pois então. o pretexto e razão principal de ser era uma manifestação homossexual, ou melhor, em prol da diversidade sexual. mas, como já acontecera no ano passado, vimos no domingo que passou a avenida paulista e a avenida da consolação e a praça roosevelt e a praça da república serem tomadas por uma manifestação gigante de minorias, fossem essas as minorias que fossem, por gigantescas minorias que fossem.
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minoritário(a)s gays, lésbicas, simpatizantes, bissexuais, transgêneros, transexuais, travestis, hermafroditas, assexuados, sádicos, masoquistas, mulheres, garçons, empregadas domésticas, gordos, magros, pálidos, ruivos, amarelos, índios, negros, pardos, quase-brancos, orientais de todos os orientes, judeus, europeus, prostituta(o)s, “feios”, punks, casais, idosos, crianças, deficientes físicos & mentais, reacionários, social-democratas, socialistas, comunistas, anarquistas, românticos, anti-românticos, artistas, sem-teto, ambulantes, operários, pobres, quase-pobres, quase-ricos, contraventores, ricos esclarecidos, “fashionistas”, eletrônicos, emepebistas, quantas mais variedades de minorias de quantos sexos sua criatividade puder imaginar – todas estavam ali representadas, se expressando conforme achassem que deviam se expressar. alcançavam a casa dos milhões, experimente refazer o cálculo.
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minoritários? hãhã.
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essa gente toda que estava ali reunida (tenho o orgulho de dizer que eu era um deles!!!) configurava, se pudermos refazer os nexos, aquilo que antigamente se chamava de “povo”. e já que na noite anterior eu havia reassistido, pela enésima vez, ao filme “terra em transe”, de glauber rocha, foi inevitável relacionar esse “povo” que estava na rua com o “povo” de “terra em transe”, alegorizado num só pobre homem que tenta se expressar e é calado pela mão viril, máscula, loura e pesada do personagem de jardel filho. jardel no filme é paulo martins, alter-ego de glauber em-si-propriamente-dito – o poeta, o intelectual, o conspirador político, o homem que com sua empáfia, insegurança, arrogância e ignorância vem calar a boca sagazmente inteligente (e massacrada) do “povo” – para deitar falação em nome do “povo”.
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pois, na parada gay de 2005, paulo martins era personagem 100% desfocado, desnecessário, irrisório, anacrônico. 2005 não era mais terra em transe, era terra em trânsito, em movimento, em saudável balbúrdia. o “povo” agora já sabia falar sozinho, e paulo martins tinha de se resignar em tapar a própria boca – na boca do “povo” ninguém encostava mais.
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o filósofo peter pál pelbart, no “estado de são paulo” do próprio domingo, tomava os exemplos da parada evangélica e da parada gay para refletir sobre o percurso para cima entre a “massa” e a “multidão” e para explicar, de quebra, essa dissolução da figura do herói que se processa na ponta de nossos narizes. tal dissolução é a mesma que glauber já denunciava, em negativo niilista, no velho 1967 (e que eu, cego, anuviado e desinformado, teimava em nunca entender). o texto é maravilhoso, embora leve o título inadequado de “entre a marcha e a parada, a multidão quer dar o recado” (em jornalismo, muitas vezes o próprio autor do texto não pode ou não quer titulá-lo, e então tome nonsense e insensatez). é um oásis no meio do festival de preconceitos e grosserias que vigorou, como de hábito, na cobertura da parada pela mídia.
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(eu arriscaria dizer, pelo pouquíssimo que pude ver, que outro oásis foi a tv globo, que em seu “sp tv” exibia laura finocchiaro, militantes políticos & homens bonitos passeando de mãos dadas, e assim cometia a improbabilidade de se colocar à esquerda de “folha” e “estado”, de pt e psdb.)
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fora desses oásis, a imensa multidão (e não “povo” ou “massa”, esses amorfos em que pelbart não acredita) que se manifestou na rua teve de enfrentar as marteladas habituais dos superegos da nação, tudo naquele mesmo domingo. na “folha”, uma reportagem repugnante expunha “gays” “famosos” (emanoel araújo, ocimar versolato, sig bergamin etc.) que davam suas razões para não irem à parada gay (porque é “caricata”, “grotesca”, “palhaçada”, “oba-oba”, “carnaval fora de época” & outros disparates desses quilates). em entrevista ao “estado”, o escritor (gay, segundo explicitava o texto perspicaz) marcelino freire também destilava homofobias, fazendo contorcionismo verbal para dar sentido ao que não faz sentido, nem nunca fará (não por acaso, a entrevista se chamava “o direito de ficar parado”). para marcelino, a “parada” é “alegria falsa”, “festa”, “auê”, tentativa que não repercute nos outros 364 tristes dias.
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hãhã. e ficar parado sentado vendo a banda passar, repercute?
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eu lia aquilo tudo e até tentava encontrar um lado legal – pelo menos eu via pela primeira vez vários “intelectuais” e “celebridades” sendo caracterizados como “gays”. mesmo se à revelia (“aliás, eu nem sou mais gay, eu sou outra coisa que não sei o que é”, desafirmava o emanoel), não deixava de ser uma saída auspiciosa do armário. assim expostos em suas fragilidades de homofobias internalizadas, eles acabavam sendo esclarecedores, educativos pelo avesso. mas, ora bolas, por que é que eu tenho que ficar ouvindo tanto desaforo justamente no dia em que vou sair à rua para me manifestar? por que se tolera tanto a figura do “estraga-prazeres”? por que cada um não guarda suas fobias para si, por que não permitem liberdade a quem escolheu sair à rua?
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ah, e mais tarde vinha a “denúncia”, “revelada” pelo instituto de pesquisa em forma de reportagem não assinada: 46% dos presentes na parada gay se diziam heterossexuais!!! uma fraude, será? não, meus queridos desnorteados, ainda bem que o coordenador político da parada gay, nelson matias pereira, aparecia logo abaixo para tirar o desaprumo da reportagem em transe e devolver o bom senso ao baticum em trânsito: “a presença dessas pessoas de vanguarda é uma resposta de aceitação e tolerância pela diversidade sexual. mostra que nem todo mundo quer viver numa sociedade excludente, que impõe ataduras e limites à sexualidade”. bravo, sr. coordenador!, muchas gracias, srs. heterossexuais!
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licença, vou “trocar” de assunto por um minuto.
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o que mais ouço falar por estes dias é que o disco do f.ur.t.o., de marcelo yuka (um pardo carioca que carregará vida afora as seqüelas de ter levado um monte de tiros numa cena “cotidiana” de violência urbana), tem “letras panfletárias”. ai, minha santa paciência. por que é que nos outros 364 dias do ano não ouço falarem que, fora o yuka, uns rappers e uns funkeiros, todo mundo na mpb, de kelly key a gal costa, passa o tempo todo cantando “letras alienadas”?
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parafraseando o lobão, e os argumentos contidos nas letras “panfletárias” do yuka, ninguém vai comentar, não? reclamam do panfleto e saem pela tangente, ao largo do argumento? ninguém vai comentar a “ego city” “imaginada” por yuka, onde vicejam “carros à prova de bala, com vidros à prova de gente, cor fumê da indiferença”? alô, barra da tijuca! alô, morumbi! daslu não é terra em trânsito, daslu é terra arrasada, estéril, estagnada. o pântano brotoeja, enquanto yukas panfletam em ouvidos paralisados, ó, meu brasil.
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licencinha, vou “trocar” de assunto de novo, mais um minuto.
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também andei vendo por esses dias o filme “a vida marinha com steve zissou”, do hollywoodiano do bem wes anderson. saí do cinema sem entender muito os propósitos do filme, sem saber direito se tinha gostado ou não. logo depois descobri que gostei, e muito. todo aquele pretenso nonsense me pareceu um antídoto delicioso e apropriado contra o etnocentrismo raivoso do (multicriativo) quentin tarantino. alguém precisava dizer que “kill bill”, apesar de fascinante (ai, tão fascinante assim, será?), é 100% agressivo, violento, etnocêntrico, fascista, nojento. e wes anderson faz isso, com luvas de pelica, como um glauber pós-hollywoodiano.
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“kill bill” só existe para exibir o genocídio estilizados de japoneses, indianos, árabes e orientais em geral, de mexicanos, cubanos, brasileiros e latino-americanos em geral. é o pânico ariano dos norte-americanos revertido em ódio estéril contra o resto do mundo.
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em “vida marinha”, o exército de piratas que ataca o oceanógrafo picareta norte-americano falido steve zissou (bill murray) também é asiático, oriental, tem olhos puxadinhos. mas isso é só cortina de fumaça, porque há outro exército inimigo, e esse é feito única e exclusivamente de loiros sarados (e gays, insinua ambiguamente o filme). mais que isso, a trupe de adoráveis desajustados que secunda zissou parece saída em mutirão de um filme de glauber rocha, rumo à avenida paulista em dia de parada – tem indiano, tem preto brasileiro (seu jorge, que passa o filme todo pretejando em português a música ariana de david bowie), tem japonês, tem artista pop, tem economista, tem autista (willem dafoe, hilariante), tem até alemão!! a banheira pop de zissou é multiétnica, é um basta ao genocídio, é um deboche audaz ao (apaixonante) tubarão-jaguar que ilumina o final do filme.
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pronto, deixa eu “voltar” ao assunto original.
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pelos sites, ao longo da semana, eu encontrava chamadas do tipo “veja fotos das celebridades que passaram pela parada”. procurava e não encontrava quase celebridade nenhuma – o mais “famoso” parecia ser um eduardo suplicy travestido de bob dylan (ai, minha santa paciência, quem ainda agüenta as exibições de “vítima” de eduardo suplicy, hein? quem ainda precisa de “vítimas” prontas para a crucifixão, hein?). eu sentia falta das celebridades, cadê? cadê os cantores brasileiros, as cantoras brasileiras, os atores e atrizes da tv globo, essas imensas minorias de famosos humilhados pela frieza do “sistema”, pela futilidade de “caras”, pelo calor do “povo”, pelo amor doentio dos “fãs”? deviam estar na janela feito carolinas, junto a sig, a ocimar, a emanuel, a marcelino, a outros ícones de nomes esquisitos.
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e então glauber me reapareceu à frente, surgiu-me à mente novamente, onvenientemente contaminado agora pelos flashes recentes de mst, de marcha evangélica, de protestos antitabagistas, de música de f.ur.t.o., de cinema pop de wes anderson, de todo esse biênio-curva de 2004/2005. já não era importante que os condutores do rebanho estivessem ausentes. porque os astros, estrelas & porta-vozes daquela parada éramos nós mesmos, alegorizados quando muito no arco-íris de dança warholiana da lacraia do mc serginho e no colorido do rebolado másculo do bonde do tigrão, que causavam catarse na multidão multicor ao redor do carro da loca. 38 anos depois, glauber rocha estava certo (mesmo que precisasse demolir a cultura de seu país e depois se autodestruir para ajudar a profetizar esse luminoso futuro): não precisávamos mais de heróis.
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e eu, pertencente às minorias dos pálidos quase-brancos, dos jornalistas, dos pseudo-intelectuais, dos homens, dos gays, dos paranaenses apaulistanados etc. etc. etc., pensei nos heróis que ainda cultivo, sobretudo no meu predileto entre todos eles:
luiz inácio lula da silva. e ensaiei entender um conceito que não assimilara quando o ouvi das bocas de ivana bentes e hélio santos, acerca da irrelevância da política no brasil de hoje em dia. se estamos quase a não precisar mais de heróis, talvez dentro em breve nem de líderes políticos precisemos mais – os heróis, na curva-bumerangue de 1967/68 a 2004/05, seremos nós mesmos, todos nós, nenhum de nós. porque, segundo ensina a multidão solta na praça, no parque & na internet, nós não precisamos mais de heróis.
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[agora dá licença, que eu vou pra maringá.]

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