O poeta suíço Blaise Cendrars, que viajou pelo Brasil em 1924 a convite de Oswald

Carregando uma mala de 57 quilos contendo três camisas, seis pijamas, um pacote com ninharias para entregar a uma mulher no Rio de Janeiro, dois pares de sapatos, dois ternos e dois sobretudos, entre outras coisinhas, o poeta suíço Blaise Cendrars desembarcou em fevereiro de 1924 do vapor La Formose no porto de Santos, em São Paulo. Uma voz perguntou do cais: “Por acaso o senhor Blaise Cendrars encontra-se a bordo?”, e ao ouvir a resposta, 12 chapéus modernistas se ergueram efusivamente para saudá-lo.

Oswald de Andrade e Paulo Prado chefiavam aquela comitiva de boas-vindas, eles que tinham articulado o “sequestro” do poeta que estava vivendo um período de entressafra em Paris, amuado após uma experiência de cinema mal-sucedida com o amigo Abel Gance. Nos meses que se seguiram (seis meses, que Cendrars computou como nove), essa aventura mudaria substancialmente a poesia modernista que o Brasil faria a partir dali, assim como mudaria para sempre a escrita de Cendrars. Ele publicou suas anotações de viagem marítima (que incluíam outras paragens) em um livro, Diário de Bordo (Feuilles de Route, lançado em dezembro de 1924 com uma reprodução da tela A Negra, de Tarsila do Amaral, na capa).

Resgatada agora pela Editora 34, a garrafa de náufrago de Cendrars nos traz muito mais coisas em sua bagagem além das utilidades: o livro contém inéditos e reorganiza os textos que Cendrars publicou sobre sua experiência brasileira em revistas, catálogos, artigos e outros livros posteriores. Amigo de Modigliani, Chagall, Léger, autor de libreto de balé de Darius Milhaud, testemunha atuante da revolução russa (vivia em Moscou em 1907), ex-combatente da Legião Estrangeira, o poeta Cendrars era a própria essência do modernismo: seus poemas eram imagéticos, a linguagem rápida e coloquial, o flerte com a cultura da oralidade era radical, os flashes atordoantes e a ironia e o sarcasmo, ultrafinos.

Frente a um País em construção, coalhado de contradições, Cendrars sofisticou ainda mais sua capacidade de observação. Ele imediatamente desconfiou que não devia levar demasiadamente a sério a capacidade (e a real disposição) da autocrítica nacional. “Já não escuto todas as belas histórias que me contam sobre o futuro o passado o presente do Brasil”, escreveu, no poema Ignorância.

É curiosa essa literatura de viagem em forma de poesia. Primeiro, porque se desvencilha resolutamente das supostas regras da objetividade. Claro, Cendrars se deixa levar pelas problemáticas da Nação que se dá a conhecer, mas não compartilha os mesmos juízos de seus anfitriões. Comenta sobre a ambição metropolitana de São Paulo, os dissabores do Rio, mas não condena as coisas da mesma forma apressada que os brasileiros. “Outros lamentam unanimemente a construção de um grande hotel moderno alto e quadrado que desfigura a baía (o hotel é muito bonito)/Outros ainda protestam veementemente contra o arrasamento de um morro”, ele narra, no poema Rio de Janeiro. Não cita nomes, mas refere-se ao Copacabana Palace e ao Morro do Castelo, cujas construção e desconstrução eram objeto de debate nacional àquela altura.

“Já fazia dias que eu intrigava enormemente meus companheiros de mesa/Eles se perguntavam quem afinal eu podia ser/Eu falava de bacteriologia com a sumidade mundial/De mulheres e boates com o comandante/De teorias kantianas sobre a paz com o adido em Haia/De assuntos de frete com o cônsul inglês/De Paris cinema música bancos vitalismo aviação/Hoje à noite à mesa quando eu lhe fazia um elogio/a mulher da sumidade mundial disse/É verdade que o senhor é poeta/Patratas!/Ela ficou sabendo da mulher do jóquei que está na segunda classe”.

Demascarado, o poeta desce dos salões dos navios, onde é tratado como rei, para revelar aos poetas modernistas brasileiros aquilo que estava bem defronte dos seus narizes: a pulsão da língua nova e da realidade crua, elementos que era preciso incorporar à poesia do agora. “Os erros de ortografia e as gralhas me deixam feliz da vida”, escreveu o suíço.

“Pirituba/É uma passagem de nível/Desfila um trem exclusivamente de vagões brancos/com a seguinte inscrição/Sorocaba Sorocaba Sorocaba Sorocaba Sorocaba/Passado o trem há uma cabaninha de taipa/E na soleira/Uma mulher grávida com amarelão carcomida/Dois moleques/E um cachorro baixinho de longos pelos acastanhados/O cachorro é típico me diz o meu amigo quando você viajar/pelo interior vai ver milhares de cabanas semelhantes/e sempre um cão parecido diante da porta isso/quando há uma porta/E esse cachorro não tem raça”.

Sua poesia tem um toque de jornalismo e sociologia fascinante. Contém também as teorias e as novas interpretações fixadas pelos revolucionários. “Sem outra preocupação além de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais valia”, escreve Cendrars sobre  São Paulo, usando trivialmente o termo cunhado por Proudhon e celebrizado por Karl Marx, “mais valia” (plus-value), para descrever a exploração do trabalho.

“Tinham me dito/Cendrars não vá a São Paulo/É um cidade medonha é uma cidade de italianos é uma cidade de bondes e poeira/Mas é a única cidade do mundo em que os italianos já não parecem italianos/Não sei o que os paulistas fizeram mas moldaram a massa/dos italianos e sobretudo das italianas que aqui são/brava gente a italiana quase aprendeu a se vestir/E isso não é para qualquer um”.

Cendrars também se mostrava ora escandalizado, ora maravilhado pela forma como os negros se inseriam dentro da sociedade brasileira. Trinta e seis anos após a abolição da escravatura, a submissão da população negra era o mais marcante traço da personalidade social do País. A pintura de Tarsila na capa do “diário” não é por acaso. Cendrars observa as várias amas de leite a bordo de um navio, “as secas e as não secas”, como ironiza. “Uma criança de peito se inclina e faz jorrar um grande seio de negra abundante e maleável como uma penca de bananas”.

“Só as babás têm vontade de dançar metidas em seus belos vestidos/Convido a ama de leite negra para grande escândalo de uns e diversão de outros”, ele escreve, em Baile.

Sua veia humanista se digladia com o legado colonialista de sua origem. “Eu queria ser esse pobre negro eu queria ser esse pobre negro/que fica parado à porta/E então as belas negras seriam minhas irmãs/(…) Eu queria ser esse pobre negro e perder meu tempo”, escreve, em Café-concerto.

“No final da Avenida Higienópolis há uma rotatória/É o ponto final do bonde/Todo dia quando desço há uns negros instalados/à sombra de três grandes árvores/São pedreiros/Almoçam frugalmente e bebem água cristalina/Depois enchem os cachimbos/E tiram uma soneca de barriga para cima enquanto a esposas levam o cesto de comida envolto/num pano escrupulosamente branco”.

As descrições de Cendrars sobre a geografia e a ambiência social parecem feitas hoje, tal a argúcia. “De longe mais parece uma catedral submersa”, diz, de Fernando de Noronha. Os poemas contém um enlevo musical, familiar. “O Pão de Açúcar que os companheiros de Jean de Léry chamavam de Pote de Manteiga” lembra Caetano Veloso e seu verso “O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a baía de Guanabara, pareceu-lhe uma boca banguela” (O Estrangeiro, 1989).

É uma festa de ritmo, de cadência, de liberação de Blaise Cendrars (1887-1961) e da poesia de uma forma geral. Ele bebe pinga, come carne de tatu, adota saguis e pássaros, anda de carros-de-boi e de calhambeques Marmon conversíveis novinhos em folha.

Samuel Titan Jr. até brinca com sua tradução do livro, fazendo links diretos entre os poemas modernistas mais importantes daquela década e os poemas de Cendrars. Usa a expresssão “minhas retinas fatigadas”, do famoso poema No meio do caminho, de Carlos Drummond, publicado um ano depois do de Cendrars, em 1928, para substituir “mon oeil impérrissable”. Está em um dos textos inéditos no final do volume. Diário de Bordo é uma dos grandes lançamentos de poesia do ano, mesmo com um século de atraso.

Diário de Bordo. De Blaise Cendrars. Tradução de Samuel Titan Jr. 204 páginas. 65 reais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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