Onde acabam esses voos? 

Dissolvem-se no ar, na brisa, no ato? 

São solúveis em água ou em vinho? 

Fazendo eco ao seu poema, um dos inúmeros voos do poeta Paulo Leminski (1944-1989) só veio acabar agora, 44 anos após a aterrisagem do autor curitibano. Eram por volta das 9 horas da manhã do dia 24 de abril de 1982 quando ele desembarcou em São Paulo em um voo da antiga Varig, vindo de Curitiba. Distraídos, perderemos muita coisa em aviões. Ele, naquele desembarque, esqueceu na poltrona da aeronave um envelope cheio de anotações, poemas em processo, rabiscos e preciosidades de toda ordem. Um ex-gerente da Varig, Ernani Edson de Paula, achou o material e, embora sem ter noção do que aquilo significasse, o guardou, “sem fazer ideia da preciosidade que tinha em mãos”, segundo notícia publicada anteontem no jornal Tribuna do Paraná.

Mais de quatro décadas depois, a filha daquele gerente da Varig, Caroline de Paula, resolveu abrir o envelope que seu pai guardava e se deu conta do que tinha em mãos. Ela procurou o experiente jornalista Célio Martins, que confirmou a autenticidade do achado com a família do poeta. Assim, por obra e graça do destino, Célio organizou uma cerimônia de entrega dos escritos inéditos à família, que será no próximo dia 18 de março, quarta-feira, às 17h30, na Biblioteca Pública do Paraná (BPP). No local, só cabem 132 pessoas, mas a poesia, que é um “inutensílio”, como dizia o autor curitibano, sempre acha um jeito de vazar para fora, e logo teremos ideia do que havia naqueles manuscritos do poeta. Por enquanto, sabemos que há poemas inéditos, anotações e uma tradução para o inglês da canção Esotérico (1975), de Gilberto Gil.

Paulo Leminski foi o homenageado da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o mais destacado encontro de literatura do País, em agosto do ano passado, no Rio de Janeiro, visitada por 34 mil pessoas.

Abaixo, fragmento de um rascunho que o envelope continha:

Aqui, cópia da passagem daquele voo do poeta curitibano:

“Ser poeta aos 17 anos é fácil, eu quero ver alguém continuar acreditando em poesia aos 22 anos, aos 25 anos, aos 28 anos, aos 32 anos, aos 35 anos, aos 40 anos…” (Paulo Leminski) 

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