinema (1895) e desde que o cineasta branco (branco?) D.W. Griffith pintava as peles de seus atores brancos para que representassem personagens negros acossados por uma “heróica” Ku Klux Klan (em O Nascimento de uma Nação, você sabe de qual nação, 1915). Naqueles mesmos tempos, em 1988, o Brasil se tornava o “último país do mundo” a abolir a forma de servidão humana conhecida como “escravidão” (não é bem verdade, embora esta seja uma chaga muito verdadeira e brasileira). Um ano depois da abolição luso-brasileira, a Torre Eiffel era inaugurada em Paris com uma atração, digamos, original (e corriqueira na Europa de então e século 20 adentro): os “zoológicos humanos” (então chamados de “exposições etnológicas”), que exibiam, enjaulados, indivíduos “exóticos” aos olhos europeus (leia-se africanos, indígenas, javaneses, esquimós etc. etc.).

Os "zoológicos humanos"
Africanos cativos vindos de Senegal e Sudão, expostos em jaulas na inauguração da Torre Eiffel, em 1895 – foto www.museudeimagens.com.br
Os "zoológicos humanos"
Javanesas exibidas em jaulas durante a Exposição Universal de Paris de 1889, que marcou a inauguração da Torre Eiffel – foto www.museudeimagens.com.br
Os "zoológicos humanos"
Africanos “exibidos” no jardim zoológico da Acclimation de Paris, em 1937 – foto www.museudeimagens.com.br

Nadando em raia olímpica paralela numa piscina de tubarões, com décadas e séculos de desvantagem, Jeferson De é um paulista de Taubaté (tal qual o mestiço Monteiro Lobato), hoje com 53 anos, que tem apresentado uma obra de resistência e de combate em filmes como Bróder (2011), O Amuleto (2015), Correndo Atrás (2018) e o sensível M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida (2020). Em todos eles, tem se mantido leal ao Dogma Feijoada, documento/manifesto que ajudou a elaborar em 2000 com a intenção de materializar um cinema negro brasileiro. Ele volta à carga agora com Doutor Gama, um filme que retrata episódios anteriores aos da invenção do cinema e dos “zoológicos humanos” na Torre Eiffel, mas de um modo avesso aos clichês e apagamentos de sempre.

Cena de "M-8" (2020), de Jeferson De
Juan Paiva (e Raphael Logam) em cena de “M-8” (2020), de Jeferson De
Luís Gama
Luís Gama

Trata-se da cinebiografia do baiano Luís Gama (1830-1882), intelectual, advogado, jornalista, dono de jornal, escritor e poeta negro que, à revelia de tudo e de todos (os brancos), foi ativista importante do movimento abolicionista brasileiro. Gama era filho de pai branco de origem portuguesa e de mãe africana livre (e participante da revolta baiana Sabinada) – nasceu livre, mas foi escravizado aos 10 anos de idade, ao ser vendido pelo próprio pai. Alfabetizado somente aos 17 anos de idade (que filme “inconveniente” para o Brasil de 2021…), reconquistou a liberdade no final dos anos 1840 e se consolidou como advogado devotado à libertação de seus semelhantes (estimou ter atuado para libertar mais de 500 escravizados). Republicano, militou também pelo fim da monarquia no Brasil.

A poesia de Gama expressou denúncia de vanguarda (“ciências e letras/ não são para ti:/ pretinha da Costa/ não é gente aqui”), mas lhe valeu codinome racista (“o Orfeu da carapinha”) e o esquecimento pelas gerações seguintes (e nunca negras) de poetas locais. Ele foi o primeiro brasileiro negro a receber o título de doutor honoris causa, pela Universidade de São Paulo (USP), em junho de… 2021. Apenas em 2015 a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) reconheceu o advogado autodidata como integrante da instituição.

São muitas histórias entrelaçadas para contar, mas Doutor Gama se dedica a imaginar episódios de julgamento e libertação conduzidos pelo ativista, que passaram pelo habitual e cruel ritual de apagamento e até hoje são pouco documentados. “Eu sou um advogado e um homem preto. Eu sei o que é ser tratado como uma coisa”, auto-afirma-se Gama (interpretado por César Mello) a certa altura de um julgamento crucial. As cenas de tribunal se equilibram numa corda bamba entre romantizadas, didáticas/educativas, ficcionais, plausíveis, prováveis e/ou hiper-realistas.

Os preceitos do Dogma Feijoada pulsam em Doutor Gama, mesmo quando isso não favorece o resultado final. Passada em São Paulo, a história foi filmada no chão de grandes pedras portuguesas do centro histórico de Paraty (RJ), o que lhe tira alguma verossimilhança, mas, por outro lado, cumpre o princípio “cronograma exequível – filmes urgentes”, item 4 do manifesto de 2000. A ambientação e a caracterização dos personagens escravizados não conseguem evitar de todo os estereótipos (mandamento 5 do Dogma), e soam dolorosas para quem (como o diretor e também este resenhista) cresceu assistindo a novelas como a global Escrava Isaura (1976), que oscilavam brutalmente entre o combate e a naturalização de nosso racismo “cordial”/institucional. Coproduzido pela Globo Filmes, Doutor Gama documenta o trajeto da rede televisiva desde quando fazia da protagonista Isaura uma escravizada branca (vivida por Lucélia Santos) até a produção cinematográfica atual, neste caso não apenas protagonizada (mandamento 2), mas também dirigida (mandamento 1) por profissionais negros.

"Doutor Gama", de Jeferson De
Pedro Guilherme (como Luís Gama criança) e Romeu Evaristo em cena de “Doutor Gama”
Romeu Evaristo em "Doutor Gama"
Romeu Evaristo em “Doutor Gama”
Romeu Evaristo como o Saci do "Sítio do Picapau Amarelo" (1977)
Romeu Evaristo como o Saci do “Sítio do Picapau Amarelo” (1977)

Um elemento de forte efeito poético no filme é a presença do ator Romeu Evaristo, de 65 anos, em grande atuação no papel de Santos. (O resgate de importantes atores negros tem sido uma constante na obra de Jeferson De, com nomes como Léa Garcia, Zezé Motta Antonio Pitanga). Em 1977, a imagem de Romeu povoou o Brasil com o imaginário (em nada indefeso) de Monteiro Lobato, como o Saci Pererê da adaptação global do infantil Sítio do Picapau Amarelo. Hoje um tanto invisibilizado como ator (embora sempre atuante na Globo em pequenos personagens), Romeu ainda tem de interpretar um homem escravizado – mas, desta vez, o homem que precipita a militância jurídica abolicionista de Gama.

É enorme a quantidade de símbolos presentes em Doutor Gama, a separar e aproximar o Brasil e o mundo de 1882 (quando Luís Gama morreu sem testemunhar as derrocadas apenas parciais da monarquia e da escravização) e o Brasil e o mundo de 2021. Por aqui, reformas trabalhistas e seus penduricalhos parecem tender dramaticamente para 1882.

Doutor Gama. De Jeferson De. Brasil, 2021, 92 min. Nos cinemas a partir de 5 de agosto.

 

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