O debate cultural vive dias vertiginosos no Brasil. Enquanto escrevo estas palavras já deve ter acontecido um monte de coisa nova. Vivemos um momento iluminado – ainda que seja crescente a impressão de estarmos dentro de um trem desgovernado.

O instante é propício para eu reativar o velho “blog do PAS, agora na casa FAROFAFÁ/CartaCapital – e, sobretudo, para que tentemos raciocinar juntos sobre tudo que está acontecendo.

A quarta-feira histórica de 16 de outubro de 2013 presenciou nada menos que TRÊS embates épicos, que resumem muito do muito que está guardado dentro da “polêmica das biografias”, ou assim mal-apelidada “Lei Roberto Carlos” – a lei que (até este momento) nunca existiu, mas existe na prática pelo menos desde 2007, quando o “Rei” do Brasil e a Justiça do Brasil uniram forças para jogar à fogueira um livro de história do Brasil.

O primeiro embate da quarta-feira (a ordem não é necessariamente esta) envolveu Chico Buarque Paulo Cesar de Araújo: o compositor e o historiador, o escritor de romances e o escritor de biografias, o músico e o musicólogo, o escritor “esquerdista” de Leite Derramado e o biógrafo do “direitista” Roberto Carlos.

A segunda peleja, ainda mais aguerrida, chocou Paula Lavigne Barbara Gancia: a produtora cultural e a jornalista, a empresária de artistas e a colunista eleita pelo dono do jornal, a testa-de-ferro dos Procure Saber e a testa-de-ferro do Otavio Frias Filho.

O terceiro confronto foi protagonizado pelo mesmo Chico Buarque e por Luiz Schwarcz: o músico e o editor de livros, o escritor de romances e o homem que lança seus romances, a canção e o livro.

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Música popular brasileira, jornalismo e literatura estão no ringue. Não sabemos ainda se cinema e televisão estão no aquecimento ou se permanecerão para sempre nos cordéis do bastidor. O teatro segue a sina de patinho feio, embora seja até aqui o setor mais maltratado pela sanha censora que Chico fez abater sobre a própria obra – e sobre as obras dos outros, Irmãos Grimm incluídos.

A esta altura todo mundo já escreveu um artigo, menos alguns dos homens que manobram as marionetes – um de sobrenome Frias ou Mesquita ou Civita, representando a palavra, outro de sobrenome Marinho, significando a imagem.

É disso tudo que estamos falando, e ainda há mais. Tentemos decupar um milésimo do que aconteceu na quarta-feira sangrenta.

Logo de manhã, causou espécie o artigo “Penso eu”, de Chico Buarque, n’O Globo – a palavrinha Globo ainda não havia aparecido neste texto, mas ela está subjacente a TUDO que está acontecendo. O momento atual é diretamente tributário de um momento imediatamente anterior, quando as Organizações Globo “admitiram”, com 49 anos de atraso, o “erro” de sua participação direta na ditadura civil-militar brasileira. Irredutíveis e cometendo um erro atrás do outro, os Procure Saber parecem empenhados em expor, pela negação, “erros” que porventura tenham cometido lá atrás, de que nós nem sequer temos conhecimento. Será que a expiação de “erros” que acometeu repentinamente (?) a Globo também assanhou os maiores heróis da MARAVILHOSA música popular brasileira?

Voltemos ao “Penso eu”. A quarta-feira foi cruel com Chico e com seu texto, escrito com aparente má vontade, displicência ou qualquer coisa próxima disso. O decorrer do dia demonstrou não só que nosso super-herói nacional está (como todos nós) sujeito a erros, equívocos e enganos, como o apanhou numa mentira óbvia, flagrante, primária. Coisas de quem se acostumou a acreditar que pode tudo e jamais será contestado (veja abaixo como o próprio Chico chamou esse monstro para si quando confessou, sob um ataque de riso, seu espanto por descobrir que falam mal dele “na internet”). Ele poderia ter substituído “internet” por “vida real”, mas tudo bem.

A primeira contestação ao texto de Chico apareceu ainda de manhã, pela pena de Luiz Schwarcz (que rapidez, sr. Schwarcz!), no blog de sua Companhia das Letras. (Sim, blogs e sites são hoje essenciais no transcurso de debates que, antigamente, ficariam confinados apenas ao plim-plim e às páginas nada desinteressadas dos jornais.)

Em “Um editor de biografias“, Schwarcz arrasou as herdeiras (negras?) de Garrincha, expôs algumas vísceras do mundo editorial e respondeu em detalhes (ops!) ao que antes parecera uma ameaça velada contida no texto de Chico.

voce-sabia-fraude_out07Disse Chico em “Penso eu”: “Como Mário Magalhães, sou autor da Companhia das Letras e ainda me considero amigo do seu editor Luiz Schwarcz. Mas também estive perto do Garrincha, conheci algumas de suas filhas em Roma. Li que os herdeiros do Garrincha conseguiram uma alta indenização da Companhia das Letras. Não sei quanto foi, mas acho justo“.

Em sua resposta, Schwarcz não disse tudo, mas tampouco economizou o verbo. “Pela lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim” – sem querer tachar o protagonista em si de “censor”, jogou o ônus no colo dos herdeiros, para ele miseráveis. “O Procure Saber escolheu o vilão errado e ofendeu os profissionais do livro ao defender a permissão apenas da publicação gratuita dos livros pela internet, apresentando editores e escritores como argentários e pilantras profissionais” – completou, defendendo a classe que lhe garante parte do sustento e dizendo sem dizer que há interesses mais-que-literários, audiovisuaisglobais, que por enquanto nenhum dos lados em disputa se dispôs a desossar. Qual seria o vilão certo a escolher?

Tanto Chico como Luiz usaram e abusaram do verbo “denegrir”, flagrantemente racista – algo equivalente ocorreria se Buarque resolvesse “judiar” de Schwarcz, que deve ser judeu, a crer no sobrenome.

Pausa: essa parte do embate épico teve desdobramento catártico na quinta-feira, por intermédio do artigo “Meu caro Chico“, assinado no mesmo e onipresente O Globo por Mário Magalhães, jornalista e biógrafo de Carlos Marighella. Mário “judiou” (ops!) de Chico. “Biografias são reportagens, que constituem gênero do jornalismo. Pagar royalties a personagens descaracteriza biografias não autorizadas – você propõe mesmo dar uns caraminguás aos netos do Medici?”, revolveu feridas. “Você menciona, sem título, uma biografia do Cabo Anselmo. Conheço três obras focadas no infiltrado que entregou a mulher grávida para repressores da ditadura a matarem (ela se chamava Soledad, e não Consuelo; todos tropeçamos, não somente os biógrafos)”, esmerilhou. A gente precisa checar a precisão do que escreve, mesmo que a gente seja um super-herói nacional. Fim da pausa.

O pior (para Chico) estava por vir. Paulo Cesar de Araújo assinou (uma chance para você descobrir onde) o artigo “De seu amável interrogador“, desmascarando uma mentira praticada escancaradamente por Chico em seu “Penso eu” – conseguiremos sobreviver à descoberta de que nosso maior ídolo cultural, como nós, também mente eventualmente?

Maria_Beth_nia_Luiz_Melodia_Gal_Costa_Nara_Le_o_Odair_Jos_e_Caetano_VelosoBuarque, filho de historiador, demonstra detestar Araújo desde a publicação do livro de historiador (a meu ver sensacional, crucial, fundador) Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar. O tratado de Araújo sobre os preconceitos da elite MPB aos artistas chamados “cafonas” saiu em 2002, portanto antes do lançamento e censura de Roberto Carlos em Detalhes, por obra e graça dos cães de guarda do “Rei” (entre os quais se incluiu até mesmo um juiz-cantor-fã). Perdão, não estou encontrando um link aqui, mas à época Buarque desancou publicamente a obra de Araújo sobre os cafonas. Buarque demonstra apoiar fragorosamente a censura de Roberto Carlos em Detalhes. O ódio figadal de Buarque por Araújo é algo que ainda precisamos entender (ops!).

No artigo e em entrevista posterior, Paulo Cesar demonstrou cabalmente que Chico mente (ou perdeu a memória, segundo hipótese irônica do biógrafo) ao afirmar que nunca deu entrevista ao historiador. Mostrou foto de ambos juntos, e foi além: trouxe à tona um vídeo da entrevista (eu gostaria de reproduzir aqui o vídeo, mas está trancado n’O Globo, como se, agora, fosse propriedade exclusiva do espólio de Roberto Marinho). Estaríamos inaugurando aqui a Era das Fitas Que Aparecem, para desespero de Gilmar Mendes e de repórteres da Veja e da Folha de São Paulo?

Passemos para o outro lado do embate – o lado feminino -, que lá adiante (perdoe a comprideza incontornável deste texto) se encontrará com o lado masculino exposto acima.

Enquanto tantos embates masculinos se davam, a empresária (e ex-esposa) de Caetano Veloso, Paula Lavigne, foi ao programa Saia Justa (do GNT, ou seja, da Globo), conduzido com sobriedade pela jornalista Astrid Fontenelle. O programa foi exibido na noite da quarta, mas é pré-gravado, e notícias “quentes” sobre ele pululavam nas Globos desde a manhã.

Unknown-2Como o Procure Saber todo já vem tentando fazer, Paula forçou a barra para focar a discussão no aspecto da privacidade dos artistas. Em artimanha inteligente (e agressiva) para provar que a privacidade deve ser defendida na frente de tudo, a empresária expôs a homossexualidade da participante Barbara Gancia e perguntou o nome da namorada dela (parece haver detalhes – ops! – picantes ali atrás). Já vínhamos tocando em questões de gênero e identidade racial, eis aí a identidade sexual adentrando no recinto.

Sexo, sexualidade, gênero, identidade racial, música, cultura, entretenimento, política: o que ainda falta entrar nessa MARAVILHOSA discussão?

Falta, talvez, aprofundar a referência à misoginia. A quarta-feira mostrou, uma vez mais, que as convenções mandam os assuntos “sérios” pertencerem aos homens, enquanto as mulheres se engalfinham umas com as outras em disputas de… fofocas. Companhia das Letras versus revista Caras? Homens contra mulheres? Será mesmo?

Mais uma pausa, no capítulo misoginia. Como desdobramento no dia seguinte, a irmã de Chico (e ex-ministra da Cultura) Ana de Hollanda divergiu (adivinhe onde) do irmão e declarou apoio às biografias não-autorizadas. O jornal da rede de TV que exibe misoginia a granel na telenovela Amor à Vida não conseguiu disfarçar o espanto diante da audácia da pilombeta. “Ana de Hollanda contraria opinião de Chico Buarque e se diz a favor de biografias sem autorização”, disse o maior título da história deste país, abertamente chocado com o fato de a irmã ter ousado “contrariar” a “opinião” do moço d'”A Banda”. Parece brincadeira, mas não é: quem neste país ousa contrariar Chico Buarque? Fim da pausa.

Paula Lavigne, que eu havia interpretado como “eminência pálida” controlando velosos & buarques, gilbertos & robertos, tem cada vez mais tomado feições de uma testa-de-ferro à frente de uma amedrontadora tropa masculina de elite. São SETE varões – além dos já citados Chico & Caetano & Roberto, os mais discretos Gilberto GilMilton NascimentoErasmo Carlos Djavan. O papel é difícil, eu diria impraticável, mas ela surpreendentemente tem se saído melhor que os sete marmanjos juntos, quando se põe a falar.

Paula veio com a força de um elefante branco aprisionado dentro de uma delicada sala de cristais – e muito desconfortável nessa posição. Desculpou-se por ter xingado Mônica Bergamo, colunista políticossocial da Folha de São Paulo, de “encalhada” no Twitter. Mas revelou que é amiga pessoal da jornalista, que, segundo Paula, frequenta sua casa e conhece seus filhos com Caetano Veloso – então é assim no andar de cima da nossa sociedade?, jornalistas & artistas & empresários (& políticos) (& seus serviçais e bajuladores) trocando farpas nas páginas de jornal e fazendo juras de amizade e compadrio às escondidas?

O desenho social por trás desse painel é, ele mesmo, vertiginoso – e sanguinolento. Na casa-grande, homens brancos (será?) heterossexuais (será?) discutindo cultura. No puxadinho ao lado do refúgio dos coronéis censores, mulheres brancas, mulheres & homens homossexuais, esposas, amigas, ex-esposas, ex-amigas, fofoqueiras, “amadas amantes” – e nenhum negro, menos ainda alguma negra. Na senzala, nós. Joaquim NabucoGilberto FreyreSergio Buarque de Hollanda, haja esqueleto nesse armário para ajudar a nos explicar.

Me espera, estou chegando à reta final. Falta lembrar que este nosso incrível país é hoje governado por uma dessas mulheres, uma ex-guerrilheira torturada, chamada Dilma Rousseff. Em meio ao tiroteio cerrado de aparente futilidade “feminina”, o importante ressurgiu bem ali no debate “de saias” do Saia Justa (aliás, quem foi que disse que condição sexual é detalhe – ops! – desimportante em nossas vidas?).

Paula Lavigne, ainda que sob o escudo de pesada agressividade, conseguiu, sim, repor alguma dignidade à luta inglória (e acredito que injusta, do modo como está posta) dos Procure Saber. Trouxe, para isso, o caso de quando Caetano ficou preso em Nova York, por ocasião do ataque às Torres Gêmeas (essas também ainda faltavam ao debate). A imprensa à época publicou que Caetano deu ataque histérico (termo meu, não de Paula) por não conseguir voltar ao Brasil. Ela diz que era tudo mentira. Paula e Caetano processaram os mentirosos – e perderam. E Paula pergunta: porque perdemos virou verdade?, quando sair uma biografia de Caetano (quando?!!!) o ataque histérico terá virado verdade (tropical)?

Chico – eis ele de volta – também havia tocado nesse ponto no “Penso eu”, invocando Paulo Cesar de Araújo como “mentiroso” antes de a pecha da mentira cair de volta no próprio colo. Os Procure Saber estão repletos de razão quanto a esse aspecto. Estão corretos em protestar que biógrafos, mesmo os mais sérios, se apoiem em notícias (não necessariamente verdadeiras) publicadas na mídia e eternizadas na historiografia quando transpostas para livros.

É um aspecto crucial que faz convergirem os (MARAVILHOSOS) debates sobre liberdade de expressão e limites do jornalismo e dos jornalistas (e de seus donos, digo, patrões). Na prática, funciona assim: posso escrever aqui neste espaço que Roberto Carlos tem apenas uma perna, mas se eu reproduzir ests mesma “revelação” num livro que eu venha a escrever (ou já tenha escrito), posso ser processado e ter minha obra recolhida das estantes – nesse caso, menos por inverdade que por estar desafiando o poderio aparentemente ilimitado do homem que mais vendeu discos na história do Brasil (e que, coincidência!, é funcionário-padrão das Organizações Globo).

Com a devida contradição do próprio destempero, Paula está cheia de razão, também, em solicitar alguma sobriedade ao debate. Embora ainda discorde de 70% do que ela vem falando, concordo com ela e com os Procure Saber quanto a isso e quanto aos limites do estilo “posso tudo” do jornalismo popular brasileira.

Eis algo que precisamos aprofundar: há justiça em algumas das reivindicações do Procure Saber. Onde não há justiça nenhuma é (na confusão generalizada entre deveres públicos & direitos privados e) na convicção mimada e irrealista de grandes heróis da nossa música em se supor acima das leis, acima do diálogo, acima dos demais cidadãos. Foi essa a tragédia que o “namoradinho do Brasil” teve a generosidade (provavelmente involuntária) de colocar a nu, paratodos nós, nessa quarta-feira sem cinzas. Os reis da cultura estão nus, e o Brasil sairá (ainda) maior desse espantoso momento de aprendizado coletivo.

P.S.: enquanto eu publicava este texto, Chico Buarque produziu mais um round, com críticas veladas e um pedido explícito de desculpas a Paulo Cesar de Araújo.

Atualização às 14h30: já correm versões de que Chico “errou” de novo: segundo percebeu Antonio Luiz M.C. Costa, a Última Hora de 1974, à qual o músico dava entrevistas, não era a de Samuel Wainer, como ele afirma na resposta a Araújo.

Atualização às 14h43: ainda segundo observa o Antonio, o Última Hora que Chico acusa de calúnia seria, segundo essa “nova” interpretação, exatamente o Última Hora “nacional-popular e democrático de Wainer”.

Atualização às 22h26: Chico Buarque está correto nesse episódio, segundo acaba de afirmar, via Twitter, a filha de Samuel, Pinky Wainer (@pinkywainer): “Última Hora/SP foi vendida ao Frias depois do golpe. Samuel Wainer,pobre, dirigiu UH/SP por volta de 1974, empregado da Folha da Manhã“, e “SW voltou a SP em 72/73 fudido doente sem grana, e o Frias convidou pra dirigir o jornal q um dia foi seu”.

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