Luiz Jr. Maranhão e Ricarte Almeida Santos. Foto: divulgação
Luiz Jr. Maranhão e Ricarte Almeida Santos. Foto: divulgação

O bairro do Monte Castelo, em São Luís do Maranhão, tem uma história intimamente ligada com a prática do Choro na capital maranhense. Berço de nomes como Zé Hemetério e Gordo Elinaldo, entre outros, o bairro tinha, na Rua Raimundo Correa, um reduto cativo de chorões e boêmios. Um bar e restaurante que já não faz mais parte de sua geografia era espaço privilegiado de descompromissadas rodas de choro, por onde passaram diversos mestres (e discípulos). O lugar era apelidado Bateau Mouche, o nome do navio que naufragou na Baia de Guanabara em 31 de dezembro de 1988, matando 55 das 142 pessoas a bordo. De tanta goteira, quando chovia o bar alagava, conta a memória coletiva do lugar.

Também foi ali nas imediações do Monte Castelo, no vizinho Retiro Natal, que surgiu o Regional Tira-Teima, em meados da década de 1970, ainda na ativa, cujas reuniões e ensaios aconteciam na casa do compositor e percussionista Antonio Vieira (1920-2009), onde as buganvílias ainda vicejam por sobre o muro. A duas quadras de lá, onde outrora funcionaram a estação de bondes e o Hortomercado do Monte Castelo, foram inauguradas, em julho de 2021, a Praça Mestre Antonio Vieira e a Estação do Choro, um espaço museológico destinado ao gênero musical.

A primeira exposição do novo espaço foi uma homenagem a nomes de destaque do Choro no Maranhão: era composta de painéis com fotografias e pequenos perfis biográficos de instrumentistas como João Pedro Borges, Joaquim Santos, Ignez Perdigão, Turíbio Santos e Agnaldo Sete Cordas, entre outros, com textos extraídos do livro “Chorografia do Maranhão” (Pitomba!, 2018), que reúne as 52 entrevistas que este repórter e Ricarte Almeida Santos, com fotografias de Rivânio Almeida Santos, publicamos ao longo de mais de dois anos no jornal O Imparcial.

Na tarde de hoje (7), Ricarte enriqueceu o acervo da Estação do Choro: doou livros, cadernos de partituras, cartas e DVDs, material acumulado ao longo de mais de 30 anos de militância chorística. Sociólogo de formação, ele apresenta há este tempo o dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM, único programa dedicado ao gênero no dial maranhense.

Além de exemplares de “Chorografia do Maranhão”, de que é um dos autores, entre os livros doados por Ricarte estava também “Suíte gargalhadas”, de Henrique Cazes, cadernos de partituras de nomes como Jacob do Bandolim (Instituto Jacob do Bandolim), Dilu Mello (organização de Luiz Alexandre Raposo), “Choros amazônicos” (de Adamor do Bandolim), V Festival Nacional de Choro (Instituto Casa do Choro), “Sábado à tarde” – Choros de Avena de Castro (coordenado por Beth Ernest Dias), “Alencarinos – Choros de Alencar 7 Cordas” (organizado por Lucas Campos e Fernando César), além de DVDs (“Brasileirinho”, de Mika Kaurismaki; “Nas rodas de choro”, de Milena Sá; “Villa-Lobos – uma vida de paixão”, de Zelito Viana; “Ao Jacob, seus bandolins”, com vários artistas, lançado pela gravadora Biscoito Fino), cartas, programas de saraus produzidos por ele, além do arquivo com o material audiovisual do projeto Clube do Choro Recebe, realizado entre 2007 e 2010 no Restaurante Chico Canhoto (outra casa que já não existe), num total de mais de 100 itens.

“Esse gesto tem o sentido de estimular a criação de um acervo deste equipamento público criado recentemente pelo Governo do Maranhão. Espero que seja um gesto pedagógico para que outras pessoas que possuem algum acervo chorístico possam fazer o mesmo. A ideia é transformar a Estação do Choro em um espaço de memória, de pesquisa, de preservação da história do gênero no Maranhão”, declarou o sociólogo, radialista, pesquisador e produtor cultural Ricarte Almeida Santos.

“A doação do acervo de Ricarte para a Estação do Choro foi um ato imensurável. Ele tem uma história linda relacionada a projetos como o RicoChoro ComVida, que revelou tantos músicos, tantos compositores, cada vez mais está fazendo um diálogo com instrumentistas de outros estados, os mais importantes do país, inclusive. Isso é fundamental para que  o Choro cresça e se desenvolva ainda mais aqui no estado. Com certeza esse acervo vai ser de grande valia para que os músicos possam se lapidar tecnicamente, também a questão do repertório, há um material educativo, tem partituras, tem um acervo imenso quando se fala em audiovisual. Esse acervo com certeza vai virar uma referência para os músicos, os estudantes de música, as pessoas que apreciam o Choro, que pesquisam o Choro, músicos profissionais que sempre buscam material para desenvolver seus estudos nos instrumentos. Agradecemos de coração essa doação”, declarou o violonista Luiz Jr. Maranhão, gestor de ações culturais da Estação do Choro.

A Estação do Choro fica na Praça Mestre Antonio Vieira (Monte Castelo) e pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 13h às 18h.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome