O argentino Leandro Paredes agride o espanhol Gavi após a derrota para a Espanha, no domingo, nos Estados Unidos

Um dos slogans mais lamentáveis da Cazé TV, que exibiu jogos da Copa do Mundo 2026, dizia algo como “chegou a hora de separar os adultos das crianças”. Essa frase estava estampada na tela de milhões no domingo, na hora do jogo decisivo. É possível definir toda a essência dessa Copa do Mundo, e de seu jogo final, a partir do equívoco fundamental desse slogan (originalmente “separar os homens dos meninos”, no domínio popular da machosfera). Com o pretexto de abarcar com essa frase infeliz a iminência de um jogo decisivo, a emissora (ou seria plataforma? ou seria subprime?) materializou a encruzilhada crucial que o futebol masculino encara em um mundo em mutação – uma Velha Ordem, criada, amamentada e fortalecida na antiga noção da virilidade masculina, de foul play, do elogio da deslealdade e do fingimento, de representação de uma masculinidade física, tentava assegurar sua supremacia histórica na marra. Do outro lado, postou-se uma geração de novos jogadores que não fundamentam as vitórias em cotoveladas e socos, em bravatas e descortesias. Que são capazes de abraçar os adversários quando derrotados, não ostentam “bomba” (Cucurella, Nico Williams, Oyarzabal e Yamal), namoram garotas trans (Mbappé), desembarcam em casa com um guaxinim de pelúcia de free shop (Haaland), trazem a mãe pela mão para compartilhar seu momento de glória (Vozinha) e conhecem a fundo sociologia e política (“Hey” Jude Bellingham).

Esse ambiente de evidente divergência simbólica nunca apareceu antes no futebol. Ele só alcançou, no máximo, até o metrossexual britânico David Beckham. Todo o debate foi sempre soterrado pelo pragmatismo dos resultados. Ao longo da Copa de 2026, houve indícios de que a Velha Ordem triunfaria mais uma vez. As seguidas vitórias da seleção argentina, em especial, mascarando os artifícios extrafutebol que a albiceleste vinha utilizando (uma escola de intimidação e usufruto de benefícios da leniência arbitral), prometiam mais uma derrota silenciosa. Mais poderosa do ponto de vista político, mesmo que circunstancialmente, a Argentina sofre menos criticismo do que o Paraguai, por exemplo, também cultor de um futebol de estiva, uma estratégia de interdição física do adversário – tradição que, ironicamente, foi inaugurada pela Inglaterra de 1966 contra Pelé, a mesma Inglaterra que agora foi vítima, na semifinal.

As audiências, acompanhando as partidas sem perspectiva histórica, insufladas pela crônica esportiva paga-pau de vitoriosos, iam engolindo sem retrucar as velhas ladainhas do triunfo da vontade, da “raça” (certamente o termo mais racista da tradição cafajeste do fut), do grupo heterogêneo curiosamente predestinado à superação.

Por tudo isso, foi uma feliz escolha, para fechar a festa ecumênica do futebol, que tenham sido escaladas justamente Madonna e Shakira, responsáveis por ondas consecutivas de emancipação feminina, LGBTQIA+, sexual, comportamental, madrinhas de hordas de liberações a partir dos anos 1980, para fincar as cores do arco-íris na arena dos ex-bretões. O esporte, pela capacidade de mobilização instantânea, carrega consigo uma força política fundamental. Os atletas já têm consciência disso há muito tempo, mas suas manifestações sempre foram mais de caráter individual – começando com os punhos cerrados dos atletas negros em 1968 e culminando no “I love my black job” de Simone Biles em 2024. Cumpria agora modificar as pulsões coletivas, questionar os dogmas do vale-tudo e da Síndrome de Leônidas, os privilégios estendidos dos sheiks, príncipes e gângsteres nos camarotes.

A boa nova é que, ao menos no jogo final, os meninos estancaram (o termo, evidentemente, contém ironia) a tradição cafajeste dos “homens” com brilhantismo. O trogloditismo de Leandro Paredes e Enzo Fernández (o mesmo que, na Copa América de 2024, transmitiu pelo Instagram um vídeo com sua seleção cantando cânticos racistas e transfóbicos) caiu aos pés de dreadlocks ganeses e topetes guineenses de Nico e Yamal. O adversário espanhol terminou o jogo com 5 cartões amarelos e 2 vermelhos e somente um chute a gol, contra 19 do rival.

Restou virar as costas para o novo mundo no pódio. Os socos e as agressões deflagraram uma onda de repúdio global. Mas agora já não se trata de conquistar corações & mentes. A mudança, pelo que vimos, já se entranhou nos vestiários e nos ritos do antigo futebol. Está desconfiada das narrações de ética de quinta série das transmissões esportivas. Pede um tempo também novo para o balé dos craques e dos cabeças de bagre, por que não? O futebol merece.

Precisamos de um quilo de farinha pra fazer FAROFAFÁ!

Mascote FAROFAFÁ Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não somos donos bilionários e não corremos atrás de cliques a qualquer custo. Isso significa duas coisas:

1. Farofafá trata do que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores.

2. Praticamos jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu a música, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Você pode ajudar a deixar Farofafá mais forte e vibrante! Escolha sua forma de contribuir e vamos farofafar juntos!

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome