Garçom apronta a mesa na Mercearia São Pedro, que anunciou fechamento

Como talvez só o Cabaret Voltaire na Zurique dos anos 1910, ou o fictício Rick’s Café de Casablanca (não o real) dos anos 1940, ou o Floridita de Habana Vieja de meados dos anos 1950, ou ainda  o CBGB de NYC dos píncaros dos anos 1970, a Mercearia São Pedro da Vila Madalena tem sido, desde 1968, o lugar em São Paulo em que se materializam os anseios de quem é fugitivo das catalogações ou quem procura asilo diplomático contra a padronização cultural. É um bar de tão larga reputação que aceita até um lide de tamanha licenciosidade como o que os leitores leram acima.

Por isso, é mais que natural a comoção em torno do anúncio de seu provável fechamento, confirmado pelo Marquinhos Benuthe, o proprietário. Segundo Benuthe, o local foi vendido a uma incorporadora e será demolido para a construção de um prédio de luxo. O imóvel que abriga o bar foi arrematado com outros cinco sobrados da família naquela área.

Célebre por abrigar uma plêiade de notáveis que ia do cantor australiano Nick Cave ao dramaturgo londrinense Mario Bortolotto, do ex-craque Sócrates (1954-2011) ao cineasta Fernando Meirelles, dos escritores Reinaldo Moraes e Ronaldo Bressane ao ludopédico autor Xico Sá… Ok, escritor sempre foi mato na Merça: Clara Averbuck, Joca Reiners Terron, Marcelo Rubens Paiva, Marcelino Freire, Julian Fuks, e por aí vaí. Sempre oferecendo disputadas noites de autógrafos entre chinelas havaianas e pasteis de carne seca, a Mercearia São Pedro aceitava seu destino livreiro de forma tão aberta que até abriu uma livraria anexa ao bar famoso, em fevereiro de 2020. A Ria Livraria, entretanto, que abriu com uma leitura cênica de “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, livro do grande Marçal Aquino, deu azar: um mês após a abertura, explodiu a pandemia do coronavírus.

Há uma frase reveladora (e menos destacada) de Marquinhos Benuthe na reportagem da Folha de S.Paulo que noticiou a decisão da Merça de encerrar suas atividades. “Nos últimos anos, a Mercearia já não era a mesma. Este fim era inevitável. Desde alguns meses antes da pandemia, ela já vinha definhando”, afirmou. Não é apenas a Mercearia, é o bairro todo, como sabemos. A Vila Madalena passa por um processo de vilaolimpianização acelerado, tocado pela voracidade imobiliária e pela invasão de um público pós-yuppie igualmente predatório. Ou seja: o fim da Mercearia já estava em curso.

Afamada pelo layout meio rústico, sem premeditação, assim como por seus garçons dotados de capacidade de autogestão (entre eles, pontificava o sarcasmo do grande França), a Mercearia foi ungida pela escolha democrática de um público diverso e inquieto ao longo dos anos. Isso a tornou automaticamente uma ZCC (Zona de Convergência Cultural), que é como o poeta Ricardo Kelmer, de Fortaleza, define esses bunkers (o Cantinho do Frango, em Fortaleza, é outra ZCC). Não há como criar um local assim nem por astúcia nem por decreto, simplesmente não acontece – é um fenômeno não provocado. Quem sabe não brote outro rapidamente nesse tempo em que tudo parece esterilidade.

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