Eduardo Macedo, Klevisson Viana, Jô Oliveira e Bráulio Tavares - fotos: Zema Ribeiro
Eduardo Macedo, Klevisson Viana, Jô Oliveira e Bráulio Tavares - fotos: Zema Ribeiro

BRASÍLIA/DF — Inevitabilidade foi uma palavra-chave em mesa redonda que ocupou um dos auditórios da Caixa Cultural na tarde de ontem (31 de julho). O tema era “Uso de IA: vantagem ou aniquilamento da cultura popular” e integrava a programação da 7ª. Feira do Cordel Brasileiro, que pela primeira vez chega a Brasília/DF.

“Não adianta a gente se dizer contra, fazer passeata, projeto de lei ou sair na rua atirando. Ela está aí e veio para ficar”, afirmou o poeta, escritor e letrista de música popular Bráulio Tavares.

Ele mesmo disse que só usa a tecnologia para pesquisa, não para a criação. E emendou sua fala com outro conceito central do debate: o prazer de criar. “Imprimir, publicar, divulgar etc. são a parte chata da coisa. O divertido é escrever. Uma coisa que eu ouço muito entre meus amigos, sobretudo músicos e jogadores de futebol: me pagam uma fortuna para eu fazer o que eu mais gosto na vida, costumam dizer”, revelou.

O paraibano estava acompanhado dos cearenses Eduardo Macedo (mediador) e Klevisson Viana, e do pernambucano Jô Oliveira, que trouxeram questões relacionadas ao uso de inteligência artificial como plágio, padrões, direitos autorais, empobrecimento da arte e maximilização dos lucros do capitalismo por um lado, e por outro a facilitação de atividades como tradução, ilustração, transcrição, não sem problemas que precisem ser corrigidos por seres humanos. “Aí pagam um salário mínimo para um estagiário ler e fazer as comparações”, provocou Tavares. “Um livro que eu levo dois meses para traduzir, porque eu fico estudando, comparando, procurando a melhor forma, a forma mais bonita de dizer as coisas, a inteligência artificial traduz em uma tarde”, continuou.

“No meio dos tradutores há uma piada que diz que a tradução é um jogo que geralmente você perde, se for muito bom empata, mas nunca ganha, você nunca vai fazer um texto melhor que o original. Eu estava conversando outro dia com o poeta Paulo Henriques Britto, um dos maiores tradutores da língua inglesa, e ele disse que não dá cinco anos para todo serviço de tradução estar sendo feito por inteligência artificial”, previu.

Particularmente este resenhista sempre teve preocupação com o que costuma chamar de fetiche da tecnologia: o uso indiscriminado da inteligência artificial para realizar qualquer atividade. Em suma, uma frase que virou meme: não me preocupa o avanço da inteligência artificial, mas o da burrice natural. Por exemplo o jornalista que, por dever de ofício, deveria gostar de escrever, mas sucumbiu há tempos à lógica de copiar e colar releases e agora apenas aprofunda o cavar do próprio poço com a inteligência artificial.

Diante dos prognósticos negativos e catastróficos, Tavares também ousou prever, dialogando mais diretamente com o tema da mesa. “Podem cair mil bombas atômicas e o mundo acabar, toda a memória ser apagada, mas a gente ressurge saindo das cavernas recitando cordel e fazendo cantoria de viola”, vaticinou.

A programação da 7ª Feira do Cordel Brasileiro é inteiramente gratuita e segue até domingo (2 de agosto), na Caixa Cultural, em Brasília/DF — acesse completa no perfil da Feira no Instagram.

EXPOSIÇÃO — A exposição “O universo do cordel” de Jô Oliveira ocupa o hall de entrada da Caixa Cultural, passeando por diversas fases, obras e linguagens a que se faz presente o traço versátil do pernambucano, marcadamente inspirado pela xilogravura, ele, além de desenhista, autor de literatura de cordel.

O título da exposição, aliás, não abarca a dimensão da obra do artista, que além de literatura de cordel (de sua autoria ou de terceiros), ilustrou também histórias em quadrinhos, contos infantis, obras sobre o cangaço e Canudos, além de William Shakespeare (1564-1616), Miguel de Cervantes (1547-1616) e Lewis Carroll (1832-1898). O traço de Jô Oliveira também já foi visto em capas de veículos como o jornal Opinião e a revista argentina Crisis. O texto de apresentação da exposição é assinado pelo colega de mesa e ofício Bráulio Tavares.

Este texto e as fotografias que o ilustram foram realizados sem o uso de qualquer ferramenta de inteligência artificial.

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