Daniel Vorcaro só nasceria três anos após o vocalista da banda Ratos de Porão, João Gordo, postado ao lado do balcão da boate underground Madame Satã, acertar um cruzado no rosto do cantor Cazuza, que não conhecia (após o carioca ter ousado chegar por trás e montado cavalinho no então irascível cantor punk). Essa e outras histórias, nenhuma delas relativa à vitalidade do mercado financeiro ou à esperteza dos jogadores de bitcoins, alimentaram a lenda da nossa biboca Madame Satã a partir de 1980. Essa semana, o mundo alternativo descobriu, horrorizado, que Daniel Vorcaro patrocinou um rega-bofe no agora rebatizado Madame Satã (hoje somente Madame Club) para 20 homens (políticos e figuras de influência social, incluindo um ex-ministro) e 120 mulheres (a maior parte sob pagamento de cachê) em novembro de 2023.

Em agosto, o nanocandidato Renan Santos, do partido Missão, fez o lançamento de sua campanha à presidência da República com violão e gaita com um neck rack (suporte de pescoço), mimetizando Bob Dylan, no histórico Largo de São Francisco, em São Paulo, fazendo alusão a uma presumível homenagem à cantora estadunidense Joan Baez, expoente da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Proibida de se apresentar no Brasil em 1981 pela ditadura militar, Joan Baez cantou para estudantes ali naquele local, insuflando a desobediência civil. Já integrantes do Movimento Brasil Livre, do qual Renan Santos é um dos fundadores, pregam a abolição do voto feminino e outros direitos das mulheres, além do combate aos ativistas identitários. Joan Baez tem tanto a ver com Renan Santos quanto Madre Tereza de Calcutá com Chuck Norris.

Essa semana, um vídeo quase fofo se espalhou pelas redes. Ele mostra, em novembro de 2024, em uma festa das Mil e Uma Noites na baía de Taghazout, no sul do Marrocos, um romântico ex-banqueiro Vorcaro fazendo um karaokê constrangedor da canção Boa Sorte/Good Luck, de Vanessa da Mata e Ben Harper, em um dueto com sua então noiva, Martha Graeff. Logo a seguir, o ex-bilionário fechou um dos hoteis mais caros de Roma para outra festa. Dessa vez, para sorte dos convivas, contratou Coldplay, Andrea Bocelli, David Guetta, Michael Bublé e Seal para fazer a música, desistindo do futuro de pop star.

A questão é: o que leva a elite do atraso do Brasil a flertar com símbolos da contracultura e da cultura pop? Antes de ser preso como artífice do maior escândalo financeiro da História do Brasil, Daniel Vorcaro era financiador da extrema-direita, essa mesma que pede a criminalização da Lei Rouanet e dos artistas e preconiza a extinção da cultura como preocupação do Estado. Na última gestão de um governo de extrema-direita, o de Jair Bolsonaro, o investimento em cultura foi reduzido a 25% do que tradicionalmente era feito no País – sem contar os quase 300 atos de censura (política e de costumes) perpetrada por aquele governo.

Só a esquizofrenia cultural típicos de nossa época explica essa bizarria. Apresentados a artefatos da cultura como se fossem verbetes do Gemini ou gracinhas de Tik-Tok, o direitista e o extremista brasileiros desenvolveram um paladar onívoro, ahistórico, que os torna incapazes de discernir a partir de referências éticas ou estéticas, existenciais ou sociológicas. Parecem enxergar naquilo ali um artefato insular, sem história, mas com um invólucro bacana, que os banha de “ilustração” sem macular sua ignorância. Foi em um show do baixista Roger Waters que essa desconexão foi mostrada pela primeira vez em sua dimensão massiva.

“As pessoas têm tido ideias que são fruto de muita ignorância, muita leseira, repetem (coisas) feito papagaio sem saber o que é uma Lei Rouanet ou qualquer lei, seja para fiscalizar o agronegócio ou as igrejas que não pagam impostos. Não sabem o que é aprovar um projeto”, discursou a cantora Vanessa da Mata em 2022. Vorcaro certamente não achava que o verso “Falling into the sky”, aparentemente inócuo, fosse produto de uma mente criativa que sabe exatamente o que canta e porque canta. Essa dessintonia com o significado ameniza um pouco o sentimento de constrangimento que sentimos quando um personagem alheio resolve invadir um território sagrado (análoga àquela de quando cruzamos com o sujeito com camisa da seleção brasileira de futebol no metrô, enrolado com uma bandeira dos Estados Unidos, seguindo para a Avenida Paulista para pedir o fim do direito de manifestação). O bom encontro é de dois.

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