Ordinarios, peça da Cia La Minima
Cena da peça "Ordinários", da Cia La Mínima, disponível no Youtube - Foto: Divulgação

O que é ser palhaço? Sem dúvida é, entre outras coisas, provocar o riso por meio do ridículo e do absurdo. Mas e se esse ridículo for a guerra? É disso que se trata Ordinários, espetáculo da Cia La Mínima que estreou em 2018, mas que, quatro anos depois, em plena guerra na Ucrânia, se reveste de grande atualidade. O cenário é o campo de batalha ocupado por três soldados que recebem a missão de resgatar o major do exército no território inimigo. Durante o caminho, eles se debatem sobre as contradições da guerra e as suas próprias vulnerabilidades e medos.

Com uma superprodução e equipe, a peça segue o mesmo tom crítico e inteligente típicos da Cia La Mínima, grupo criado em 1997 por Domingos Montagner (ator global falecido em 2016) e Fernando Sampaio, respectivamente os palhaços Agenor e Padoca. Porém, quem espera ver cores vibrantes, nariz vermelho e piruetas, acaba estranhando o início do espetáculo com luzes baixas, figurinos de tons pastéis e maquiagens discretas. Mas logo o público se surpreende e ganha (quase) tudo a que tem direito: coreografias, momentos de pantomima (teatro gestual), instrumentos musicais, muita dramaticidade, recursos sonoros – que são um espetáculo à parte – e personagens com os quais podem se identificar.

Falando neles, são três soldados bem diferentes: o chefe (Filipe Bregantim), fascinado pelo enredo da guerra e pela possibilidade de se tornar um herói. O poeta e escritor (Fernando Paz) que procura fugir de toda aquela violência por meio das palavras e dos afetos – que a guerra insiste em destruir. E o destrambelhado e faminto (Fernando Sampaio) que subverte os objetos, símbolos e a linguagem da guerra, mostrando que algo que pode ser usado para ferir também pode ser usado para fazer rir.

E realmente tudo faz rir… desde o jogo de luz que separa uma rápida e inesperada troca temporal entre a noite e o dia, até os sons feitos com a boca para exprimir excitação ou representar o barulho de um cuspe caindo na água. Porém, na mesma proporção em que a peça provoca risadas, ela também faz refletir. “O sangue de tanto ódio derramado não serve de adubo, ao contrário, torna estéril o solo em que se derrama”, diz o soldado poeta. E, assim, a missão que parecia ser para salvar um chefe, acaba se transformando no resgate da própria humanidade daqueles três soldados e, por que não, da humanidade da guerra. 

E faz o público refletir: será que não é dessa humanidade que o mundo precisa para acabar com os conflitos que acontecem na Ucrânia, na Síria, no Afeganistão, no Iraque e mesmo nas favelas e comunidades do Brasil? Infelizmente, assim como na guerra, ninguém sabe como o espetáculo termina.

Ordinários. Com a Cia La Mínima. Disponível no Youtube

Sabemos que pedir apoio é chato. Mas precisamos falar com você

Mascote FAROFAFÁ FAROFAFÁ é o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes e teatro. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não temos donos bilionários e não corremos atrás de cliques. Isso significa duas coisas:

1. Cobrimos o que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores nem seguir agendas externas.

2. Praticamos o jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu o disco, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Sabemos que nem todo mundo pode contribuir. Mas se nosso trabalho faz diferença na sua relação com a cultura, considere se juntar a quem mantém esse projeto vivo. Qualquer valor conta.

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome