Com a abertura da temporada das festas de peão de boiadeiro, torna-se mais aguda a questão do investimento de prefeituras em festas de música sertaneja. A maior parte desses eventos não tem dinheiro público na contratação de artistas, mas alguns só se realizam após o desembolso das prefeituras em cachês.

É o caso da pequena Campos Gerais, em Minas Gerais, distante cerca de 300 km de Belo Horizonte e com cerca de 29 mil habitantes. No próximo dia 15 de setembro, a partir das 18 horas, Campos Gerais realizará a sua 27ª edição da Festa do Peão, no Parque de Exposições Julio Coelho (Avenida Davi Pereira Maia). Para a festa, a prefeitura local desembolsou 1 milhão e meio de reais dos cofres públicos para pagar os cachês de todas as 6 atrações: Gusttavo Lima (800 mil reais), Alok (300 mil reais), Fernando & Sorocaba (160 mil reais), Mato Grosso e Mathias (90 mil reais), Clayton e Romário (80 mil reais) e Tuca Fernandes (60 mil reais).

Todas as contratações foram autorizadas pelo prefeito Miro Lúcio Pereira, o Miro Falcão (PSDB). A Festa do Peão de Campos Gerais cobra ingresso, 200 reais por pessoa. São 4 noites, e caso 5 mil pessoas pagantes por noite frequentem o espaço, é possível que a festa seja superavitária. Isso provoca questões adicionais: pode o poder público agir como empresário de showbiz? É uma competição correta para com a iniciativa privada, que corre riscos em suas empreitadas? É um incentivo leal para com os outros gêneros e outros espectros artísticos da música brasileira? É uma priorização correta da gestão pública?

Para fins de comparação: tudo que o governo federal, por intermédio do Ministério do Turismo, está investindo na 55° edição do Festival de Parintins, no Amazonas, uma das mais tradicionais festas populares do País, é o valor de 250 mil reais.

Revelado pelo FAROFAFÁ, o valor astronômico pago ao cachê de Gusttavo Lima pela prefeitura de Campos Gerais, sem edital, sem licitação ou nenhum outro mecanismo de transparência, foi comparado, em reportagem do portal UOL, à maior obra realizada pela prefeitura na cidade, a reforma da Avenida Getúlio Vargas. O valor do cachê é mais de três vezes superior a tudo que foi investido em uma das principais artérias viárias do município.

Além da iniciativa de prefeitos voluntaristas de todo o País, os shows são contratados também por outros meios de drenagem de recursos públicos. O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) denunciou na semana passada uma distorção do conceito de investimento público no País: as emendas de relator. Ele apontou 323 deputados e 34 senadores com a prerrogativa de destinar 3,2 bilhões de reais em emendas. “E mais: há as emendas em Pix também. É indicação direta na veia dos municípios para a contratação de cantores sertanejos por 1 milhão e 200 mil reais em cidades que foram tomadas por enchentes, que não têm água, não têm luz, não tem nada”, discursou o deputado no plenário da Câmara.

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