Como o assunto é picante, vamos aproveitar sua atenção aqui e fazer um preâmbulo, lembrando de um livro que provocou muita risada e confusão no mundo e que inspirou nosso título: A vida sexual de Immanuel Kant, escrito por um jornalista francês bem humorado chamado Frédéric Pagès, mas assinado por um personagem ficcional, Jean-Baptiste Botul.
Estávamos no início dos anos 2000 quando foi lançado no Brasil o livro-blague. O filósofo da cidade de Königsberg, atualmente conhecida como Kaliningrado (outrora capital prussiana, atualmente é russa e se situa na fronteira entre a Polônia e a Lituânia, na costa do Mar Báltico), sabidamente não teve uma vida exatamente calorosa nesse ramo, e era justamente essa uma das piadas.
A obra brincava com a figura de Immanuel Kant, conhecido por sua vida metódica, disciplinada e aparentemente sem grandes paixões amorosas. No livro, no entanto, Botul constrói uma falsa investigação filosófica e biográfica sobre Kant, imaginando desejos reprimidos, obsessões e contradições íntimas do pensador de Königsberg. Há uma deliciosa mistura de humor, erudição e paródia acadêmica, o que é construído a partir da imitação do estilo de ensaios filosóficos sérios, enquanto são apresentadas algumas interpretações extravagantes da obra kantiana.
A graça do livro está justamente nesta tensão entre a imagem austera de Kant, uma espécie de sinônimo biográfico da razão e do rigor moral, e a tentativa de revelar um “lado oculto” marcado por pulsões, fantasias e neuroses, ou seja, aplicar uma psicanálise que pudesse, de algum modo, explicar pelo comportamento sistemático as raízes pessoais de suas ideias, numa sátira do universo intelectual francês, marcado por modismos teóricos e interpretações excessivamente sofisticadas que, muitas vezes, fogem completamente do objeto analisado.
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QUERO APOIARO livro ganhou notoriedade internacional depois que o filósofo Bernard-Henri Lévy citou Botul seriamente em um de seus livros, caindo na pegadinha de Pagès, essa espécie de João Kleber com PhD. O episódio transformou o “botulismo” – corrente filosófica que supostamente teria morrido devido à concorrência da doença de mesmo nome – em uma espécie de piada cult do meio intelectual francês.
Um dos detalhes interessantes dessa história é que o livro teria sido resultado de uma conferência de Botul em Nueva Königsberg, lugarejo paraguaio em que os habitantes adotavam os hábitos e mesmo os trajes de Kant como modelo. Assim como hoje há quem julgue o Paraguai um país mais livre e mais próspero que o Brasil, muita gente não percebeu aí a pista mais do que explícita de que a piada contada era coisa séria, mas não deixava de ser piada.
Finalmente, a vida sexual das bilionárias
Se o relato satírico sobre Immanuel Kant dizia mais de sua filosofia do que da vida sexual em si, também acontece o mesmo com dois documentários disponíveis na Netflix sobre a vida sexual de duas bilionárias, O testamento: o segredo de Anita Harley e A bilionária, o mordomo e o namorado.
O primeiro trata da vida da herdeira e uma das principais acionistas das Pernambucanas, que está em coma desde 2016 após sofrer um AVC; o segundo, dos escândalos envolvendo Liliane Bettencourt, dona de uma das maiores fortunas do mundo e principal acionista da L’Oréal, que morreu em 2017 – embora as duas sejam bilionárias, é bom que se diga que há uma enorme diferença entre elas: Anita é bilionária em reais (fortuna estimada em R$ 2 bilhões), enquanto Liliane é bilionária em euros (quando morreu, sua fortuna circulava os 30 bilhões de euros).
Se Liliane é muito mais rica que Nica, o problema dos dois casos é comum: quem vai ficar com o Pico da Neblina de reais da brasileira e quem ficaria com o Aconcágua de euros da francesa?
Aí entra em jogo a vida sexual das duas, e é em torno de suas relações sexuais, mais supostas que explicitadas, que se dá a disputa pelos bilhões em jogo.
A bilionária brasileira
Dirigida pela jornalista Camila Appel e Dudu Levy, a série O Testamento reúne documentos, entrevistas, imagens de arquivo e depoimentos contraditórios para reconstruir a trajetória de Anita.
Depois de passar anos morando e despachando dentro de um hotel de luxo, Nica se mudou com uma assistente apelidada de Suzuki (nome derivado de uma personagem da ópera Madame Butterfly, de Puccini e adotado por Sônia Soares, que não tinha ascendência japonesa, na vida quotidiana) para uma mansão com 96 cômodos e 37 banheiros na cidade de São Paulo.
A série acompanha a batalha pela curatela – o direito de administrar sua vida e patrimônio – e pela futura herança (não há sinais de que Anita deixará o coma) envolvendo diretamente Suzuki, um filho Arthur Miceli, filho de Sônia, que teve vínculo socioafetivo reconhecido em 1ª instância, parentes, advogados e pessoas próximas à empresária.
A principal rival de Suzuki na história é Cristine Rodrigues, secretária de Anita e indicada pela patroa, em um documento como quem deveria cuidar de seus negócios caso ficasse impossibilitada.
Mas, quem, afinal, deveria cuidar de sua fortuna e quem teria direito à herança? Aqui entra a vida sexual (em sentido amplo) da empresária, pois é, ao fim e ao cabo, a demonstração ou não de uma relação estável que vai definir o destino dos reais de Anita.
Anita é apresentada, desde o início, como uma mulher homoafetiva, mas não diretamente. A primeira indicação mais explícita disso vem, na série, por meio de uma escolha artística: ela patrocinou, nos anos 1980, o filme Paraíba, mulher macho, de Tizuka Yamazaki, que tinha Tânia Alves como atriz protagonista.
A partir daí, começa um jogo em que, de modo mais ou menos explícito, Cristine Rodrigues e Suzuki se apresentam com mais próximas ou como companheiras na disputa pela curatela. Percebe-se que tanto família quanto direção da Pernambucanas preferem Cristine, embora Suzuki apresente argumentos que parecem sustentar que sua relação com Anita ia muito além da de secretária particular.
Assim, o amor burguês, no sentido estrito da palavra, acaba sendo o grande instrumento de definição do destino de, literalmente, bilhões de reais.
Aqui, a força da ideologia do capital, que resulta na construção de leis e decisões judiciais com lógica própria, mostra sua força concreta, ao sujeitar o próprio capital a normas que, a rigor, não fazem qualquer sentido quando tratamos de casos individuais: há um jogo empresarial brutal que acaba por ter de se esconder atrás de sentimentos de indivíduos já alienados dos valores acumulados.
Sentimentos que, a posteriori, nos tribunais, já não podem ser sinceros, mas precisam eles também se enquadrar numa narrativa jurídica que os legitimem e os tornem funcionais na disputa pela grana toda.
As bilionárias francesas

O caso de Liliane Bettencourt é ainda mais didático sobre a manipulação dos afetos nas disputas bilionárias.
Em seu verbete em francês na Wikipedia, a importância de seu caso pode ser resumida da seguinte forma: “Viúva do ex-ministro André Bettencourt, ela era a principal acionista da multinacional L’Oréal. Em 2016, segundo a revista Forbes, ela era a mulher mais rica do mundo e a 11ª pessoa mais rica do planeta, com uma fortuna estimada em 36,1 bilhões de dólares americanos. Após sua morte, sua filha Françoise Bettencourt Meyers assumiu o posto de mulher mais rica do mundo, tornando-se inclusive a primeira mulher a atingir uma fortuna de 100 bilhões de dólares.”
Françoise não atingiu o posto de mulher mais rica do mundo sem lutar – no caso, contra a própria mãe. E é isso que conta o A bilionária, o mordomo e o namorado, dirigida por Baptiste Etchegaray e Maxime Bonnet.
Françoise tinha um namorado com quem, insinua a série, talvez não tenha tido relações sexuais. Mas é ele, o fotógrafo François-Marie Banier, que cumpre o papel de Suzuki na narrativa francesa. Banier recebeu de Françoise presentes milionários – obras de arte, seguros de vida e propriedades – avaliados em centenas de milhões de euros.
Quando se deu conta de que podia perder sua fortuna antes de herdá-la para Banier, Françoise entra numa verdadeira operação de guerra contra a mãe, tentando provar sua fragilidade emocional e afastar Banier da mãe. Nesta guerra, contou com a ajuda providencial do mordomo Pascal Bonnefoy, que gravou conversas de Françoise com seu contador, que também se aproveita da situação para ganhar presentes milionários de uma Liliane nem sempre tão ingênua quando sua filha fez supôs e como a Justiça francesa acabou entendendo.
Nessa disputa pelo espólia do mãe viva, Françoise não poupou ninguém, às vezes nem seu próprio patrimônio. A mãe não havia indicado, em suas declarações de renda, a propriedade de uma ilha inteira no Oceano Índico, o que foi apenas um dos casos de evasão fiscal revelados no processo que resultou em cobranças e multas aplicadas pela Receita francesa.
Além disso, suas denúncias apontaram o financiamento político ilegal do partido de Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França, por Liliane – uma prática que herdou de seu marido André Bettencourt, que nos anos 1970 já era um ator econômico importante da direita francesa.
De novo, o amor das bilionárias e o desejo de desfrutar do dinheiro como quiserem entra no coração da disputa: afinal, Liliane não tinha direito de transferir seus bens, ainda que paulatinamente, mas em grandes volumes, ao fotógrafo que a acompanhava em viagens, jantares e festas? Que papel têm Suzuki e Banier, os “amantes” ou “verdadeiros companheiros” nesta história? Trabalhadores oportunistas, “exploradores” da fragilidade de bilionárias (?) ou simplesmente sujeitos de direitos que acabam por ser atropelados pelas máquinas antes comandadas por seus senhores (no caso, suas senhoras).
Moral da história
A moral da história aqui nada tem ver com sexo ou afetividade. Para quem não está envolvido diretamente nestes casos, talvez valha mais a pena olhar para os números.
O caso de Anita ainda está inconcluso (quem lucra mesmo com essa história enquanto isso é o hospital que a mantém viva, diga-se), mas o caso das Bettencourt já está resolvido – afinal, de certo modo, a Bíblia não está de todo errada quando afirma que a morte tudo resolve. Colocaremos em itálico para que você realmente preste atenção e nunca mais esqueça:
Liliane era a mulher mais rica do mundo quando tinha 36 bilhões de dólares de fortuna e sua filha temeu perder parte da herança; hoje, Françoise continua na liderança dos rankings das mulheres mais afortunadas (às vezes aparece em segundo lugar na lista das mulheres) e deixou o comando da L’Oreal em 2025. Na época (pequenas oscilações de câmbio fazem grande diferença na contabilidade de quem tem a fortuna espalhada pelo mundo), seu patrimônio era avaliado em 85 bilhões de dólares.
PS 1 – Neste texto não falamos dos homens bilionários como Daniel Vorcaro e a homoafetividade de seu dinheiro, que parece ter encontrado em Ciro Nogueira um fiel cuidador. Seguramente, esses homens recebem tratamento quando imprensa e Justiça escarafuncham suas vidas pessoais, mas o tema fica para outro momento.
PS 2 – Como o tema aqui virou disparidade de gênero, não custa registrar que, com todos os seus bilhões de euros e dólares, Françoise era “apenas” a vigésima pessoa mais rica do mundo em 2025.
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