Alceu Valença- foto Leo Aversa
Alceu Valença- foto Leo Aversa

Poucos meses após o lançamento de Sem Pensar no Amanhã, o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença apresenta Saudade, segundo volume de sua série pandêmica de voz e violão. A gravadora Deck falava inicialmente em três títulos, agora desdobrados em quatro, programados para virem à tona todos neste ano de 2021. Assim como “Sem Pensar no Amanhã” era a única faixa inédita do disco anterior, Saudade inclui apenas dois temas novos, a faixa homônima e a canção de abertura, “Era Verão”. Essa última é um sambinha solto e matreiro que remete ao início dos anos 1970, quando o jovem Alceu migrou do Recife para o Rio de Janeiro, e descreve o lar adotivo como uma “cidade no cio” diante do “olhar estrangeiro” do poeta.

As outras nove faixas obedecem ao padrão do projeto, com versões intimistas (várias vezes sob formas excêntricas de uma bossa nova pernambucana) para peças importantes do repertório de 49 anos de gravações profissionais de Alceu. Entre os sucessos arrasa-quarteirão de outrora, regravados agora com suavidade redobrada, estão “Tropicana” (1982), “Como Dois Animais” (1982) e “Solidão” (1984).

“Andar Andar” (1990) mantém o tom original de blues e cimenta com perfeição o passeio pelas ruas cariocas, as saudades nordestinas (na citação ao “Sabiá” do conterrâneo Luiz Gonzaga, em “a todo mundo eu dou psiu/ perguntando por meu bem”) e o lamento compungido por si (“feito um cão abandonado como o povo brasileiro”) e pelo Brasil dos anos Collor e dos anos Bolsonaro (em “a Serra do Mar/ não tem mais pau-brasil/ somos filhos de um só ventre, dessa terra-mãe gentil/ e as elites nos dividem/ como vai mal meu Brasil”). Canção de separação amorosa, “Tesoura do Desejo” (1992) transpira tristeza e solidão, mais uma vez tendo a zona sul carioca como pano de fundo.

Completam o roteiro sonoro-cinematográfico as mais recentes “Ai de Ti Copacabana” (2005), em versão deseletrificada, e “Samba do Tempo” (2005), bem fiel ao original. Travos de nostalgia pernambucana salpicam o filme musical imaginado por Alceu em “Ladeiras” (1994) e “Olinda” (1985), que arremata o disco de volta ao chão natal, transformando em melancolia o que há 35 anos era maracatu e carnaval.

Não faltam motivos para que a melancolia seja o cavalo-motor das novas interpretações, como o autor declarou em entrevista em abril, a respeito da interrupção da vida na estrada e da pandemia político-viral: “Abate, dá uma angústia que chega e depois vai. Às vezes dá uma tristeza terrível. Eu perdi muitos amigos, muitos parentes, muitos”.

O dolorido momento-síntese, que remenda sentidos entre o passado e o presente, dá-se mesmo na inédita “Saudade”, bordada entre “retratos de um álbum já tão desbotado” e auto-explicativa deste tempo de dissenso e de confinamento: “Saudade da estrada/ saudade da rua/ saudade do sol/ saudade da lua/ ê, saudade/ saudade de amigos/ como eu confinados/ que mesmo distantes/ se encontram ao meu lado/ ô, saudade”. “Xô, saudade”, sonha o trovador.

"Saudade", de Alceu Valença

SaudadeDe Alceu Valença. Deck, 2021.

 

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