Marcelo Moutinho sabe contar uma história e se começo este texto dizendo o óbvio, é porque vivemos um tempo que é necessário fazê-lo: não deveria ser obrigação de um escritor saber contar uma história? Vivemos um tempo em que as inteligências artificiais vêm cumprindo mal este papel, nunca é demais lembrar.
As redes sociais, aliás, onde Moutinho também desfila seu talento, também são parte da paisagem de “Gentinha” (Record, 2026, 191 p.), novo volume de contos do vencedor do Prêmio Jabuti de crônicas com “A lua na caixa d’água” (Malê, 2021).
O título, em meio a outra paisagem, uma casa simples de subúrbio, evoca o povo a que comumente não damos importância, mas de que Moutinho extrai o fino da literatura, transpondo as vidas fictícias em textos curtos de tirar o fôlego — a título de informação, li-o todo em duas sentadas, em recepções de consultórios médicos (passo bem, a leitura a aliviar mesmo os sintomas que me levaram até ali).
A capa dialoga diretamente com o conteúdo do livro, como a anunciá-lo: uma cadeira de macarrão, uma parede descascada, imperfeita, baldes que servem para aparar a água que certamente falta e/ou recolher alguns pingos de goteiras, o piso simples como Moutinho nos faz crer que escrever o é.
E dessa confusão de informações e vozes, essa polifonia dessa gentinha, afinal de contas gente humana, demasiadamente humana, Moutinho vai tecendo sua prosa, em meio ao preconceito contra “macumbeiros” e doces de São Cosme e Damião, assaltantes fantasiados de papai Noel, o puro suco do Rio de Janeiro, um assassinato no karaokê, a paixão de uma recepcionista de consultório por Jorge Ben (até ele mudar de nome), a epígrafe de João Antônio (1937-1996), bússola do autor, e a música, personagem que aparece aqui e acolá e de onde são tirados os títulos das duas seções do livro.
O título aparece na epígrafe, “o povo-povo, povão, era grosso, inconveniente, detestável”, e na orelha de Micheliny Verunschk, “gentalha, populacho. A ralé. Utilizados [os termos] para depreciar certo recorte da população”, aquele por quem ninguém ousa olhar. Quem ousa fazê-lo invariavelmente ouve em resposta um “tá com pena? Leva pra casa”, que a pobreza não raro é confundida com banditismo.
É dessa gente imbiografável e imperfilável que Moutinho tira a matéria-prima de sua grande literatura. Gente comum que ele, o leitor e este resenhista podemos encontrar, enxergar e escutar pelas ruas, se tivermos olhos e ouvidos atentos.
Poucos dos 16 contos se passam na classe média ou alta — e ali a gentinha está às voltas nos papéis secundários que sempre lhe foram destinados, vide as telenovelas: biscateiros, prestadores de serviços, empregados domésticos, trabalhadores braçais. Num deles, um “cidadão de bem”, herdeiro de fama e sobrenome de escritório de advocacia esconde-se no armário enquanto engana a noiva e os pais sobre a própria sexualidade.
Com “Gentinha” Marcelo Moutinho reafirma o seu lugar entre os grandes da literatura brasileira contemporânea. Craque da crônica, craque do conto, versátil, demonstra jogar nas onze.

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