A TV Cultura demitiu cerca de 100 funcionários nos últimos dias e encerrou a produção de 9 programas de sua grade de programação. A crise na emissora, de proporções inéditas, se deve ao contingenciamento de recursos que deveriam ter sido repassados para a TV, que é gerida pela Fundação Padre Anchieta, uma entidade de direito privado de caráter público que tem metade de seu custo operacional bancado pelo governo do Estado de São Paulo – cerca de 100 milhões de reais.

O governo de Tarcísio de Freitas informou, em nota, que não cortou as verbas de custeio da fundação, e que elas sofreram até um reajuste de cerca de 10% em 2024. Mas as verbas até agora não foram liberadas, e o estrangulamento progressivo tem forçado a emissora a tomar providências drásticas de enxugamento de sua produção de conteúdo. Os horários estão sendo ocupados por reprises de programas antigos. “Isso abre caminho para o sucateamento pretendido pelo governo Tarcísio de Freitas, que já se manifestou declarando que poderia até extinguir a fundação, um patrimônio de todos os paulistas”, afirmou nota do Sindicato dos Radialistas e Jornalistas de São Paulo. O sindicato convocou uma manifestação de funcionários para esta manhã de quarta-feira, 11, logo mais na frente da sede da fundação.

A convocação do sindicato tem um objetivo: fazer com que o protesto seja visto pelos integrantes do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, que têm uma reunião mensal marcada justamente para esta manhã na sede da emissora. A direção da TV Cultura não tem tratado o assunto com transparência, e até mesmo negou a existência de problemas com o governo do Estado, atribuindo a crise a uma queda de receita publicitária. Segundo fontes, o governo Tarcísio, alinhado com a extrema direita bolsonarista, estaria incomodado com abordagens de caráter afirmativo, de gênero, raça e identidade, que eram foco da emissora pública – um dos programas descontinuados foi o premiado Estação Livre, que dava destaque para o protagonismo negro na sociedade e tinha 8 pessoas negras na equipe. Também gostaria que a emissora contemplasse com maior destaque os candidatos do seu espectro político em sua programação.

Pelo seu estatuto, a TV Cultura deve manter independência dos poderes constituídos e imparcialidade na sua programação e no seu jornalismo. O governo do Estado, entretanto, acha que gasta muito com uma emissora que não tem como abrigar suas pautas de direita. O Conselho Curador da fundação é composto por figuras importantes da política, das finanças e da cultura paulista, como o deputado Lucas Bove, a escritora Lilia Schwarcz, o jornalista Eugenio Bucci, a secretária de Cultura do Estado, Marilia Marton, o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Renato Janine Ribeiro, a ativista Renata Tupinambá, a financista Maria Alice Setúbal, o curador e museólogo Fábio Magalhães (que o preside).

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