A elegância, o charme, a beleza dos coros em suas canções, os ternos bem cortados, o sorriso generoso e compreensivo. Quem julgar o poeta, cantor e compositor canadense Leonard Cohen pelas aparências nunca terá a mais remota ideia do Inferno que vive debaixo da obra dele.

Mas agora já poderá ter. Chega às livrarias essa semana o livro póstumo A Chama – Poemas, letras, desenhos, notas, de Leonard Cohen, que morreu após uma queda na noite de 7 de novembro de 2016. A questão, basicamente, é que o Inferno de Leonard Cohen é também a nossa redenção; a busca dele pela percepção total da condição humana tem a capacidade de iluminar nossa ignorância e ajudar a atravessar todos os purgatórios.

O livro, segundo descreve o filho de Leonard, Adam Cohen, no prefácio, foi rigorosamente preparado pelo próprio pai nos últimos anos de sua vida. Para isso, Leonard mantinha afastadas até as pessoas mais próximas que o pudessem tirar da concentração. “Religião, professores, mulheres, drogas, a estrada, fama, dinheiro… Nada me dá um barato e um alívio tão grandes do sofrimento quanto enegrecer as páginas, escrever”, afirmou o poeta, que tinha câncer.

“Suas ideias refinadas/Sua famosa compreensão/Evaporam, viram pasmo/(Para você) irrelevância”, escreve o poeta, em Você quer revidar mas não consegue.

Não é um inventário de toda a carreira, é um livro feito de escolhas. As letras de música, por exemplo, cobrem 4 discos – Blue Alert (2006), Old Ideas (2012), Popular Problems (2014) e o derradeiro álbum, You Want it Darker (2016). O lindo discurso de Leonard quando ele ganhou o Prêmio Princípe de Astúrias, o mais importante da língua espanhola, também foi incluído no volume. Caetano Galindo, que traduziu e transcriou a obra completa de Bob Dylan, cuida de definir a diferença entre um trabalho e outro. “Soma-se a isso o fato de que as letras das músicas de Leonard Cohen sempre tiveram relação mais próxima com a página do que, por exemplo, as de Bob Dylan. Sua métrica tende a ser um pouco mais estrita; as rimas são também mais regulares”.

O enlevo do ritmo é cuidadosamente distribuído nas diversas seções do livro, como se o texto fosse declamado, de forma que o leitor é imediatamente tocado pela mão do poeta caminhando à frente dos versos sombrios, de uma melancolia profundíssima.

O comandante Cohen está ferido
de velhice ou de paixão
a torre do seu tanque Sherman
toda suja de sangue
Ele que tem cem amantes
vestido de monge
pede um copo d’água
para um enxame de moscas

(…)

Um dia cantei o antigo
Hoje canto o passado
Um dia cantei sacramentos
Hoje canto o embolorado

Leonard Cohen mergulha fundo na própria desaparição, ruminando a presença da velhice, da solidão, o esquecimento de si, o esquecimento do outro, o controle da potência física, o distanciamento da glória dos amores antigos. “Como não desejo mais ninguém, não estou mais sozinho”. Mas ele não não aceita esse fechamento das cortinas com resignação, esse é o ponto. Muitas vezes, está pistola. Até a parte gráfica do livro, feita de inúmeros autorretratos, o mostra como em uma espécie de decomposição. Está indignado com a sentença de D-us (a forma como escreve Deus, com o hífen cobrindo a palavra, vem da relutância em escrever o nome divino, ao mesmo tempo que representa um tipo de lealdade judaica, segundo seu filho).

Tenho bichos
Nos pelos da virilha
mas não consigo achar
ao contrário do que dizem
os que me examinaram
eu sei que eles estão lá
Fazem piqueniques nos arbustos
Onde um dia houve concentração
e a imobilidade do desejo

Amores analógicos e amores digitais, amores lendários e amores frugais: a extensão das visões do coração de Cohen alcança todos os territórios. “Então você começou a se despir para mim no Skype/E eu tive que pensar de novo na minha vida”. Ele não fica embaraçado de pedir publicamente por afeto. Só de vez em quando parece constrangido. “Tem uma mulher de quem eu gosto/Ela é jovem e linda e boa/E não sabe cantar/Mas quer ser cantora/Eu guardava uma foto dela no meu laptop/Aí pensei: eu não posso fazer isso de novo/E arrastei a foto (relutante)/Para o cestinho de lixo/Que fiquei bastante tempo sem esvaziar”.

Sonhos e realidade misturados, mas de forma ordenada, limpa em sua determinação de strip-tease existencial. “Tom Waits cantando – eu escuto/Estou num teatro – fiz um show para uma plateia grande/Meu show foi muito bem – não posso vê-lo – estou no meu camarim – mas posso ouvir – sua música começar – é tão linda e original e sofisticada – tão melhor que a minha – uma mistura de rispidez com doçura”, ele escreve, no texto Sonho Brighton, de um novembro impreciso.

Nesse evanescimento do eu, o poeta vai legando poemas de uma sagacidade amedrontadora, sem contar uma réstia de premonições que até parece bruxaria. “Agora que a China caiu do sétimo céu & apodrece com a Rússia no poço mortal, e o próprio Marx”.

É possível que essa resenha possa parecer uma advertência de baixo astral? Se for, é uma impressão muito equivocada. Leonard Cohen, em seu auto réquiem, lega poemas de grandiosa beleza. Seus versos e as palavras podem ser cortantes, mas nunca secos, exangues. Está sempre burilando a mais gloriosa paixão pelas palavras.

O LOS ANGELES TIMES

O Los Angeles Times
será lido
por alguém chamado Carlo.
Ele vai morrer carregando a esposa
(que não mexe mais as pernas)
até o banheiro.
Eu vou ficar sentado ao sol
escrevendo sobre eles
Meu cachorro vai morrer,
meu hamster, minha tartaruga
meu camundongo, meus peixinhos
Meu esquilo marroquino
Minha mãe e meu pai vão morrer
e meus amigos Robert e Derek.
Sheila vai morrer
em sua nova vida sem mim.
Meu professor do ensino médio
vai morrer,
Mr. Waring.
Frank Scott vai morrer,
Deixando um Canadá mais livre.
Glenn Gould vai morrer
em meio à sua glória.
Marshall McLuhan vai morrer
Depois de alterar vários sentidos.
Milton Acorn vai morrer
logo depois de apagar o charuto
no meu carpete.
Lester B. Person vai morrer
Com a gravata-borboleta de Winston Churchill.
Bliss Carman vai morrer
antes de eu saber de sua solidão.
O Grupo dos Sete vai morrer
depois de deixar famosos alguns lugares
onde eu acampava,
onde armava minha barraca
e estripava peixes
diante dos olhos amorosos de
Anne de Carlyle
Meu cunhado
O mais famoso Campeão de Milhagens
Vai morrer como Vero filho da Lei
deixando 2 milhões de milhas para minha irmã.
Não faz mal
que todas essas mortes tenham ocorrido
muito antes de eu profetizar.

(trecho do poema O Los Angeles Times, de Leonard Cohen)

Como só os maiores poetas podem fazer, Leonard Cohen alcançou uma região de nós que nem nós mesmos conhecemos. E, por uma imensa sorte da nossa época, ele ainda fez uma expressiva parte disso em forma de música. Com esse livro, agora parece que era tudo música.

não era magro como Bogart
nem baixo como pensavam
Mas suas canções durariam
E algumas já duraram

 

A Chama – Poemas, letras, desenhos, notas. De Leonard Cohen. Companhia das Letras, 585 páginas, 100 reais. Tradução de Caetano W. Galindo.

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