"Viver o medo" - capa (Kiko Farkas, Máquina Estúdio)/ reprodução
"Viver o medo" - capa (Kiko Farkas, Máquina Estúdio)/ reprodução

O belga naturalizado brasileiro Jean-Claude Bernardet (1936-2025) foi um dos mais importantes nomes do cinema brasileiro, atuando em diversas frentes: crítica, academia, direção e atuação. Jogava nas onze, para usar a metáfora futebolística clichê.

Teórico indispensável, também praticava. Influenciou gerações. Deixou um legado difícil de mensurar. Teve uma morte tão digna quanto a do poeta e ensaísta Antonio Cicero (1945-2024), quando se recusou a tratar um segundo câncer de próstata. Ambos têm o respeito deste resenhista e registro isto apenas por dever de ofício: minha opinião certamente não lhes faria agir diferente e creio piamente que é necessário existir(mos e tomarmos decisões) para além da culpa cristã que invariavelmente impregna o debate.

Bernardet era homossexual, assumido desde os tempos em que a Aids ainda era considerada a peste gay e o homossexualismo uma doença. Era também soropositivo, um dos “castigados” para usar expressão em voga no início dos anos 1980, época em que a capa da Veja exibiu um Cazuza (1958-1990) “agonizando em praça pública”, sem pena de sua fragilidade. Ironia do destino, Bernardet havia sido convidado a colaborar com a revista à altura de sua fundação, e se recusou. Premonição?

Acaba de sair “Viver o medo — uma novela pornô-gourmet” (Companhia das Letras, 2025, 122 p.), livro póstumo de Jean-Claude Bernardet — assinado a quatro mãos com Sabina Anzuategui, cujo formato de colaboração é questionado no processo de feitura — e nas páginas do livro, que mescla, em maior ou menor escala, crítica cinematográfica, memórias, autoficção, ficção, biografia e making of.

Os autores são, tornados personagens, o professor de cinema Thomas Tremblay, soropositivo com câncer de próstata e cego;. e sua ex-aluna Milena, espécie de auxiliar no cerzir da trama.

O resultado é um livro honesto, comovente, revelador e explícito, em certa medida experimental, ao colar diversas referências e formas (literárias), com a impotência como uma metáfora da vida e sua (inevitável?) decadência.

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