O plenário do Senado Federal

Algumas das mais prósperas produtoras do audiovisual brasileiro divulgaram na noite desta sexta-feira uma carta endereçada ao senador Eduardo Gomes (PL-TO), vice-presidente do Senado e relator do PL do Streaming, pedindo a aprovação de uma regulação amplamente rechaçada pelo cinema independente brasileiro. Na carta, as produtoras (que incluem conhecidos “tubarões” do mercado, como Luiz Carlos Barreto, André Sturm e Fernando Meirelles e a O2) corroboram uma tributação de 4% de Condecine para as plataformas estrangeiras – o setor audiovisual, como um todo, pleiteia 12%, e o governo trabalhava com uma porcentagem de 6%.

A carta dos “ricos” veio para esquentar ainda mais o debate que se trava no momento sobre a regulação do streaming. O vídeo do ator Wagner Moura, divulgado na manhã de quarta-feira pelo FAROFAFÁ, expôs divergências profundas na condução do processo de regulação entre o governo e ativistas do audiovisual. A carta das grandes produtoras não é apenas um primor de sabujismo, mas conclui com um aceno de trâmite instantâneo e sem qualquer possibilidade de debate: “Ao ensejo, renovamos protestos de estima e consideração e permanecemos prontos para comemorar com V. Exa. a aprovação desta Lei na próxima semana”.

A ausência de um debate democrático sobre a regulação do Video Sob Demanda (VoD, do qual o Brasil é o segundo mercado no mundo) no processo que culminou com a aprovação de um texto retrógrado na Câmara dos Deputados é descrita, pelas gigantes do setor, como “o resultado de um amplo e necessário processo de negociação e representa a estrutura essencial para o desenvolvimento e a sustentabilidade do setor audiovisual brasileiro”. Sempre muito influentes (e prevalentes) na distribuição dos recursos públicos, segundo levantamentos recentes de políticas audiovisuais, os produtores da carta aberta se mostram favoráveis ao texto aprovado pela Câmara dos Deputados pelo relator Dr. Luizinho (aríete bolsonarista que votou pela aprovação do PL da Bandidagem), mas salientam, de forma reverente, que foi produzido “a partir do PL 2.331/2022, aprovado por V. Exa. no Senado Federal, junto com as entidades representativas da indústria, SIAESP E SICAV”. SIAESP E SICAV estão longe de serem os únicos porta-vozes da indústria, e sua manifestação nem de longe representa a diversidade da área.

LEIA ABAIXO A ÍNTEGRA DA NOTA DAS GRANDES PRODUTORAS EM PROL DA APROVAÇÃO IMEDIATA DO PL DO STREAMING

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Brasília, 12 de dezembro de 2025
Excelentíssimo Senhor
Senador Eduardo Gomes
DD. Vice-presidente do Senado Federal
Assunto: Manifestação de apoio e defesa dos pontos estruturantes no novo texto –
Regulação do Streaming


Senhor Senador,

Após as proveitosas reuniões com SIAESP e SICAV mantidas com Vossa Excelência, escrevemos esta carta, para reforçar nosso apoio ao seu trabalho, assim como de sua valiosa equipe, e reforçar a importância de uma Lei que efetivamente defenda a produção
independente brasileira.
Depois de anos estagnado no Congresso, o projeto de uma lei para regular o Streaming no país somente se moveu pela sua iniciativa em 2023. Por motivos por nós já falados e conhecidos, perdemos o ano de 2024. Agora, novamente, em suas mãos, temos certeza de que o projeto será aprovado.
É fundamental, porém, Senhor Senador, que seu relatório priorize a produção brasileira independente. Por isso, reunimos representantes das empresas abaixo assinadas, que representam economicamente mais de 80% (oitenta por cento) da produção audiovisual independente do país. Que empregam milhares de profissionais e produzem conteúdo que encontra o mercado.
Expressamos, por meio desta, nosso apoio incondicional aos avanços pragmáticos e robustos consolidados no texto aprovado pela Câmara dos Deputados, a partir do PL 2.331/2022 aprovado por V. Exa. no Senado Federal, junto com as entidades representativas da indústria, SIAESP E SICAV.
Este texto é o resultado de um amplo e necessário processo de negociação e representa a estrutura essencial para o desenvolvimento e a sustentabilidade do setor audiovisual brasileiro. As produções brasileiras independentes nacionais e regionais, sempre mais diversas e inclusivas, são as que a população brasileira conhece e gosta, gerando milhares de empregos e fomentando a economia criativa do País.
Solicitamos a V. Exa. que o texto final a ser submetido à aprovação do Plenário leve em consideração os seguintes pontos, considerados estruturantes, estratégicos e fundamentais pela indústria audiovisual brasileira:

Fortalecimento da Produção Independente e Investimento Exclusivo
O sucesso desta regulação depende da garantia de investimento direto e exclusivo no conteúdo brasileiro independente, protegendo o mercado de uma verticalização indesejada.

    Investimento Exclusivo (60% da CONDECINE): É fundamental direcionar a maioria dos recursos da nova CONDECINE, na ordem de 60%, exclusivamente para licenciamento de conteúdo brasileiro independente. Não deve haver margem para investimentos em conteúdos próprios (“originals”) dos regulados, pois o benefício da curadoria e da janela de exibição desses conteúdos já está posto para as plataformas. Este
    modelo garante a injeção de cerca de R$ 1 bilhão/ano com a rapidez, agilidade e previsibilidade que o mercado exige.
    O objetivo central desta lei é a presença da produção brasileira independente nas plataformas. Permitir que elas utilizem recursos de um benefício fiscal para tornarem-se proprietárias de direitos patrimoniais de obras brasileiras seria uma contradição grave.

    Cotas de Tela e Visibilidade
    Cota de conteúdo brasileiro de 10%: É fundamental que se mantenha a cota de 10% no catálogo. Considerando que apenas 50% serão de conteúdo brasileiro independente, estamos falando de apenas 5%. V. Exa. foi o responsável pela mais importante lei anterior a esta, que foi a do SEAC. Lembra-se que a época, o projeto falava em cota de 3% para produção independente. Um executivo de TV paga do país dizia que seria impossível essa alíquota … que não haveria conteúdo, … que o público não assistiria.
    Aprovada a lei, em 5 anos já exibiam 15% de conteúdo brasileiro independente. 3% na TV paga é muito mais do 5% nas plataformas de streaming, pois o espaço é limitado, o que não ocorre nas plataformas. Existe também um limite de 700 títulos nacionais, o que não atrapalharia plataformas que desejem ter número muito grande de títulos. Não existe argumento, Senador, que possa ser apresentado, num debate público, contra esta proposta.

    1. Proteção ao Ecossistema
      Janela de 9 Semanas: A manutenção da janela de 9 semanas para a exibição de filmes em salas de cinema é estrutural para a reorganização e a saúde do cinema brasileiro e do parque exibidor. Essa medida garante que o ecossistema cultural e econômico das salas
      de exibição se mantenha ativo e rentável, sendo uma proteção direta à diversidade cultural, além de ser uma fonte de Receita para os produtores brasileiros quando o filme performa nas salas com sucesso de público. Logo, um mecanismo histórico e universal.
      Exibir um filme nas salas de cinema, valoriza o título; dá visibilidade ao produto e amplia a sua divulgação. Em um país em que menos de 500 cidades tem um cinema, um lançamento em salas aumenta a curiosidade pelo mesmo. 9 semanas é o tempo mínimo para que exista uma exploração razoável do filme. O que perde uma plataforma com essas 9 semanas? Nada. Ao contrário, essa divulgação fará com que o filme chegue mais divulgado às plataformas. Atacar a janela de cinema é uma atitude predatória, de objetivos oligopolistas e que não enxergam a cadeia produtiva do audiovisual como um todo.
    2. Condecine de 4%
      Taxa de Condecine: Com a aplicação do desconto de 60% para Investimento Direto, a taxa efetiva será de 1.6%. Um valor que seguirá para o FSA e apoiará a produção de conteúdo ligado às políticas públicas do país. 1,6% é um número bastante modesto como contribuição efetiva das plataformas ao audiovisual brasileiro. Isso porque os demais 4% serão investidos no negócio das plataformas, ou seja, aquisição de direitos de exibição de conteúdo brasileiro independente. Em todos os países da Europa esses números são maiores. Além disso, o brasileiro gosta e assiste ao filme e à série nacional. Estamos confiantes de que o texto que V. Exa. e sua equipe irão construir será o resultado da melhor negociação. Contudo, pedimos em nome da Indústria Audiovisual Brasileira que os pontos acima sejam CONTEMPLADOS, sob pena de comprometer o resultado que o Brasil almeja. O legado que V. Exa. estará proporcionando ao Brasil a partir da aprovação desta moderna regulação do serviço de streaming é um bem eterno para brasileiros e brasileiras. O Brasil tem potencial para estar no topo da produção mundial juntamente com as outras cinematografias que tem uma política pública robusta e saudável! Ao ensejo, renovamos protestos de estima e consideração e permanecemos prontos para comemorar com V. Exa. a aprovação desta Lei na próxima semana. Atenciosamente:

    44 Toons
    Ale Machado
    Academia de Filmes
    Paulo Schmidt
    Amaia Produções
    Diane Maia
    Arpoador Audiovisual
    Érica Iootty
    Jorge Peregrino
    Bando
    Leandro HBL
    Barry Company
    Juliana Funaro
    Biônica
    Karen Castanh

    Boutique Filmes
    Gustavo Mello
    Tiago Mello
    Bronze Filmes
    Marcos Scherer
    Café Royal
    Moa Ramalho
    Camisa Listrada
    André Carreira
    Canal Azul
    Ricardo Aidar
    Casablanca
    Solange Cruz
    Cine Cinematográfica
    Raul Dória
    CineFilm
    Fernanda Senatori
    Coiote
    Marcia Vinci
    Conspiração
    Renata Brandão
    Coração da Selva
    Roberto Moreira
    Delicatessen Filmes
    Luciana Mattar
    Dueto
    Clarice Philigret
    Formata
    Daniela Busoli

    Fraiha Produções
    Silvia Fraiha
    Glaz
    Mayra Lucas
    Gullane Entretenimento .
    Caio Gullane
    Fabiano Gullane
    H2O
    Sandro Rodrigues
    Ink Studios
    Marily Raphul
    Indiana Produções
    Marcos Altberg
    Intro
    Simoni de Mendonça
    Janeiro Studios
    Kolby Gal Raday
    Ana Cécillia Springefeldt
    Join Distribuidora
    Carole Moser
    Kromaki
    Rodrigo Letier
    Lereby
    Daniel Filho
    Claudia Bejarano
    Lighthouse Produções
    Ricardo Fadel Rihan
    LC Barreto
    Paula Barreto

    Mixer Films
    João Daniel Tikhomiroff
    Marea Cine
    João Roni
    Maria Farinha Filmes
    Marcos Nisti
    Melodrama
    Glaucia Camargos
    Mistika
    Ariadne Mazzetti
    Mymama Entertainment
    Gabrielle Auad
    Morena Filmes
    Mariza Leão
    Tiago Rezende
    Mosquito

    Leandro Henrique Bezerra Lara

    Movieart
    Paulo Dantas
    Naymovie
    Ernesto Scatena
    Marco Eckart
    O2

    Andrea Barata Ribeiro
    Fernando Meirelles
    Paulo Morelli
    Papaki
    Mario Peixoto
    Paranoid Filmes
    Egisto Betti
    Heitor Dhalia

    Paris Produções
    Marcio Fraccaroli
    Pródigo
    Beto Gauss
    Providence Filmes
    André Sturm
    Quanta
    Frédéric Breyton
    Hugo Gurgel
    Reagent Media
    Marcos Tellechea
    RT Features
    Rodrigo Teixeira
    Saigon
    Marcelo Altschuler
    i.
    Santa Rita Filmes
    Marcelo Braga
    Sentimental
    Marcos Araújo
    Stone Milk
    Rodrigo Guedes
    Raccord
    Clélia Bessa
    Teleimage
    Patrick Siaretta
    Ultravioleta
    Carlos Guedes
    Veludo Filmes
    Marcelo Byrro

    Ventre
    João Queiroz
    Zencrane Filmes
    Claudia Natividade
    SIAESP
    André Sturm, presidente
    SICAV

    Glaucia Camargos, presidente

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