A crise na Fundação Padre Anchieta, instituição gestora da TV Cultura, começa a avolumar-se. Somente este ano, ela já levou ao cancelamento de 8 programas e à demissão de 116 funcionários. Deputados da oposição na Assembleia Legislativa do Estado alertam para o risco de aprofundamento dos problemas no ano que vem, graças a uma estratégia de “estrangulamento” gestada nas políticas públicas do Governo do Estado de São Paulo para 2025. Observando-se os orçamentos de 2024 e 2025 (aprovado nesta terça-feira, 17, pela Assembleia Legislativa), é possível constatar que eles estão cobertos de razão.

A estratégia de asfixiamento de uma das principais redes de TV públicas do País parte de uma manobra contábil. Publicamente, o governo diz que aumentou o orçamento da Fundação Padre Anchieta – de 104 milhões em 2024, para 107 milhões em 2025 (em recursos diretos do Tesouro do Estado). Mas é uma falácia. O orçamento de 2024, além dos 104 milhões, também destinava, a título de despesas correntes, outros 12 milhões provenientes do Tesouro do Estado para gastos como água, luz e manutenção predial. Para piorar, a proposta orçamentária do Estado de São Paulo para 2025 exige que a TV Cultura incremente em cerca de 10 milhões os recursos próprios – ou seja: que busque no mercado receitas extras de publicidade que já não vinha conseguindo captar.

Deputados de oposição na Assembleia Legislativa falam em um contrassenso do governo de Tarcísio de Freitas: a arrecadação do Estado de São Paulo em 2025 será uma das maiores da História. A receita prevista é de R$ 372 bilhões e representa um aumento de 13,5% em relação ao Orçamento do último ano. O orçamento anual da TV Cultura para 2025 é exatamente igual ao de 2014, mais de uma década atrás, nunca houve recomposição dos recursos.

Ao mesmo tempo em que age para minar a autonomia da TV pública, o governo Tarcísio de Freitas também aumenta sua ingerência política na composição da fundação. Há alguns dias, foi conduzido ao conselho da Fundação Padre Anchieta um deputado estadual bolsonarista, Lucas Bove (do PL, partido que ajudou a articular uma tentativa de golpe de Estado no País, segundo o Supremo Tribunal Federal). Uma das façanhas recentes de Bove foi pedir à Assembleia Legislativa que pague sua ida à posse do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, em janeiro, cerimônia para a qual não foi convidado. Ele também é acusado de violência doméstica, com registro de boletim de ocorrência de agressão à ex-mulher, a influenciadora digital e professora Cintia Chagas.

Espectadores e admiradores da emissora organizaram um abaixo-assinado na Internet pedindo apoio à TV Cultura e providências das autoridades para evitar danos maiores à sua integridade. O documento já tem quase 7 mil assinaturas.

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