Naná em Paris, em 1976, em foto de Alécio de Andrade (Acerco Instituto Moreira Salles)

Há um recado direto que emana da Ocupação Naná Vasconcelos, em curso no Itaú Cultural, na Avenida Paulista. Não é aquela lição que se extrai das histórias de êxito, do triunfo heroico de um solitário instrumentista no meio de um showbiz que sempre deu mais relevo às estrelas midiáticas. Tampouco é o recado da vitória do instrumentista de um lugar pobre e distante que ganhou diversos Grammys e se inseriu na árvore genealógica do jazz mundial, entre Don Cherry, Pat Metheny e Collin Walcott. Não é o gol do autodidata em estádios dominados por letrados estrangeiros, um percussionista que legou cerca de 400 gravações musicais de universos distintos e tornou-se um educador fundamental para as gerações que sobreviriam.

Nada disso.

O que a Ocupação Naná evidencia é o triunfo da cultura orgulhosa de um artista negro. O pernambucano Juvenal de Holanda Vasconcelos (1944-2016), o Naná, foi um artista que tornou indissociável seu DNA cultural de sua arte, colocando à frente dos artefatos artísticos a opção pela negritude, pelos rituais afro, pelo compromisso social, pela tradição em movimento de uma singularidade étnica, filosófica e religiosa. Ele foi especialmente bem-sucedido nesse intento, no comprometimento racial e criativo que perseguiu durante toda a carreira.

Cajados e batas típicas, berimbaus, caxixis e instrumentos musicais feitos de chaves e cabaças emolduram as visões de um mundo íntegro e bem-conformado, elaborado ainda na mais tenra infância, feito de insumos de uma riqueza rítmica que escorreu das festas populares, dos ritos da umbanda, do Carnaval, das estratégias de preservação da negritude. “O Maracatu é trovão que sai do fundo da terra para o alto do céu”, diz a frase no alto do estande com quatro vestimentas multicoloridas que o artista utilizou em concertos e oferendas.

Ali está também o primeiro e único berimbau, construído pelo próprio artista quando tinha 23 anos (“o arame do instrumento foi substituído por uma corda de piano afinada em fá”, explica ciosamente a legenda), a carteirinha do sindicato de músicos, as fotos dos pais e do próprio quando criança. Naná estreou em disco em 1966, num álbum de Agostinho dos Santos.

Em vídeos e textos dispostos pela mostra, Naná nos ensina que a grande música é a que vem do corpo. Por aí já se conclui o motivo pelo qual ele manteve a capoeira e o berimbau como os alicerces de toda a sua criação, criando, gravando e tecendo a trama para a construção musical de grandes nomes do som, gente como Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Geraldo Azevedo, Itamar Assumpção, Anelis Assumpção, Lura Criola, Paz Brandão, Badi Assad, Trilok Gurtu, Peppe Consolmagno. Sendo grato às raízes, garantiu sua perenidade.

Naná Vasconcelos foi ao topo do mundo com seu berimbau e depois voltou, porque tinha algo a terminar aqui no Brasil. Fundou escolas de música para crianças, ajudou a fomentar e organizar festivais de música percussiva, gravou com seus conterrâneos e cuidou de não macular a sua própria determinação: a de contribuir harmonicamente com o equilíbrio universal. Seu legado é maior do que a sua música, que é imensa.

SERVIÇO

Ocupação Naná Vasconcelos. Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149). Até 27 de outubro de 2024, das 11h às 20h. Entrada gratuita

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