A cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, se coloca na linha de frente do embate com a covid-19 e faz um ensaio de volta à normalidade nesta semana, na programação de shows da primeira edição do festival Campão Cultural. Na quinta-feira, 2, o rapper mineiro Djonga provocou aglomeração em frente ao palco montado no grande espaço gramado da Esplanada Ferroviária (no centro da capital), o mesmo local de onde partia no passado, rumo a Bolívia, Peru e Chile, o “Trem do Pantanal“. A canção, hoje um hino informal da região, foi composta pelos cariocas radicados sul-matogrossenses Geraldo Roca e Paulo Simões e gravada a partir de 1981 por artistas da terra como Almir SaterTetê Espíndola Alzira E, além de forasteiros como Diana Pequeno, Sérgio ReisRenato Teixeira etc.

A Polícia Militar do estado não divulgou dados sobre o público, mas a organização do festival estima que 8 mil espectadores estiveram diante de Djonga, no pico de concentração até agora. Os próximos desafios acontecem no sábado, com apresentação da pernambucana Duda Beat, e no encerramento, no domingo, com os rappers paulistanos Dexter Cris SNJ.

SoulRa no Campão Cultural, Campo Grande (MS)

Campão Cultural, Campo Grande (MS)

Djonga no Campão Cultural, em Campo Grande (MS)
O público de Djonga no Campão Cultural, em Campo Grande (MS), na quinta-feira, 2 – foto Vaca Azul

Com 14 dias de duração e promovido pela Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul, pela Secretaria de Estado de Cidadania e Cultura (Secic) do governo estadual e pela Secretaria de Cultura e Turismo do município de Campo Grande, o Campão Cultural começou em 12 de novembro e reúne grande e diversa programação, espalhada pelas sete regiões administrativas da capital, nas áreas de arte-educação, artes visuais, audiovisual, capoeira, cidadania, circo, cultura de rua (com breaking, grafite, passinho, rap e slam), cultura LGBTQIA+, dança, discotecagem, feira dos saberes (em arte afro, arte indígena, artesanato, design, moda, passinho etc.), fotografia, gastronomia, literatura, música, oficinas, oralidades, patrimônio cultural e teatro, além da 1ª Feira da Música de Campão. Com visitantes de diversas partes do país, o evento tem reunido artistas e profissionais da cultura de Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e São Paulo.

Os protocolos sanitários são os já conhecidos, e a organização recomenda distanciamento de 1,5 metro entre participantes, mas evidentemente não é o que se verifica na prática. As aglomerações acontecem em vários momentos e locais, e há sempre muita gente com máscara e muita gente sem máscara. “Pelo que a gente tem acompanhado, somos os primeiros a voltar”, afirma o secretário estadual de Cidadania e Cultura, João César Mattogrosso. “Isso foi fruto, lógico, de todo um trabalho de imunização, que já ultrapassou 75% da população no estado. Sabemos que a pandemia ainda não acabou e dos riscos que corremos, mas a gente precisa avançar. Temos orgulho de o Campão Cultural ser o reencontro da classe artística com o público. É um recado que a gente passa para a sociedade através da cultura.” Embora seja filho de um primo de primeiro grau do cantor Ney Matogrosso (nascido em Bela Vista, na fronteira com o Paraguai), o secretário estadual não pertence exatamente à área da cultura: formado em direito, é empresário do agronegócio e entre 2010 e 2016 atuou no setor de entretenimento (que define como “um braçozinho da cultura”).

Em julho passado, o governo estadual anunciou um investimento de aproximadamente R$ 80 milhões para a cultura até o fim do ano (eleitoral) de 2022 – Mattogrosso afirma que esse valor equivale à maior destinação para a área nos 44 anos de existência do Mato Grosso do Sul. “Para o ano que vem, já temos garantidos o Festival América do Sul, que deve acontecer em maio, em Corumbá; o Festival de Inverno de Bonito, em julho; a segunda edição do Campão Cultural, em setembro; e também um festival que será o maior do nosso estado, nos 79 municípios. Sobre esse não posso falar ainda”, afirma. O primeiro Campão consumiu, segundo ele, cerca de R$ 5,3 milhões.

O governador atual é Reinaldo Azambuja, do PSDB, um partido não propriamente progressista, mas que avança sobre o setor e assim explicita divergências em relação à não-política cultural do bolsonarismo, seja pelo aumento de investimento em tempo rebaixado, seja pelo fato de atrelar a pasta da Cultura à Cidadania (que compreende subsecretarias de idosos, indígenas, juventude, LGBTQIA+, mulheres, pessoas com deficiência e racial), e não ao turismo, como fez o presidente da República em sua guerra contra o setor. Embora dê como certos os eventos, o secretário admite que o teste epidemiológico representado pelo Campão Cultural irá balizar os acontecimentos de 2022, já a partir do Carnaval. “Quem vai falar se vai ter (os eventos de 2022) não somos nós. Precisamos respeitar as questões sanitárias”, diz.

Campão Cultural, Campo Grande (MS)
O público feminino se faz presente nos shows de SoulRa e Djonga no Campão Cultural, em Campo Grande (MS)
SoulRa no Campão Cultural, Campo Grande (MS)
A rapper douradense SoulRa se apresenta no Campão Cultural, na quinta-feira, 2

O público apelidado depreciativamente de “agroboy” não tem predominado no festival, que atrai uma grande diversidade de espectadores em termos raciais, sexuais e de gênero. O mesmo acontece na seleção de elenco, como por exemplo na abertura do show de Djonga, a cargo da jovem e engajada rapper SoulRa, de Dourados. “Há quem receba seus mimos/ e cobre Estado mínimo/ atribua a sorte ao signo/ diz que é questão de mérito/ culpa é do periférico”, ela canta no reggae-rap engajadíssimo “À Flor da Pele” (2019), na direção contrária às dos governos federal, estadual e municipal em exercício. Assim segue seu rap: “Eu quero a paz, sim/ quando também for pra mim/ não enquanto privilégio/ de um grupo selecionado/ avanço industrial/ monocultivo rural/ servindo o capital em nome do patriarcado/ desrespeita a natureza/ ela, mãe que nos concebe, dona de toda beleza/ como resposta repele/ contra um sistema que fere/ índio, preta, ribeirinho/ você não está sozinho”.

O grupo sul-mato-grossense Vozmecê - quarta-feira, 1 de dezembro
O grupo sul-mato-grossense Vozmecê se apresenta no palco Zé Pretin, na quarta-feira, 1 – foto André Patroni

A diversidade pauta também o palco fechado em homenagem ao cantor e guitarrista blue-sertanejo Zé Pretim (morto neste ano), que está instalado dentro do Armazém Cultural, onde funcionava a estação ferroviária. Por ali passaram, na quarta-feira, 1, o grupo local Vozmecê e a banda cearense Dona Zefinha. O primeiro espelha em si a diversidade, com quatro homens e três mulheres no palco, sanfona e bateria à frente, guitarras na cozinha, pandeiros, triângulo e flores no palco. O jovem grupo leva adiante as fusões elaboradas pela geração sul-mato-grossense que nos anos 1990 fundiu tradição local fronteriça e paraguaia às sonoridades ditas universais, no formato batizado de polca-rock, de artistas como Jerry Espíndola (irmão de Tetê e Alzira), Márcio de Camillo e Rodrigo Teixeira, que juntos formam atualmente o trio Hermanos Irmãos. No escopo do Vozmecê, cabem, além de polca-rock (ou “polck”), misturas de “forrock”, “roça-forró”, samba, música anti-Bozo e canção chamada “Pós-Verdade” (“um remelexo filosófico muito dançante”, segundo eles).

A banda cearense Dona Zefinha, no Campão Cultural - quarta-feira, 1

O show da banda cearense Dona Zefinha, no palco Zé Pretin, na quarta-feira, 1
O show da banda cearense Dona Zefinha, no palco Zé Pretin, na quarta-feira, 1

Já o cearense Dona Zefinha enriquece diversidade musical nordestina (forró, frevo, quadrilha, cúmbia caribenha etc.) com circo, teatro e humor, num formato original que incorpora sanfona, ganzá, cavaquinho, rabeca, pífanos, triângulo, metais etc. “Ado, ado, ado/ pode vir, tô vacinado”, brincou no palco um dos integrantes. Rodrigo Teixeira fez participação especial cantando “Hermanos Irmãos“, cuja letra diz muito sobre o pensamento por trás da música do Mato Grosso do Sul: “Somos tão diferentes/ somos tão parecidos/ nosso estado é grave, eu sei/ mas ainda estamos vivos/ nosso estado é sólido/ é gasoso e é líquido/ somos vários estados/ mas nunca os Estados Unidos/ sou da América/ sou da América/ sou da América do Sul”.

Apresentam-se ainda no Palco Zé Pretim o grupo paulistano de afrobeat Bixiga 70, na sexta-feira, e a artista trans potiguar Potyguara Bardo, no sábado. O encerramento do festival acontece no palco ao ar livre (batizado em homenagem ao compositor e violonista Mestre Galvão, também morto em 2021, de covid), com os paulistanos Circo Zanni e Dexter. Os olhos e ouvidos da cultura brasileira deveriam estar voltados para o Mato Grosso do Sul nestes dias – mesmo se continuássemos sem prestar atenção à produção do Centro-Oeste que escapa do agro-sertanejo, pode ser que tenhamos no Campão Cultural um termômetro importante para imaginar o que acontecerá com os eventos de multidão, a classe cultural e, por extensão, a população em geral no ano 3 da pandemia.

(O jornalista viajou a Campo Grande a convite da organização do Campão Cultural.)

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