A personagem Márcia, enfermeira de subúrbio, um dos monumentos da resistência brasileira

Uma modinha de compositor anônimo que foi resgatada por Mário de Andrade no início do século passado, “Escuta, Formosa Márcia”, é o mote da nova graphic novel do quadrinista, escritor e ilustrador fluminense Marcello Quintanilha. Graphic novel, ou romance gráfico, nunca foi um termo tão preciso como nas obras de Marcello Quintanilha, mas certamente também não há, no momento, um Brasil tão profundamente esquadrinhado em suas contradições quanto nos trabalhos desse artista.

Quintanilha ilustra a sensação claustrofóbica de viver no Brasil contemporâneo. Ele mostra o tempo todo a arapuca em que nos metemos por meio de um senso de observação visual notável: desde a tentativa da pessoa comum de se relacionar com o telemarketing, passando pela loteria que é esperar um atendimento razoável dos serviços públicos, do poder público, o cerco do crime organizado aos filhos e amigos, a impossibilidade de se sonhar um relacionamento desinteressado marcado pelo carinho e a reciprocidade.

“Escuta, Formosa Márcia” tem como heróina (havia também muito tempo que o termo heroína não era tão bem aplicado a uma personagem) a enfermeira Márcia, que trabalha num hospital do SUS em algum subúrbio do Rio. Às voltas com as dificuldades da profissão, da vida doméstica, ela mantém um elevado senso ético que parece boiar acima de uma inundação de picaretagens, de barbeiragens e brutais informalidades. Mãe solteira, ao mesmo tempo em que tenta encaminhar a filha Jéssica nos caminhos da legalidade, ela busca solidificar uma relação afetiva com Aluísio, um trabalhador típico também dos tempos atuais: alienado e impassível, uma vítima perfeita da ação predatória do Estado.

Como se fosse um Aldir Blanc da prancheta (Aldir o chamou de “O Rossellini tupiniquim”), Marcello Quintanilha gesta aquilo que é um dos mais vigorosos (e cheios de ginga) retratos da condição nacional, fazendo essa representação a partir da visão de baixo, dos oprimidos, dos massacrados, dos sitiados, dos humilhados e ofendidos, como diria Belchior pela via de Dostoiévski. “Escuta, Formosa Márcia” ilustra como um País, esquecido pelo Estado, massacrado pelas elites, acossado pelo crime, se vira para continuar vivendo, seguir sonhando, manter-se limpo.

Autor dos premiados álbuns “Tungstênio” (2014, vencedor do grande prêmio do festival de Angoulême, na França, e do Rudolph Dirks, na Alemanha), “Talco de Vidro” (2015), “Hinário Nacional” (Prêmio Jabuti de 2016), “Todos os Santos” (2018) , “Luzes de Niterói” (2019) e do romance “Deserama” (2020), Marcello Quintanilha nasceu em Niterói em 1971 e vive em Barcelona há décadas. “Tungstênio” virou filme pelas mãos do cineasta Heitor Dhalia.

A letra da modinha imperial “Escuta, Formosa Márcia”, publicada em 1930, tinha uma única estrofe:

“Eu nem suspirar sabia
Antes de te conhecer
Mas depois que vi teus olhos
Sei suspirar, sei morrer”

Escuta, Formosa Márcia. De Marcello Quintanilha. Veneta Editora, 128 páginas, 100 reais
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