O eletro-funk do Vaudou Game, em novo álbum

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O grupo ainda é pouco conhecida em terras brasileiras, assim como diversos artistas que têm como característica principal uma criação autenticamente africana e que realizam criações sonoras na contemporaneidade. Apesar da imensidão da diáspora, o que chega para o público brasileiro ainda é ínfimo considerando toda a história e herança de matriz africana. Mas o grupo em questão é o coletivo franco-togolês Vaudou Game. Um encontro de toda musicalidade africana dotada de espiritualidade e ancestralidade com uma banda com guitarras e com pegada de funk, afrobeat, soul, highlife, evidenciando influências diretas da música africana produzida nos anos 1960 e 1970. Suas produções fonográficas são geralmente realizadas em estúdios com a particularidade das gravações ao vivo e em analógico. Eles bebem da fonte dos grandes mestres daquele continente, procurando encontrar uma atmosfera que deixou grande legado para a história da música.

Peter Solo, o líder do coletivo tem sua origem no Togo, se apresenta como personificação de todo esse caldeirão de influências. Suas performances são cativantes e toda sua indumentária e apresentação trazem consigo uma gama de riqueza originadas daquela região. O artista vem de Aného-Glidji, um centro de cultura vodu, e suas representações dialogam com as expressões desenvolvidas na Europa e na América negra, devolvendo com uma potência sinérgica de elementos e que o faz reverberar por longos caminhos e não passar desapercebido por quem o escuta.

Segundo o músico, suas principais influências estão em artistas como Roger Damawuzan, o James Brown de Lomé, ou a todo-poderosa orquestra Poly Rythmo de CotonouA banda tem sua origem na cidade francesa de Lyon e já no primeiro álbum de 2014 alcançou uma excelente recepção de público e crítica. Eles costumam percorrer diversas cidades da Europa, e suas apresentações evocam uma catarse coletiva nos presentes, muito por seus grooves que soam como mantra para o público. A evocação sensorial é parte da experiência.

O quarto álbum da banda tem o título de Noussin. O termo significa “manter-se forte” em Mina, o dialeto togolês mais comum. As letras do artista são tão envolventes quanto contestatórias e suas composições estão mais cósmicas e elétricas do que o habitual. Peter Solo nos aponta esperança, bem como um chamado para nos unirmos. O elemento de cura e conexão também se encontram presentes nesse trabalho. 

O trabalho em questão teve seu lançamento nos últimos meses do ano de 2021 e com turnê no início desse ano, sendo elaborado nos difíceis dias de severo confinamento e tempos repletos de incertezas. O resultado que se apresenta é uma continuidade de sons entre as escalas do Vodu e espírito funk em seu novo álbum. Peter Solo e sua banda deram lugar de destaque aos sintetizadores, pois as restrições os levaram forçosamente a esse caminho e à necessidade de reinvenção de sua musicalidade. O uso desse aparato aparece nesse último trabalho em substituição ao naipe de metais, algo inédito até então, fato que ocorreu, segundo o líder da banda, devido à dificuldade de encontros e ensaios nos últimos tempos.

No palco, as canções do Vaudou Game são uma linguagem e uma energia que transmitem essa mensagem. Mesmo alternando o canto entre a língua materna e o francês, a música é capaz de realizar as conexões e trocas que, segundo o líder, provem da energia comunicativa do vodu, o que é muito positivo. Ela nutre a alma e a consciência, tanto quanto o cérebro.  Seus maiores sucessos atingem um público ligado ao pop e ao entretenimento. 

A fusão de elementos modernos aliada à busca das tradições é o que nos associa e nos traz grande fator de identificação com a cultura brasileira. Toda essa capacidade de junção se faz presente de igual modo no trabalho do artista brasileiro Mateus Aleluia que destacou no filme Mateus Aleluia, o canto infinito dos Tincoãs a capacidade de conexão que a música tem, independente do idioma. O artista afirma que antes de tudo vem a música, até antes do verbo. 

Mateus foi integrante do importante grupo vocal brasileiro Os Tincoãs, que conseguiu fundir a música dos terreiros de candomblé com a música sacra cantada nas igrejas. Ainda segundo o artista, “a música nos leva a locais onde já fomos e não lembramos”. Além de toda essa relação de identificação que conseguimos perceber com a cultura brasileira, o Vadou Game já dividiu palco com artistas brasileiros como Metá Metá e Niteroy.

Noussin. De Vaudou Game. No Spotify.

 

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