"A Mameluca" (1641), pintura do holandês Albert Eckhout

Um livro de 140 anos de idade é publicado pela primeira vez e ajuda a jogar luzes simultaneamente sobre questões do racismo, da literatura feminina, da segregação, da identidade nacional e do desenvolvimento da literatura propriamente dita. Trata-se de O Mameluco, escrito pela baiana Amélia Rodrigues (1861-1926) em 1882 e que tinha sido publicado apenas em formato de folhetim, agora resgatado por uma edição da Boto-Cor-de-Rosa Livros, Arte e Café, o selo editorial Paralelo13S e o projeto Rumos Itaú Cultural.

Amélia Rodrigues escreveu O Mameluco quando tinha apenas 21 anos. É um exemplar tardio do romantismo, apareceu 17 anos após a publicação de Iracema, de José de Alencar, que é considerado também um romance sobre a questão da identidade. Quando ela escreveu seu livro, o romantismo já dava seus últimos suspiros para a eclosão do realismo. Ainda assim, é uma obra que revela-se hoje relevante pelos debates que propõe – o texto foi resgatado do último exemplar remanescente do jornal Echo Sant’Amarense, então o principal veículo do Recôncavo baiano, no qual o livro foi registrado em 1882 (exemplar hoje pertencente ao acervo da Biblioteca do Estado da Bahia).

No epicentro da ação estão os heróis Ramira, filha de um rico português, e Fernando, filho de uma indígena do Recôncavo e de um português. O pano de fundo é a movimentação do País para a Guerra do Paraguai, que recrutava compulsoriamente contingentes de jovens para o front. Evidentemente, essa seleção dos “buchas de canhão” obedecia a um ritual de consagração dos preconceitos raciais, sociais e de privilégios de elite.

A publicação de O Mameluco após 140 anos vem acompanhada de um vigoroso ensaio da professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia, Milena Britto, com ilustrações de Flávia Bomfim. Além do fato de ter sido escrito por uma mulher brasileira no final do século 19, Milena considera que o livro abre “um diálogo com o cânone literário brasileiro” e é ilustrativo de como a sociedade, principalmente a que já debatia o abolicionismo (que viria dali a 6 anos), via os negros. O livro foi publicado 6 anos antes da abolição oficial da escravatura, e os vilões são retratados como o “obscurantismo” em torno da negra Luiza, Pai Cosme, seus rituais pagãos e seus traços delirantes, “imponentes em sua caricata realeza”, como descreve Amélia.

A assimilação de Fernando, o mameluco, passará necessariamente por sua assimilação social e do autoconvencimento. O europeu, evidentemente (retratado em Paulo de Avilez, “de espírito inteligente e ilustrado”), tinha a civilidade necessária para a promoção do brasileiro nato, por assim dizer. O nativo precisaria ser admitido. “Eu não tenho a educação polida das cidades; sou um pobre sertanejo que apenas tenho no cérebro um vulcão de pensamentos desesperados”, diz o mameluco à irmã, a certa altura do romance.

Apesar de refletir essa ética social típica do período, o livro de Amélia contém também elementos de criticismo e de interpretação precoces da realidade brasileira, denotados no apreço pela usurpação, pela tirania doméstica, pela subjugação do destino dos mais humildes. “José de Souza apareceu na varanda. Era um homem de seus quarenta anos, compridos bigodes ruivos, olhar atrevido e às vezes feroz; um verdadeiro sertanejo rico, estúpido e ambicioso”.

A autora parece querer desconstruir o ambiente de “homeschooling” da saga de Ramira, orfã no nascimento, criada pelo pai abastado como numa estufa, para preservá-la das más influências do mundo exterior  (“Conheço muitas moças que foram para lá – os colégios de moças – e voltaram quase no mesmo estado intelectual, com um pequeno brilho superficial, e por cima de tudo malcriadas, orgulhosas, e, o que mais é, muitas vezes, tísicas”, diz seu pai). Amélia antevê que nada disso será suficiente para criar um tipo de salvo-conduto das irregularidades sociais, que se alastram inexoravelmente pela individualidade.

Amélia Rodrigues foi poeta, escritora, jornalista, dramaturga e professora no século 19. É creditada a ela a publicação da primeira revista inteiramente escrita por mulheres na Bahia, a Paladina. Seu romance de 140 anos de idade foi lançado no dia 21 passado com um debate no tecnológico YouTube, mas já é encontrável nas livrarias.

O Mameluco. Romance de Amélia Rodrigues (Echo Sant’Amarense, 1882; Boto-Cor-de-Rosa Livros, 2022). 220 páginas, 83 reais
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