Linn da Quebrada em

Linn da Quebrada passou por várias transformações entre o álbum de estreia, Pajubá (2017), e seu sucessor, o novo Trava Línguas. A cantora e compositora paulistana atravessou mudanças corporais, ampliou sua visibilidade como protagonista do documentário revelador Bixa Travesty (2018) e trocou a persona de entrevistada pela de entrevistadora no programa Transmissão (2019), do Canal Brasil, ao lado da parceira Jup do Bairro. “Tenho conseguido hackear diversos espaços. Nós estamos em todos esses lugares”, afirmou em entrevista a FAROFAFÁ em 2019, referindo-se à dificuldade histórica que pessoas trans enfrentam para ter acesso à mídia em circunstâncias positivas.

Linn da Quebrada
Linn da Quebrada – fotos Wallace Domingues

Trava Línguas marca mais uma transformação: Linn suaviza a agressividade musical que a notabilizou desde o primeiro single, “Mulher” (2016), em que compreendia o próprio corpo como uma “ocupação” e se autodeclarava “diva da sarjeta“. “Sempre estive próxima da margem. Sempre estive próxima da sarjeta“, disse Linn em outra entrevista, em 2017. Nos primeiros anos, predominou a estratégia de botar o bloco na rua pela afirmação sem pudor ou autocensura de tudo que ela é: “Mulher” (2016) “BlasFêmea” (2017), “Bixa Preta”, “Bixa Travesty” , “Coytada”, “Pirigoza”, “Serei A” (2017). “-Tô bonita?/ -tá engraçada”, dialogavam Linn e Jup em “A Lenda”, sempre sob a determinação de desafiar e denunciar clichês, preconceitos e estigmas.

“Vem foder com os viado/ cê sabe, eu não sou sarada/ e não faço academia/ mas arraso numa cama/ inventando pornografia/ e se tu me desse bola/ eu dava, eu dava-dava/ eu dava, mas te comia”, sinalizava em “Pare Querida”, num álbum de cara limpa no enfrentamento de tabus como a homofobia entre não-heterossexuais, o preconceito generalizado contra os ditos “afeminados”, os cacoetes dos chamados “machos” heterossexuais (“se tu gosta de mulher/ por que só fala de piroca e grana?”, perguntava “Transudo”), e assim por diante.

O encerramento dessa fase foi anunciado primeiro na (anti)católica “Oração” (2020), que ostentou algum tipo de pacificação (não percebida pela Polícia Militar) celebrando em música e imagem a sororidade entre travestis, transgêneros, transexuais, não-binários etc. Essa tendência se pronuncia em Trava Línguas, construído majoritariamente por mulheres (cis e trans), como a DJ e produtora musical Badsista (que assina a direção musical ao lado da percussionista Domininque Vieira), a cantora e compositora cis potiguar Luísa Nascim (da banda Luísa e Os Alquimistas) e a cantora e compositora trans baiana Ventura Profana.

Patrocinado pela divisão musical da Natura, o segundo disco descompõe, por meio de uma pergunta-síntese, as identidades duras firmadas até aqui: “Quem Soul Eu?” (nome da última faixa), e é o que Trava Línguas tentará responder.

Stela do Patrocínio
Stela do Patrocínio permaneceu interna da Colônia Juliano Moreira até a morte, aos 51 anos

Linn acrescenta novos adjetivos/desígnios para se autoclassificar, alguns dos quais aparecem na faixa “Medrosa – Ode a Stela do Patrocínio” (parceria de Linn com Lincoln Antonio). Trata-se de uma homenagem que empresta versos da lavra da poeta carioca que passou cerca de 30 anos internada na Colônia Juliano Moreira: “Eu sou muito medrosa/ cínica/ covarde/ sonsa/ injusta/ eu não sei fazer justiça/ não sei como faz justiça/ eu não sei fazer/ eu não tenho coragem de enfrentar nada/ tenho que enfrentar a violência, a grosseria/ e ir à luta pelo pão de cada dia”.

Se antes o funk carioca (ou melhor, paulista) era o veio principal de expressão de Linn, agora o leque se abre para candomblé, tecno, bossa nova, drum’n’bass. Ao abrigo de uma atmosfera de bossa nova, abrandam-se as falas de Stela do Patrocínio (1941-1992), que eram mais próximas às da Linn explícita dos primórdios. Os versos originais indomados e indomáveis de Stela continuavam com os seguintes: “Eu sou mundial podre/ tudo pra mim é merda durinha à vontade/ até ser contaminada e contaminada até ser merda pura/ e é merda fezes excremento bosta cocô/ bicha lombriga verme pus ferida vômito escarro porra/ diarreia disenteria água de bosta e caganeira”.

A linguagem atenuada não significa, no entanto, arrefecimento do ímpeto de Linn da Quebrada. Já na primeira faixa, “Amor Amor”, o clima religioso (mas antípoda do catolicismo ou outras religiões brancas que também povoam o imaginário de Linn) envolve um transe de candomblé em ritmo afro-brasileiro, “deu meia-noite/ era quase meio-dia/ Xica Manicongo que destrave sua língua/ a saia rodava e sua boca remexia/ que a contradição nos banhe com sua feitiçaria/ (…) sua língua é uma faca/ faço dela o meu perfume/ sacrifico o meu sangue/ transiciono no negrume”. Embora menos sexual, a provocação é ainda assim inequívoca: “Amor amor/ foi o que eu senti quando Exu me abençoou”.

Nenhuma passagem do disco é ingênua ou inofensiva. “Cobra Rasteira” é para Oyá, orixá feminina que “vem me visitar/ canta pra subir/ sobe pra levantar/ levanta pra cair/ rasteja pra golpear”. Na terceira faixa, uma electro-bossa lânguida, o canto soa como “I miss you”, mas o nome da música é “I Míssil”. “I míssil/ em sua direção”, fulmina, acondicionando saudade e flecha venenosa numa mesma frase. Se o sexo machucava em Pajubá, agora é o amor que machuca, em todas as direções possíveis.

No funk eletrônico “Dispara”, os trava-línguas (“parte da parte mais perto da porta do peito”, “nem tudo que vende/ vem de mim ou vende nós”) são quebrados ao meio pela declamação romântica em espanhol de Luísa Nascim. A fórmula dos trava-línguas se expande em “Onde” (“o que diz a pegada quase apagada que eu deixei no chão”), numa pegada black eletrônica que remete ao velho drum’n’bass dos anos 1990.

Em “Pense & Dance”, o trava-línguas vira duplo sentido e flerta com a Linn irreverente e desbocada de antes: “Vocês sabem que eu não minto/ eu não sei mais se eu corto/ mas também não sei se eu pinto/ eu corto ou pinto?/ dói”. Há um meio despiste, mas os dilemas que arranham e ferem estão todos lá. “Quem soul eu/ ao me olhar no espelho/ ao sentir/ a ferida que cortou?”, pergunta. “Credo, que delícia, como é bom ser travesti”, conclui, ambígua. É só nessa faixa, a sétima, que a palavra “travesti” sai do armário pela primeira (e única) vez no álbum. O tema voltará adiante, no heavy tecno “Eu Matei o Júnior”, rajada sonora dividida com Ventura Profana. “E se trans for mar/ eu rio/ contra a correnteza/ pra me lavar”, a dupla trava (e destrava) as línguas, antes de matar o júnior.

É apenas na oitava faixa que Linn volta aos temas hegemônicos do funk carioca (e de sua própria história anterior): “Quando eu sento/ eu sei que você sente/ (…) bota, empurra, empurra, bota/ (…) tá chupando o meu cu como se fosse uma boceta/ eita/ puta linguada fatal”. A ambivalência de amor/romantismo versus sexo/violência volta com todo o ímpeto: “Eu vou te dar a minha cucetinha/ depois quero que cês morra/ mate/ morra/ de prazer”. Só no fim dessa faixa que fica quase no fim do disco, surge pela primeira (e única) vez outro tema essencial para Linn e para toda a juventude negra que conduz a música do Brasil dos anos 2020: “Mate em você/ o macho branco senhor de engenho/ colonizador/ capataz/ que pensa estar sempre à frente/ mas vive para trás“.

Provável fruto da produção de Badsista, o flerte com as pistas de dança (num tempo em que elas não existem) se intensifica na segunda metade do disco, em “Onde”, “Pense & Dance”, “Mate & Morra”, “Eu Matei o Júnior”. O pique é quebrado apenas pela bossa ácida que antecede o fim, “Tudo”, com mais trava-línguas em duplos e múltiplos sentidos: “Meu corpo no seu/ seu corpo no mel/ meu corpo no céu/ seu corpo nu/ lou/ cu”. Ao fim do fim, em “Quem Soul Eu”, a figura que se escondia entre sombras e flashes de luz apresenta-se, afinal, em agudas provocações finais (inclusive ao catolicismo que ainda a persegue): “Muito prazer, eu sou a nova Eva/ filha das travas, obra das trevas/ (…) eu quebrei a costela de Adão”. Linn da Quebrada não veio ao mundo para facilitar caminhos para o coro dos contentes.

"Trava Línguas" (2021), de Linn da Quebrada

Trava LínguasDe Linn da Quebrada. Natura Musical, 2021.

 

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