Não faz muito tempo, um dos pressupostos tácitos do jornalismo era: nunca nivelar por baixo. Pode-se instigar o leitor, propor ao leitor, desafiar o leitor. Nada deve chegar-lhe pronto, ele também deve ser capaz de formular, equacionar, ir atrás. Ao jovem repórter que entrava na redação,  uma das primeiras coisas que aconselhavam (os mestres de verdade) a levar adiante como lema era isso: as baixas expectativas não conduzem ninguém para a frente, mas para o fundo. Bom, é possível ver que isso mudou radicalmente. Agora, as expectativas médias movem o mundo, são o cerne da sociedade dos algoritmos. O que o leitor já é está bom, o desafio agora é encher essa panela, entuchar do mesmo esse leitor consolidado, acomodado, reendereçar o cardápio estagnado.

Todo esse nariz de cera para dizer a vocês que aquela velha lição foi a primeira coisa que me ocorreu ao ouvir Sarau Vox 72 (Selo Discobertas), o disco de Ednardo, crucial menestrel do Ceará de São Sebastião do Rio de Janeiro das terras do Brasil. O disco foi gravado há exatos 50 anos, em 1972. Ednardo tinha então 27 anos e estava de mudança: ia deixar Fortaleza, onde nascera, para tentar a sorte como artista solo no Rio de Janeiro. Largava um emprego na Petrobrás (ele é formado em Engenharia Química) e aventurava-se pelas metrópoles fumegantes do Sudeste, munido apenas da voz e do violão, para mudar nosso destino.

Ao ensaiar a saída de Fortaleza, Ednardo resolveu antes desfiar seu repertório numa sala do Edifício Parente, por iniciativa da Loja Vox, um bunker de tecnologia na rua Guilherme Rocha, no Centro da Capital, de propriedade do produtor José Gerardo Barbosa Lima. Gravou 17 canções em dois canais com somente aquilo de que dispunha: voz e violão. Agora, 50 anos depois, a fita magnética contendo aquela gravação foi redescoberta pelo filho do produtor e relançada pelo próprio cantautor.

Logo na primeira faixa, a coisa salta aos ouvidos: na gênese de sua carreira, Ednardo já deixava claro que não tinha a menor intenção de nivelar por baixo. Também não pretendia algum tipo de equiparação com outros movimentos autóctones da MPB. Tampouco alimentava a ideia de exportar algum tipo de “nordestinidade” (para lembrar Belchior), mas sim afirmar o seu quintal e o seu quinhão de universalidade. “Eu quis guardar o verde dos campos/Nos meus olhos poucos”, canta o artista, em Além, Muito Além.

A primeira coisa que chama a atenção, por ser algo de caráter até noticioso, é o compartilhamento harmônico que aquela geração batizada como Pessoal do Ceará tinha de sua produção até aquele momento. Por exemplo: uma das maiores canções da MPB, Mucuripe (uma pedra de toque dos colegas Belchior e Fagner), só seria gravada por Fagner no seu disco de 1973. Vox 72 revela que Ednardo foi o primeiro a gravá-la ao natural (Elis Regina também a gravou naquele ano de 1972, mais para o final do ano, no clássico álbum Elis, usando violoncelo e piano). Ednardo conta que essas composições eram as que o Pessoal do Ceará habitualmente compartilhava nas noitadas dos bares Anísio ou Estoril, duas trincheiras intelectuais da época.

Na interpretação de Ednardo, Mucuripe é quase um fiapo, como se reforçasse aquele movimento ínfimo de uma jangada tentando romper o mar, um desaparecimento lento, interior, pura metáfora existencial. Essa faixa se cola a Tranquilamente (Petrúcio Maia/Ieda Estergilda) como se houvesse um desenvolvimento normal de um estado de espírito para outro, mas Tranquilamente é uma onda traiçoeira, começa pacífica e se enroquece subitamente na segunda estrofe (“O resto é você, que é demais”).

Sem anabolizantes, rústica, a reedição da gravação histórica de Vox 72 permite ver com clareza as diferenças entre a produção do Pessoal do Ceará (que tem Ednardo como expoente), e outras correntes da música brasileira que se afirmavam naquele começo dos anos 1970. Com a canção como fundamento principal, e a lírica como elemento de pulsão, a produção do Pessoal do Ceará não é comparável à do udigrudi nordestino (Alceu, Geraldo Azevedo, Ave Sangria) ou ao tropicalismo baiano. Ela não está focada em elementos externos do som, ao impacto sonoro, nem no elemento discursivo. Os cearenses não emulavam ninguém – quando muito, um João Cabral de Melo Neto. Trata-se de um olhar para dentro a partir de constatações de ordem social, geracional, afetiva, política algumas vezes. “Vivendo num cavalo ferro/Vivi campos verdes, me interno/Em terras trópico-americanas”.

Um País que exultava e ao mesmo tempo varria as contradições para baixo do tapete não era o País que fazia a cabeça de Ednardo. “Sim, eu vou sair/Fantasiado de alegria por aí/Mas na quarta-feira a gente vê/Que é mentira meu sorriso sem você”, ele canta, em Mais um frevinho danado.

De poesia de combate, ao mesmo tempo que rigorosa e incômoda, fazia-se a lírica de um artista quando jovem, como em Varal (Ednardo/Tânia Cabral):

“o assovio, o assalto
o assunto a semana inteira
na esquina, no bar, na feira
e a roupa no seu varal
e esse dia tão normal”

O sentimento lúmpen onipresente é um diagnóstico de deslocamento, de privação. Mas não é o mesmo do retirante; fala das emoções de um jovem urbano igualmente privado de suas potencialidades, seus direitos, como ele canta em Curta-Metragem (de Rodger Rogério e Dedé Evangelista):

“embaixo das marquises
nem tristes nem felizes
olhando, olhando a chuva cair
não há nada pra ser feito
tá tudo, tudo tão direito”

As quatro composições de Belchior no ábum (o mais bem-representado dos compositores no disco, além do próprio Ednardo) confirmam a consistência muito precoce do rapaz de Sobral. Mucuripe e Paralelas viraram clássicos mundiais (Paralelas foi gravada até na Itália). Na hora do almoço é um portento eterno. E Bip Bip é uma parceria de Belchior com Ednardo que estava disponível havia anos no YouTube, mas nunca tinha sido lançada anteriormente. Essa sim parece um estilhaço tropicalista, um espelho invertido de Superbacana (1967), de Caetano Veloso. Já a gravação de Paralelas é interessante por um motivo extra, além da extraordinária beleza: traz a letra original, depois modificada pelo próprio Belchior – ele suprimiu a marca do carro que abriu a canção, o Karman-Ghia, deixando sem merchan para a posteridade.

Hoje, Ednardo tem 77 anos e segue não baixando a guarda. A gravação redescoberta, quase monótona em sua precariedade original, o reapresenta ao público do presente como ele já era em 1972, começando pelo topo: um artista do futuro.

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