O artista plástico João de Deus e parte das telas expostas em
O artista plástico João de Deus e parte das telas expostas em "Delírios da quarentena". Foto: Zema Ribeiro

Após mais de 20 anos sem pintar, o artista plástico João de Deus, professor aposentado do departamento de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), inaugurou hoje (19), a exposição “Delírios da quarentena”, com 22 telas expostas no Centro Cultural do Ministério Público do Maranhão (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro) e 45 na sede da Procuradoria Geral de Justiça (Av. Carlos Cunha, Calhau).

O isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 e indefinidamente prorrogado pela irresponsabilidade dos que deveriam zelar pela saúde pública causou reações as mais diversas entre as pessoas. João de Deus tornou às tintas e pincéis, retratando a religiosidade de seu povo, manifestações da cultura popular, o sagrado feminino, entre outros temas que comparecem a “Delírios da quarentena”, que pode ser visitada pessoalmente – mediante agendamento (pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (98) 3219-1997) – ou online, neste link.

Na manhã de hoje, João de Deus estava no CCMP, de máscara. Já tomou as duas doses da vacina contra a covid-19, mas segue cumprindo à risca todos os protocolos de segurança sanitária. Ainda tem medo do coronarívus. Assina parte das telas como “Juhkaa”, efeito de certa insegurança, quando as estava pintando. Revelou ter chegado a ouvir piadas de mau gosto associando seu nome ao do médico charlatão João Teixeira de Faria, o doutor João de Deus, condenado a 40 anos de prisão pelo estupro de pacientes em Abadiânia/GO. “Algumas telas estão assinadas assim, mas João de Deus ganhou, eu decidi resgatar meu nome”, revelou. Comentei que era o mesmo caso de alguns símbolos nacionais, hoje sequestrados pelo fascismo: é preciso resgatá-los.

As telas da exposição – online ou dividida entre as duas mostras presenciais – devem ser apreciadas com calma e atenção. Várias camadas descortinam-se diante de nossos olhos. Há coisas que o próprio artista só percebeu depois de pintar. Em uma delas me mostrou um bumba meu boi. “Eu não desenhei isso, não pintei; só fui perceber depois”, revelou.

Abrem-se os olhos a várias interpretações. Cada visitante deverá fazer suas próprias leituras. Vendo uma tela com a representação da fachada da igreja de São José de Ribamar, a seu redor vários rostos disformes. Onde ele dizia ver espíritos, o repórter via brincantes de bumba meu boi. “Eu não queria pintar a fachada como todo mundo já pintou, como todo mundo já conhece”, disse. E tudo faz sentido.

“João de Deus mergulhou integralmente na produção artística [durante a quarentena]. Foi uma defesa ante a solidão e a sensação de impotência. O que o artista nos oferece é, no fundo, por mais paradoxal que possa parecer, uma celebração da vida. A arte em João revela reminiscências tão profundas quanto difíceis de nominar, encravadas na alma e que antecedem a própria existência”, escreve o curador Francisco Colombo, em texto de apresentação da exposição.

“Não vislumbramos nas obras de João, um compromisso mercadológico, mas algo além da nossa expectativa consumista burguesa da obra de arte, talvez a concretização metafísica das angústias coletivas nos mostrando que o fazer artístico exorciza todo mal e de forma catártica renova e traz tranquilidade às almas tão angustiadas”, aponta o artista plástico e professor Miguel Veiga.

Serviço: Delírios da quarentena. Exposição do artista plástico João de Deus. 67 telas. Em cartaz até 31 de agosto no Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro), Procuradoria Geral de Justiça (Av. Carlos Cunha, Calhau) ou online. Grátis. Agendamento de visitas pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (98) 3219-1997.

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