“Toda mulher deve saber: quando um homem ergue o braço para ela uma vez, está na hora de deixá-lo. Porque ele vai pedir desculpas, e então vai se tornar cada vez pior”

O autor dessa frase foi o gaitista, cantor e compositor Grandpa Elliott, um dos célebres integrantes do coletivo internacional de músicos de rua Playing for Change (um projeto do produtor Mark Johnson) que morreu nesta segunda-feira, 7, nos Estados Unidos. Grandpa a disse em New Orleans, ao lado de uma tenda de shows, em 2010, em uma entrevista pouco antes de embarcar para seu primeiro show pelo Brasil. Ele se referia ao assassinato da própria mãe pelo padrasto, com pancadas, quando ele tinha apenas 6 anos.

Tendo perdido a visão ainda criança, ele se criou cantando numa esquina entre as ruas Royal e Toulouse, no famoso French Quarter de New Orleans, esquinas nas quais virou uma grande atração por conta da voz grave poderosa, muito suingue e uma performance arrasadora na gaita, que só começou a tocar em 2002, quando ganhou uma de um sujeito de Chicago chamado Tom Gilmore.

Sua morte foi anunciada em um comunicado de uma pessoa que identificou-se como seu filho, Jay Small (Jermain Small) nas redes sociais, e confirmada na página do Instagram do Playing for Change. “Estamos de coração partido com o anúncio da morte do nosso amado Grandpa Elliott na noite passada em New Orleans. Nós o agradecemos por todas as sábias lições, a míriade de boas memórias e por repartir seu dom de música com o mundo, trazendo tanta alegria a nossos corações. Sua memória e seu legado vão viver para sempre, Grandpa”.

Grandpa tinha 77 anos (nasceu em New Orleans em 10 de julho de 1944) e estava internado no Ochsner Hospital em Jefferson, Louisiana, para tratamento de uma infecção na pele. O filho disse que uma bactéria entrou no sistema sanguíneo de Elliott, espalhando-se e complicando seu estado de saúde.

Grandpa Elliott nasceu Elliot Small em um subúrbio de New Orleans. Virou figura folclórica na cidade, quando já veterano, às vezes andando de bicicleta colorida, barba branquinha, chapeuzinho, sempre com seu macacão jeans azul, envergando nas calçadas uma mistura muito pessoal de blues, soul, gospel e pop. Embora tenha cantado com Fats Domino e outros nomes célebres, ele só se tornou conhecido mesmo a partir do final da primeira década deste século, quando uma gravação sua cantando Stand by me, de Ben E. King, tornou-se viral na internet em um filme, com 30 milhões de visualisações em um ano. Após aparecer na TV com o grupo Playing for Change, sua vida mudou radicalmente. Para tocar na rua, a polícia precisava fazer plantão e organizar a multidão, tamanho o afluxo de fãs. Ganhava cerca de 4 mil dólares por apresentação e logo comprou um carro para se locomover. Recentemente, tinha acabado de pagar sua primeira casa.

Veio algumas vezes ao Brasil a convite do Bourbon Street Music Club, a bordo do Playing for Change, e também foi uma das estrelas do megafestival SWU, em 2011, em uma fazenda em Campinas. Seu legado é mais do que o da perseverança – Grandpa foi um mediador da vibração das ruas, com sua linguagem áspera e doce ao mesmo tempo, carregando isso para as plateias mais bem afortunadas do mundo.

Grandpa Elliot no Brasil em 2011, no festival SWU, em Campinas

Abaixo, Grandpa em 1999 cantando e tocando Bring it on Home e Backdoor Man, em duo com Stony B, na rua em New Orleans, como adorava:

 

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