Cena de
Cena de "Em Perigo", documentário da HBO - Foto Divulgação

O título em inglês, Endangered, é uma palavra adotada por entidades de defesa animal para categorizar as espécies ameaçadas. Melhor definição não há para retratar a vida de quatro jornalistas que cobrem assuntos quentes ou polêmicos em países ditos democráticos. O documentário que, em português, recebeu o nome de Em Perigo, da HBO Max, mostra que fazer jornalismo se tornou uma luta pela sobrevivência nos Estados Unidos, Brasil ou México.

Patrícia Campos Mello é a representante brasileira no documentário. Repórter do jornal Folha de S.Paulo, ela foi (e continua sendo) perseguida pelo presidente Jair Bolsonaro e por seus seguidores. A jornalista se tornou odiada pela direita depois que publicou reportagens mostrando que o então candidato Bolsonaro se utilizou, ilegalmente, do disparo em massa de propaganda política pelo Whatsapp. “O presidente do Brasil está dizendo que sou uma prostituta”, diz ela, em uma cena já conhecida pelo público brasileiro, mas talvez não pelos estrangeiros.

O documentário Em Perigo acompanha a vida de quatro jornalistas por um ano, incluindo as eleições norte-americanas, o movimento Black Lives Matter, os protestos políticos no Brasil, a cobertura da pandemia da Covid-19 e as manifestações contra o feminicídio no México. Patrícia é retratada ao lado dos fotojornalistas Sáshenka Gutiérrez e Carl Juste, e do repórter Oliver Laughland, correspondente do jornal britânico The Guardian. Como em produções do gênero, Em Perigo adota o seu lado, que é o de dar voz ao que pensam e defendem os personagens.

“Este documentário é um bom exemplo do que há de errado com as notícias e a mídia hoje”, reage um comentarista que deu uma avaliação negativa no IMDb. Frases do gênero estão presentes também no doc Em Perigo. O repórter Oliver Laughland, que cobriu a fracassada campanha pela reeleição de Donald Trump, tem a coragem de enfrentar eleitores do ex-presidente e fazer perguntas críticas. A um que se recusa a conversar se o jornalista não tirar a máscara, ele simplesmente se recusa a continuar com a entrevista. “Algumas vezes parece que estou falando com pessoas de diferentes realidades”, confidencia.

A liberdade de imprensa e de expressão é até maior que a igualdade, segundo a Constituição dos Estados Unidos, lembra o fotógrafo Carl Juste. Mas ele próprio admite que, nos dias de hoje, se criou uma situação em que o jornalismo perdeu sua credibilidade junto à opinião pública, que agora se volta contra seus profissionais. Negacionistas de toda ordem, trumpistas, bolsonaristas e as truculentas forças policiais revelam, no documentário Em Perigo, que jornalistas são seres a serem perseguidos, caçados, ameaçados.

Cena de "Em Perigo", documentário da HBO
Patrícia Campos Mello, em cena de “Em Perigo”, documentário da HBO – Foto Divulgação

O documentário, dirigido por Heidi Ewing e Rachel Grady, procura traçar um perfil generoso dos seus personagens. Patricia, Sáshenka, Carl e Oliver não são seres obstinados em derrubar governantes ou policiais opressores, mas pais e mães, têm famílias, levam o trabalho para suas casas, ao mesmo tempo em que tentam lidar com as pressões da profissão. A brasileira Patrícia Campos Mello, por exemplo, é retratada como alguém movida a Coca-Cola, chicletes, cigarros e coragem. Em um jantar com seu filho, vê como ela se preocupa quando ele comenta que respondeu a bolsonarista que escrevia errado e falava mal dela. Ela se emociona ao receber um elogio de seu pai, o também jornalista Helio Campos Mello, de quem herdou a coragem – ele foi sequestrado no Iraque, por forças de Saddam Hussein, em 1991.

A lição que se tem com Em Perigo é que mais e mais jornalistas entrarão nessa lista de espécies ameaçadas, porque até a verdade está sendo questionada.

Em Perigo. Documentário da HBO Max.
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