O ator, cantor e compositor Alexandre Nero. Foto: Priscila Prade. Divulgação
O ator, cantor e compositor Alexandre Nero. Foto: Priscila Prade. Divulgação

Na próxima terça-feira (12) chega às plataformas digitais o álbum “Quarto, suítes, alguns cômodos e outros nem tanto”, do ator, cantor e compositor Alexandre Nero.

“É o momento de o disco encontrar novos autores, ele precisa de pessoas como vocês, de pessoas novas ouvindo, para que a gente possa encará-lo de outra forma”, afirmou o artista em encontro virtual com jornalistas realizado na noite da última quarta-feira, de que Farofafá participou.

“Poeta não é só quem escreve, poeta é também quem decifra, é quem ama a poesia”, disse, agradecendo a presença dos convidados, citando o poeta seu conterrâneo Paulo Leminski.

Nero sabe seu lugar. “Eu venho do mainstrean, eu sou um ator mainstrean, onde esse disco não cabia. Ele precisava de um lugar que fosse por outros vieses, e o selo [Risco, responsável pelo lançamento] é isso. É hora de encontrar novos significados, que vocês nos digam o que a gente fez. Eu mesmo estou redescobrindo-o”.

“Foi um disco muito feito no estúdio, nesse famoso quarto que acabou virando o nome do disco. Agora a gente vai começar a tocar ele em show e a gente está redescobrindo [as faixas], estão virando outras coisas. Cada vez que eu toco, eu estou descobrindo-as. Agora, com novos olhares, de outras pessoas, é muito importante, é fundamental que a gente receba isso”, afirmou sobre o processo de feitura do álbum e da importância de público e crítica para o trabalho de um artista.

“É uma música que não é difícil, mas é uma música para estar ativo”, sintetizou. Apenas aparentemente Nero arquiteta suas letras sobre melodias tristes. É um disco de camadas, introspectivo mas não hermético, um convite à reflexão e à ação, nestes tempos sombrios, com momentos sublimes, de poética desconcertante. “Alexandre Nero retoma a música num disco que repensa a tragédia dos dias atuais e acende um farol no horizonte – o farol da beleza”, resume o jornalista Alexandre Matias, no encarte.

Para dar seu recado, Alexandre Nero (voz, violão 12 cordas, violão nylon, violão de aço, samplers) se acerca de Antonio Saraiva (piano, guitarra, violão nylon, violão 12 cordas, samplers), David Brinkworth (samplers e programações), Gilson Fukushima (samplers e programação de bateria) e Vina Lacerda (percussão), sua banda base, além da St. Petesburg Studio Orchestra (cordas).

“Quarto, suítes, alguns cômodos e outros nem tanto” abre com “Virulência”, parceria com Aldir Blanc (1946-2020) e Antônio Saraiva, que assina a produção musical e arranjos de cordas e divide com Nero os arranjos de bases. Começa com Nero cantando em falsete, com a música crescendo, e o arranjo para orquestra de cordas ganhando destaque, além do verso porrada certeira “na falta de ar um governo deserto”.

A faixa seguinte, “Meu bloco taí” (Alexandre Nero/ Luiz Felipe Leprevost/ Adriano Petermann/ Gilson Fukushima) é uma música que valoriza o silêncio. Tem o carnaval como tema mas contraditoriamente não é barulhenta como o carnaval a que estamos acostumados, o que de algum modo reflete o não-carnaval reflexo da pandemia e do consequente isolamento social, que não permitiu a realização das festas de momo nos últimos dois anos.

“Beleza na tristeza” (Alexandre Nero/ Luiz Felipe Leprevost) é título que bem poderia traduzir o conceito do disco, mas repito: o disco é apenas aparentemente triste. Nero não entrega nada de bandeja, é um disco com várias possibilidades de interpretação, a começar por sua própria voz. Mesmo na música ele está atuando: é como se o ator fosse vários cantores. “Só quem tocou a tristeza um dia/ pode reconhecer a beleza e a alegria”, diz a letra.

“Em guerra de cegos” (Alexandre Nero/ Fabio Freire) começa subvertendo alguns ditos populares e se vale de trocadilhos, antecipando o futuro e a superação deste triste estado de coisas que hoje atravessamos. A mensagem pode ser profética: “em tempos de fúria, criança pra brincar”, e adiante “em tempos de chaga, amigos pra curar”. A faixa tem a participação especial de Milton Nascimento.

É um álbum introspectivo. Nero volta-se pra dentro, talvez aproveitando o momento turvo advindo da pandemia, ainda não completamente superada. Em “Bola de fogo” (Alexandre Nero/ Fabio Freire), o conselho, uma lição de encorajamento e superação: “não se acostume, não/ parece que tudo ficou sem chão/ mas não”.

“A partícula” (Alexandre Nero/ João Cavalcanti) é uma reflexão sobre o sagrado e a relação e insignificância do ser humano perante o divino. “Lajedo do sertão” (Alexandre Nero) também tangencia o sagrado, com imagens poéticas desconcertantes como “faz céu de arranha-chão/ poeira do amanhã”.

“Mata” (Alexandre Nero/ Antonio Saraiva) reveza o verbo e a floresta. Aborda a destruição do meio ambiente em geral e particularmente da Amazônia promovida pelo governo neofascista de Jair Bolsonaro, além de outras formas de violência, mas guardando também alguma esperança no futuro: “pelo sim/ pelo não/ hoje sempre renasce a manhã”, termina a letra.

“Nossa Senhora de Copacabana” (Alexandre Nero/ Luiz Felipe Leprevost), a famosa avenida carioca, é louvada em marcha impura, que tece loas a personagens que pisam o logradouro com nome de santa – putas, crianças, travestis: “louvo quem todos os dias/ do teu naufrágio retornou/ das amargas madrugadas/ nas boates, sem pudor/ carnes do seu bel-prazer/ corpos com sangue do censor/ bocas a sugar inteiras/ almas sujas de bolor”.

A voz de Elza Soares (1937-2022) arrepia em “Miseráveis” (Alexandre Nero/ Fabio Freire): “meçam guerras/ mísseis, misses/ Messes, missas/ messias, memes, mitos,/ masmorra nas minas, nas monas, nos manos/ nos mascates, mendigos, comuns/ Macunaímas, Pixotes, Mussuns”, começa a letra, outra porrada com endereço certo, com citações a remédios, políticos e pilantras (às vezes são a mesma coisa), da vida real e da ficção: a Sucupira governada por Odorico Paraguaçu está na letra, precedendo “o fim da nação”.

“Sem mais” (Alexandre Nero) fecha o disco e também é papo reto: “estou farto de heróis/ convidados vips/ paladinos/ baluartes pop-chiques”, certamente referindo-se aos falsos heróis, mitos de pés de barro e desonestos de toda ordem que têm dominado o cenário político do Brasil desde o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

“O álbum de Alexandre Nero joga luz no desespero, enquanto equilibra-se no abismo das contradições”, diz o texto do parceiro João Cavalcanti, no encarte. “Alexandre Nero nada até a superfície e enche os pulmões justamente quando o país mergulha na maior catatonia de sua história”, continua.

A música de Alexandre Nero, ao olhar para dentro e ao redor, torna “Quarto, suítes, alguns cômodos e outros nem tanto” um disco necessário nestes tempos distópicos.

Quarto, suítes, alguns cômodos e outros nem tanto. Capa. Reprodução
Quarto, suítes, alguns cômodos e outros nem tanto. Capa. Reprodução
Serviço: “Quarto, suítes, alguns cômodos e outros nem tanto”, disco de Alexandre Nero. Disponível terça-feira (12) nas plataformas digitais.

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