O fotógrafo Walter Firmo (fotografia de Juvenal Pereira)

A foto que o fotógrafo Walter Firmo fez em 1967 do compositor, flautista e saxofonista Pixinguinha, refestelado numa cadeira de palha, abraçado ao seu saxofone, é uma das mais famosas imagens da música em todos os tempos e vai seguir sendo. Mas não é o ângulo preferido do autor.

A mítica foto de Pixinguinha é só uma das centenas de imagens icônicas desse artista carioca de São Cristóvão que vai completar 85 anos no dia 1º de junho (parece que tem 30 a menos). Durante 25 anos, seu amigo Cartola posou para suas lentes, e ele nunca se gabou da amizade para não parecer aproveitador. A seu comando, o transformista e leão-de-chácara Madame Satã, recém-saído da prisão, fazia e refazia a entrada na porta de correr, mas mantinha o olhar severo para a câmera. Chico Buarque esperou pacientemente na calçada diversos ônibus passarem até Walter clicar sua melhor foto para a capa do disco Francisco (1987). Clementina de Jesus é uma rainha nagô em suas lentes. Jamelão parece um investigador da Scotland Yard do início do século 20.

Tarsila do Amaral, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Elba Ramalho, o presidente norte-americano Dwight Eisenhower e Juscelino Kubitscheck na Avenida Rio Branco. Quase 300 imagens desse quilate podem ser vistas a partir da manhã deste sábado, 30 de abril, no Instituto Moreira Salles, quando será aberta a exposição Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito. As fotos mostram a ênfase de Firmo no registro da população e na cultura negras do País, mas é também o documento de sua trajetória – Firmo ganhou, em 1963, o Prêmio Esso de Jornalismo de texto e fotografia simultaneamente, e a ocasião está retratada numa das salas da mostra, com a redação estourando champanhe em sua cabeça.

Na abertura, neste sábado, às 11 horas, haverá um debate presencial com Firmo e os curadores da exposição no cineteatro do IMS Paulista. A entrada é gratuita. A curadoria da mostra é de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS, e da curadora adjunta Janaina Damaceno Gomes, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenadora do Grupo de Pesquisas Afrovisualidades: Estéticas e Políticas da Imagem Negra. A retrospectiva também conta com assistência de curadoria da conservadora-restauradora Alessandra Coutinho Campos e pesquisa biográfica e documental de Andrea Wanderley, integrantes da Coordenadoria de Fotografia do IMS.

Para conversar com o lendário Walter Firmo, FAROFAFÁ convidou outro fotógrafo de carreira memorável no fotojornalismo, Juvenal Pereira, nosso colaborador. O resultado, com a colaboração do editor Jotabê Medeiros, é o que se segue, em tópicos:

 

JORNALISMO

O jornalismo, essa coisa do pá-pum, nunca me interessou de fato. Eu saí do ginásio direto para a fotografia. E só fui fazer porque já tinha em mente que queria mudar o conceito. Porque naquela época ninguém fazia. Perenidade? Nunca pensei em perenidade. O que me atraía era o lance de dirigir uma cena que estava na minha cabeça, no meu coração. Algumas parecem flagrantes? Não são, eu dirijo a cena. Chico Buarque estava ali à minha disposição para a capa do disco Francisco. Eu estava fazendo a foto da capa. Aí eu vi que os ônibus passavam ali e paravam ali. Coloquei ele exatamente onde o ônibus passava.

A ORIGEM DO OLHAR REFINADO

Pode ter sido de minha mãe. Que era uma doce criatura. Do meu pai não. Ele era fuzileiro naval. Ao mesmo tempo, era um homem que sabia curar feridas. Sempre foi um homem bom, mas gostava de uma briga de rua. Eu vi meu pai brigar com dois, três caras, e os caras saírem correndo. Quer coisa mais sem sentido do que dois homens brigando, se agarrando e botando fogo um no outro? Não tem.

NEGRITUDE

Sempre fiz as fotos de personagens negros. Isso é deliberado. Por quê? Um dia, eu fui trabalhar em Nova York enviado pelo Jornal do Brasil. Estava lá na sucursal, no bureau, e o diretor me chamou e disse que tinha um fax para mim. “Walter Firmo, tem um fax aqui para você. Mas não sei se você vai gostar”. Era de um fotógrafo do Brasil. Ele perguntava ao diretor: “Como é que vocês admitem um cara assim, um mau profissional, analfabeto e negro?”. Eu nunca tinha percebido isso no Brasil porque minha família do Rio de Janeiro era branca. A do meu pai, negro, nunca estava comigo. Ele morava lá no Amazonas, Monte Alegre, naquelas palafitas. Eu pensei: “Então existe isso? E eu sou negro?”. Aí então comecei a trabalhar isso em Nova York. Havia os Black Panthers, e eu deixei crescer meu cabelo ao estilo black power. E comecei a fazer essa doidice que faço até hoje. Quando aquele cara, que era o Jorge Rudge, falou aquilo, mudou minha visão. O cara era fotógrafo e tinha um iate. Ou seja: era um homem realmente acostumado a bater nos outros. Sou tinta fraca, nariz chato, lábios carnudos, cabelo pixaim. Eu sou negro. Mas não ativista, porque eu não sei discursar, não sei inflamar. Mas eu sei fazer pensar. Quem vem ver as fotos, sai daqui pensando, isso eu garanto.

BISPO DO ROSÁRIO

O Aluísio Maranhão, que era o diretor de redação do Jornal do Brasil, me chamou. “Walter Firmo, você que é metido a maluquinho, tem um maluco beleza que articula arte lá na Colônia Juliano Moreira (antigo manicômio em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro), não quer ir lá fotografar pra gente?”. Aí eu fui, eu e o José Castello, que hoje é escritor. Chegando lá, a gente entrou e foi até o cubículo em que o (Arthur) Bispo do Rosário (1909-1989) morava. Era um lugar que tinha só a cama dele, um banheiro e o resto era só quinquilharia. Ele era menor um pouco do que eu, falava de um jeito incompreensível, quase que grunhia. O José (Castello) não aguentou o cheiro do ambiente. Saiu logo após ter feito os apontamentos. “Walter, eu tô lá embaixo no carro, faça as fotos aí!”. Fiquei mais uma hora e fui até a direção, pedi autorização para voltar no dia seguinte. No dia seguinte ele saiu do catre onde vivia isolado e eu fiz as minhas fotos. Essa foto em que ele olha pela janela eu vejo o seguinte: ele está em um mundo para cá e do lado de lá está outro mundo ao qual ele não pertence mais. E as cores da foto são as cores do próprio mundo dele.

PIXINGUINHA

Sim, é a foto mais famosa. Algumas pessoas, notadamente senhoras, estavam olhando a foto e alguém perguntou a elas: “Por que vocês sempre escolhem essa foto?”. Uma senhora respondeu: “Ah, para mim é porque é ali que mora a felicidade”. Parece que o Pixinguinha está vendo a felicidade na linha do horizonte. Eu sei que é a foto que todo mundo gosta, é unânime. Eu me lembro que quem saiu comigo naquele dia para fazer a foto foi um cara da Bahia que hoje é uma entidade na questão da negritude brasileira (o sociólogo Muniz Sodré). Na época, ele era “foca” (repórter iniciante). Nunca tinha saído com um fotógrafo para uma reportagem. Hoje é conhecidíssimo. Chegando lá, eu vi essa cadeira na sala da casa dele. Eu deixei os dois conversando mais de uma hora e fui para o quintal cimentado, onde tinha essa mangueira de onde as folhas caíam e tinha uma roseira perto do tronco dela. Aí o menino terminou a entrevista e falou: “Tá contigo! Acabei minha entrevista”. Eu já tinha pegado a cadeira. Fiz 36 fotos, girando em torno dele na cadeira. A que eu mais gosto não é essa mais famosa, é a que mostra ele por trás. Essa foto fala tanto pra mim que eu já não a vejo em termos de cores, vejo só o sentimental. Ela tem atmosfera, é o que a define. Quando eu peguei o saxofone dele, tentei ensinar o velho como queria que ele posasse para mim. “Seu Pixinguinha”, eu disse, “pode cruzar as pernas?”. Ele me respondeu: “Seu Pixinguinha não. Me trate por Alfredo”. Pixinguinha poderia ter sido um padre, um monsenhor. Era muito delicado. Havia um cachorro ali no pé da cadeira. “Agora o sr. olha para a linha do horizonte, (considerando) a hipótese de ter uma linha entre o céu e o mar!”. E ele olhou. Eu sabia que essa foto ia fazer História. Porque ele era, né? O significado dele para a música brasileira é História.

ALBERTO DA VEIGA GUIGNARD

O Guignard pintava igrejinhas, era um mundo lírico, daquela ordem bem mineira. Mas aí, quando eu vi aquele quadro do Guignard (Os Noivos, de 1937), o cara negro fardado e aquela sinhazinha do lado dele, eu disse a ele: “Guignard, quem tinha que fazer essa imagem era eu, não você!”. Guardei isso durante anos. Um dia, uma repórter do Jornal do Brasil me ligou e disse: “Walter, nós estamos propondo a alguns fotógrafos fazerem 5 a 10 imagens que retratem como veem as suas famílias”. Na hora eu pensei: “Aí, Guignard, agora chegou tua hora!”. E fiz a foto. Não é um plágio porque eu botei meus dois garotos desnudos ao fundo, pelados. Eles não queriam tirar a roupa, e eu disse a eles: “Sou eu quem paga o colégio de vocês!”.

Quando eu conheci o Guignard, eu não sabia quem era. Achava que era francês, pelo nome. Lábio leporino, de Juiz de Fora, um homem que não tinha os bolsos cheios. Era pobre e tinha se encantado pela arte da pintura. Comecei a estudar ele, hoje posso dizer que conheço o trabalho dele como pintor. Não pintava só igrejinha, fazia belos retratos, e trocava pinturas por um prato de comida, cachaça, um lugar para dormir.

PRÊMIO ESSO

Em 1963, o Alberto Dines, que era o diretor do jornal, resolveu mandar uma equipe para fazer uma reportagem especial na Amazônia. O repórter escolhido era muito jovem e tava começando. Na hora de embarcar, o Dines ficou receoso de mandá-lo porque ele não era efetivado no jornal e podia pegar uma frieira lá na Amazônia e morrer de frieira. Os encargos sociais cairiam nas costas dele. Eu nunca tinha escrito uma reportagem, fazia uma seção no jornal. Mas não é que ele me mandou? Pra fazer tanto o texto quanto as fotos. Era arriscado, podia perder o emprego de diretor. E eu também. Mas eu fiz, e acabei ganhando.

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