Paulistinha de 1980, de Waldyr Igayara de Souza, e Paulistinha de 2026, de Ricardo Nunes e Mauricio de Sousa. Reprodução
Paulistinha de 1980, de Waldyr Igayara de Souza, e Paulistinha de 2026, de Ricardo Nunes e Mauricio de Sousa. Reprodução

Ele foi apresentado com “um novo personagem de Mauricio de Sousa”. É provável que nenhum outro rebento do pai da Turma da Mônica tenha nascido tão rico. Porém, o novo personagem de Mauricio de Sousa talvez não seja tão novo assim. Pelo menos no nome.

Como não pedimos aqui para o ChatGPT nem Claude escrever as reportagens, vamos citar uma fonte que resumiu melhor do que faríamos essa história da riqueza do Paulistinha.

Conforme registrou a escritora Clara Averbuck em sua newsletter, “Paulistinha foi criado por Mauricio de Sousa em parceria com o instituto que leva o nome dele para comemorar os 90 anos do cartunista (…). O pacote completo da homenagem, que inclui desfile com carros alegóricos no Sambódromo do Anhembi, 91 esculturas espalhadas pela cidade, banco de bronze na Avenida Paulista, distribuição de gibis e oficinas na Biblioteca Mário de Andrade está orçado em R$ 11 milhões, bancados pela administração municipal, segundo apuração da Folha de S.Paulo repercutida por Metrópoles e outros veículos.”

O Paulistinha milionário de Ricardo Nunes, no entanto, não é o primeiro a receber este nome. Ele já teve um homônimo, que aliás tinha já o jeitão do novo moleque, lançado em 1980 na gestão de Paulo Maluf. O desenho foi criado pelo quadrinista Waldyr Igayara de Souza (1934-2002).

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Waldyr Igayara de Souza foi um dos primeiros desenhistas brasileiros a criar e ilustrar histórias Disney, quando, ainda no final dos anos 1960, trabalhava para a Editora Abril.

Na Abril, onde trabalhou por 25 anos, Igayara desenhou personagens como Zé CariocaPeninha e seu sobrinho Biquinho, que ele próprio criou.

Conforme relembrou Marcos Nogueira, em crônica publicada na Folha de S.Paulo em 20 de setembro de 2018: “Em 1980, o governador Paulo Maluf lançou o álbum da ‘Turma do Paulistinha’, uma tentativa de diminuir a sonegação de impostos. Você trocava notas fiscais por figurinhas do tal Paulistinha, um menino de apurado espírito cívico que visitava obras importantes como a usina de Barra Bonita e a Rodovia dos Imigrantes. Eu e meus amigos percorríamos os mercados da grande Aclimação: Cambuci, Jardim da Glória, Vila Deodoro e Vila Monumento. No chão, encontrávamos dezenas de notas graúdas entre as montanhas de papel descartado. Completamos o álbum sem gastar um centavo nosso.”

Eu mesmo me lembro muito bem dessa campanha. As figurinhas que mais me interessavam estavam ligadas aos times de futebol: São José, de São José dos Campos, São Bento, de Sorocaba, e Ferroviária, de Araraquara, ficaram na minha lembrança. Tenho também a memória de ficar chateado com meu pai, que foi comprar um tênis Rainha, para meus jogos de futebol de salão na AABB, no Campo Limpo, e voltou sem a nota fiscal…

O álbum de figurinhas malufista tinha um total de 200 cromos. Cada vez que o contribuinte acumulava uma certa quantia em notas, ele podia trocar por um pacote de figurinhas. As estações de troca estavam localizadas nas estações de metrô da cidade e agências do Banco do Estado de São Paulo, Caixa Econômica Estadual, Banco Brasileiro de Descontos, Casas Pernambucanas, Buri, Lojas Mappin, Sears, Grupo Pão de Açúcar e shopping centers. O álbum completo concorria a prêmios sorteados a partir de números da Loteria Federal. Ao todo, teriam sido distribuídas 400 milhões de figurinhas comuns, 50 mil figurinhas carimbadas e 1,5 milhão de álbuns, segundo reportagens da imprensa sobre o projeto.

A campanha surtiu o efeito de estimular a exigência, pelo consumidor, da nota fiscal, forçando empresas a pagarem os impostos que anteriormente eram sonegados. Nas negociações com a Secretaria da Fazenda Paulista, a Associação Brasileira de Supermercados sugeriu a isentar de ICM produtos básicos, como arroz, feijão e batata, e prometeu congelar o preço de vinte produtos básicos por um mês (num ano em que a inflação chegou ao 100% ao ano).

Páginas completas do álbum de figurinhas da Turma do Paulistinha de 1980

Clara Averbuck lembra que os R$ 11 milhões destinados ao Paulistinha de Mauricio de Sousa surgem depois de cortes brutais no orçamento da Cultura na cidade. “Em 2025 a gestão Ricardo Nunes deixou de empenhar R$ 37,1 milhões dos R$ 159,7 milhões previstos para o fomento à cultura na cidade. Não gastou mal, tá? NÃO gastou. Treze dos quinze programas ficaram abaixo do combinado. Isso está no informativo da bancada do PT na Câmara, que cruzou os dados com a Lei Orçamentária Anual. Aqui a gente trabalha com dados e com Portal da Transparência, tá? Fake news fica ali, pode entrar na primeira à direita. Em março deste ano veio o segundo ato: o Decreto nº 65.010/2026 tirou R$ 70,6 milhões dos R$ 72,5 milhões que a própria Câmara tinha aprovado para o Fundo Municipal de Cultura. TIROU. Sobrou R$ 1,9 milhão para uma cidade de mais de onze milhões de habitantes. Menos de VINTE CENTAVOS 0,20 por paulistano para financiar teatro, dança, orquestra, circo, samba, literatura, cultura em geral. Toda a cultura.”

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