O cantor, compositor e escritor Bernardo Botkay, o Botika Foto: Ana Maria Bonjour

Quando ouvimos a música “Mastigação”, faixa de encerramento do disco Carnívora, do cantor, compositor e escritor carioca Botika, a sensação é de estarmos saindo de uma turnê dionisíaca de estrada tipo aquelas da banda Edward Sharpe and The Magnetic Zeros. A canção pode sugerir que acabamos de atravessar uma grande farra de vaudeville, uma possessão coletiva com força de reativar percepções esquecidas de Mutantes, Flaming Lips – aquela música que dorme junta, acorda junta, come junta e faz jams coletivas em uma única levada, enquanto vive e ama.

Mas não é uma travessia mole. Passar por Carnívora significa transpor um território farpado de 11 canções sem salvo conduto, uma sangria de corpo & espírito que começa já com um sacode, com um terreno minado de distorção, o antigozo da música “Goza”,  implosão de narcisos em fúria sob um lençol manchado de guitarras. Temporão antropofágico, o disco Carnívora reinsere no dicionário pop da contemporaneidade nacional a verve do carioca Botika, artista de múltiplas expressões que já está há quase 20 anos produzindo singularidades.

Botika, MC de si mesmo, trombeteia em 11 canções sua fibrosa reflexão sobre o que é estar no mundo aqui e agora, encurralado pelos mesmos inimigos de sempre, escorchado pela dificuldade de reconhecer os próprios erros. Mas, principalmente, ele passa pelo seu crivo questões de significado, de valoração da palavra, do sentido da indignação pessoal. “Alguém vai sair machucado daqui”, ele canta, em “Campo Minado”, atualizando para um País destroçado a máxima de Jim Morrison (“No One Here Gets Out Alive”, daqui ninguém sai vivo).

Carnívora é um híbrido de canção e contrafação, de música de verdade e música como pretexto. Com a ajuda de algumas vozes femininas (Alice Caymmi, Amora Pera, Ava Rocha e Nana Carneiro da Cunha), Botika conduz o seu manifesto entre a beleza e a advertência verbal, passeando em alguns momentos pela tradição. É o caso, por exemplo, de “PanTransplante”, no qual a linha evolutiva dos Secos & Molhados vem bater cartão de ponto, modulada pela voz e pelo cello divinos de Nana Carneiro da Cunha. É também o caso de “Nossa Estação”, que se derrama languidamente sobre um quase samba, um trabalho paleontológico-musical sobre rudimentos colhidos no estuário do samba de Cartola ou Noel.

A panorâmica não é de leveza idílica. “A cidade para mim é um açougue” , canta Botika, dividindo os vocais com Alice Caymmi. Em “Tapete Voador”, uma sonoridade ibérica, quase moura, embala um “cochilo profundo na beira do abismo”. Entre o melancólico e a insurreição, canções como “Lâmpada” e “Por Dentro e por Fora” são conduzidas por violinos e versos de proclamação, o artista inconformado com o cerco que sente à sua volta. “Por dentro e por fora/ o mesmo breu”, canta o artista.

“Carnívora” parte de um princípio conceitual que encontra consanguinidade apenas em poucos trabalhos recentes da música, como por exemplo em dois discos da islandesa Björk: Vulnicura (2015) e Biophilia (2011). Carrega a política do corpo e a política antifa, que as duas andam mesmo indissociáveis no momento. E Botika consegue capturar a vibração do seu tempo com uma grande angular poética, uma grande abertura de diafragma.

Botika estreou como escritor em 2004, com o assombro do livro Autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue Editorial), revivendo experiências de linguagem de autores como José Agrippino de Paula, antipsicologista e blefador do realismo. Ao mesmo tempo, o carioca tateava pelo underground a bordo de sua banda Os Outros, fazendo o elo possível entre literatura e música. Com Carnívora, parece que atingiu um grau de fissão nuclear dessas linguagens.

"Carnívora" (2021), de Botika

Carnívora. Novo álbum de Botika. Produção: Gustavo Benjão. Direção Musical: Negro Leo. YBmusic, 2021. Para ouvir: found.ee/botika_carnivora. Instagram: https://www.instagram.com/botika.carnivora/. Site: https://www.botika.art.br/.

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