Algo que chama a atenção logo no início do romance de estreia de Celsim P. S. é a honestidade. “Prometo ser implacável comigo para escrever sobre nós, prometo me inspirar nas nossas cartas, publicá-las e delas inventar o viver em tempos sem esperança, mas tendo como um sopro no coração a arte e a imaginação, o corpo e o movimento, o amor e a queda livre que é estar no mundo sem fundo e sem futuro. Só nos resta viver”, escreve nas primeiras páginas.
Artista múltiplo, Celsim (antes Celso Sim) é, antes de tudo, do teatro, para onde foi levado (e salvo pela primeira vez) pela irmã mais velha; mas também da música: é uma das melhores cantoras brasileiras em atividade (e também merece destaque como compositora, e se me refiro a ela no feminino é pela preferência da artista), com nove álbuns lançados, em parcerias e/ou dedicados a repertórios de nomes como Jorge Mautner, Arthur Nestrovski, João Camarero, Elizeth Cardoso (1920-1990) e Oscar da Penha, o Batatinha (1924-1997).
O lançamento de “Indetectável” (Fósforo, 2026, 312 p.), mês que vem (FAROFAFÁ leu antes), merecidamente alça-o, de já, ao panteão dos grandes escritores contemporâneos brasileiros. Romance epistolar, Celsim escreve uma autobiografia possível tendo por pano de fundo sua correspondência e “amozade” (d’après Chico César) com um Dionísio, também a(u)tor e diretor de teatro, e a epidemia de aids e todas as questões trazidas por ela à sociedade brasileira: estigmas, preconceitos, violências. Sua prosa alia tons poéticos e rigor histórico para reconstruir um período contaminado por ignorância e intolerância.
Celsim reelabora o que significava ser homossexual entre meados das décadas de 1980 e 1990, cumprindo o que promete no trecho que transcrevi na abertura desta resenha: não poupa a si mesmo, entre medos, mortes, conjuntura e a história da evolução da ciência para o tratamento da aids, com a universalização do acesso gratuito a ele, graças ao pioneirismo do Sistema Único de Saúde brasileiro, em capítulos-pílulas dedicados ao assunto, paralelos à trama central.
É difícil classificar “Indetectável”. Sua natureza é híbrida, entre cartas, boletins e a escrita visceral e singular de sua talentosa autora, um jovem cheio de sonhos à época da epidemia, que viria a se tornar uma das mais importantes, interessantes e versáteis artistas brasileiras, atuando em qualquer campo escolhido, agora a literatura, em que já debuta imensa.
A artista desnuda-se e se revela com notável franqueza: sua história tem nomes, preferências e práticas que certamente incomodarão conservadores e hipócritas em geral — nunca é demais lembrar que estamos novamente em uma encruzilhada eleitoral. Mas não foi para estes que Celsim escreveu seu romance de estreia, literalmente sua saída do armário (literário): “essa gente careta e covarde” se preocupa com a sexualidade alheia dentro ou fora dele.
A estreia na literatura apenas reafirma a grandeza já demonstrada por Celsim em outras artes. A artista e sua literatura são viscerais, ousados, corajosos e sinceros. Em suma: imprescindíveis.

Serviço: a noite de autógrafos de “Indetectável” acontece dia 6 de outubro, às 19h, no Teatro de Cultura Artística Megafauna (Rua Nestor Pestana, 196, São Paulo).

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