fui participar da festa de segundo aniversário do meu sobrinho-neto (!!!!?!), um adorável e simpaticíssimo garotinho loiro de olhos azuis e sorriso aberto chamado caio, que dominou minhas atenções e emoções neste fim-de-semana em maringá, paraná, brasil, américa latina, hemisfério sul, planeta terra.

mas, estando lá, nada me surpreendeu tanto na novo-velha maringá (cidade colonizada por uma companhia inglesa de exploração, povoada por legiões de europeus e seus descendentes, tornada município em 1951 e beirando hoje 300 mil habitantes) quanto uma pichação que vi no meio da praça central, pertinho da catedral, quase ao lado da banca de jornais do meu primo robes. em meio a vários outros rabiscos em tintas pretas de pixe, lá está um escrito assim: “movimento negro para todos“.

depois vou tentar raciocinar melhor sobre isso, mas a proposição me parece de uma sofisticação quase incompreensível. cresci acostumado ao fato de que nasci e morava numa cidade branca, pseudo-européia, do sul do brasil. durante o pouco tempo que passei lá nestes últimos dias, antes mesmo de topar no pixe escondido-exposto na praça, já havia notado como há um contingente gigantesco de negros e (principalmente) mestiços ganhando as ruas de maringá. pode ser que eles tenham aparecido de repente, mas suspeito que já estavam lá, desde sempre – eu é que, cego e burro como só consegue ser quem pertence às supostas classes “superiores” (na escala econômica que começa na favela, eu quero dizer), não conseguia vê-los (é a tal invisibilidade, de que tantos tanto têm falado ultimamente).

mas o que interessa mesmo é a inscrição, “movimento negro para todos“. isso é muito, muito, muito rebuscado, e foi produzido numa cidade que eu, na minha cegueira, supunha cega à realidade racial brasileira. pois maringá tá dentro, mano. e, inteligente como o mais empolado nariz da elite intelectual nunca consegue ser, já se tocou que o movimento negro não é para os negros – é para todos. para todos que forem brasileiros. para todos que tiverem a audácia e a coragem de assumir de que cor é a nossa nação – e essa cor, preciso dizer?, não é predominantemente branca.

enquanto as elites fundadas nas capitanias hereditárias estiverem embaçando os olhos da nação com mais um escândalo branco, eu quero me unir aos maringaenses e proclamar: movimento negro para todos. eu tô nessa, porque, sendo brasileiro (com muito orgulho), eu sou um pouco preto também (com muito orgulho também).

por isso é que a cronologia veio bonitinha a calhar, hoje. esta foi publicada na “carta capital” número 342, do dia 13 de maio de 2005, por quase-coincidência o mesmo dia e mês em que foi decretada no brasil a abolição da escravatura (que, se você não notou ainda, até hoje não foi consumada, neste país de práticas absolutamente racistas em que continuamos a viver).

[aliás, em 1888 o brasil se tornou o último país do mundo a abolir a escravidão, lhe parece crível isso??!?? aqui, neste país “cordial“, a abolição foi decretada há 117 anos. e não há 113, como nos “contou” outro dia um importante jornal de circulação nacional. quem conta um conto diminui quatro pontos?]

a reportagem (ê! também sei fazer reportagem!) “um quilombo do século xxi“, que vem reproduzida abaixo, é a contribuição que consegui dar neste momento para ser um pouco menos racista (afinal, também tenho um jeffersonzinho dentro de mim – todo mundo tem, não?), para ajudar a iluminar um brasil que tenta, à custa de ainda muita invisilibidade e de muito comportamento tacanho, se tornar menos racista, mais justo, mais iluminado. é, até aqui, o trabalho que mais me causa orgulho nestes menos de cinco meses de participação na “carta capital”. rufam meus tambores internos.

{ah, e uma errata em tempo: no texto, chamo a escola de sociologia e política de escola de sociologia política. até o fernando henrique cardoso estudou lá, mas nem assim eu aprendi o nome certo…)

UM QUILOMBO DO SÉCULO XXI

Por Pedro Alexandre Sanches

Há um quilombo plantado no coração de São Paulo, em pleno ano de 2005. O apelido de “quilombo” é recorrente na fala de sua população flutuante, que compreende estudantes, professores, músicos, historiadoras, dançarinos, psicólogas, bancários, rappers, sambistas, faxineiras, porteiros, advogadas, administradores etc. etc. etc.

O quilombo, situado nas proximidades da Estação da Luz, nasceu batizado Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares. O projeto dos quilombolas é de transformá-lo de fato numa universidade, mas por enquanto o que existe é a Faculdade de Administração Zumbi dos Palmares (FAZP), reconhecida pelo Ministério de Educação (MEC) e em pleno funcionamento desde o início de 2004.

Descrita com grau equivalente de orgulho seja por reitor, professores, alunos ou funcionários como a primeira faculdade do Brasil que visa a inclusão do negro no ensino superior, a FAZP adota política de cotas, destinando ao menos 50% de suas vagas a alunos que se autodeclarem negros. Na prática, no entanto, a demografia revela que 82% dos quase 600 alunos hoje matriculados são negros, que têm afluído à nova escola de modo aparentemente espontâneo.

O recorte sócio-econômico se soma ao racial para justificar a predominância. Todos os alunos que pagam suas mensalidades em dia recebem bolsa de 50% do valor cheio de R$ 520. Estudam administração (optando entre quatro habilitações diferentes), recebem aulas básicas que enfatizam temas como cultura, sociologia, direito, filosofia e ética e têm apoio extracurricular em português, matemática, informática e inglês (oferecido, em parceria, pela escola Alumni) por um preço de R$ 260, bem abaixo do valor médio de mercado do ensino superior particular no país.

Pelo que a CartaCapital pôde constatar em dois dias de visita à escola, o termo “cidadania” que compõe seu nome não é mera retórica. Flutuaram durante uma aula presenciada pela reportagem temas e conceitos tão diversos quanto taxa Selic, liderança, democracia, manipulação, mercado, samba-rock, polícia militar, congresso estudantil, ego, status, vaidade, auto-estima, submissão, liberdade, hierarquia, religião, homossexualidade, conservadorismo, aborto, relação patrão-empregado, sindicalismo etc.

– Por exemplo, alguém pode sair de um sindicato e virar presidente de um país? – pergunta o professor, a certa altura.

– Agora pode – responde uma aluna, em tom zombeteiro.

– Mas não sem se vender – atalha outro estudante.

– Mas, espera lá, um presidente tem que administrar para um país ou só para o seu partido? – intervém o professor, tentando reassumir o controle e suavizar o humor crítico da sala.

– Para o país! – respondem vários alunos, em coro.

– Mas para o Brasil, não para os Estados Unidos – replica um terceiro jovem, abrindo nova rodada crítica.

Os assuntos deslizam de modo aparente caótico, no tom energético ditado pelo professor (e coordenador de curso), José Roberto Avelino de Souza. Gerente do banco Nossa Caixa das 7h às 18h, ele coordena todas as noites um corpo docente de 15 professores, todos atuando em troca de salários baixos e se revezando entre seus empregos e a atuação quase voluntária na escola.

“Não sou um professor, sou um mero bancário. Estou me educando junto com eles. Meu sonho é me preparar para um dia sair do banco e me tornar um professor de fato”, relata Souza.

Ele espelha a diversidade em vigor no corpo de professores, que inclui negros e brancos, recém-formados e portadores de PhD, o bancário Souza e a historiadora e pesquisadora da Companhia da Engenharia de Tráfego (CET) Silvana de Andrade Barbaric, mãe de um bebê de três meses.

A advogada negra Cristiane Linhares fala da experiência de ministrar aulas na FAZP: “Antes eu não me importava com quem é branco ou negro. Estou tendo que mudar alguns conceitos meus. Ganho tão pouco que nem sei quanto é, mas quero continuar”.

A diretora da escola é Cristina Jorge, egressa, como o reitor, da Escola de Sociologia Política de São Paulo. “Eu dava aulas em universidade particular, mas trabalhando aqui, com esses jovens, me sinto uma educadora, não uma assalariada da educação”, ela explica.

Loura de olhos azuis, Cristina diz que não se sente discriminada na escola por isso. Mas relata episódio de quase-conflito: “Uma aluna que milita no movimento negro me procurou dizendo que tinha dificuldade em dizer lá que a diretora de sua escola era branca. Respondi que ela não precisava falar minha cor”.

Se por um lado a FAZP tem professor-bancário, por outro tem também aluno que há poucos dias se apresentou como artista de destaque na Rede Globo, como participante do especial de 40 anos da emissora e como convidado do Domingão do Faustão. Trata-se de Rappin’ Hood, um dos mais importantes rappers do país, que freqüenta aulas, entre um show e outro, com a motivação de aprender a administrar sua própria carreira.

Rappin’ conta que o reitor, “parceiro sangue bom”, já o ajudou em pessoa quando seu carro pifou na saída da aula e contesta que a FAZP se constitua num novo gueto, quiçá numa iniciativa racista às avessas: “Existe entidade nipônica, hispânica e itálica e ninguém acha que é racismo. Só quando a negrada se une é que falam que é racismo?”.

Diz o autor do rap Sou Negrão: “Fiz um ano e meio de educação física numa escola particular, mas parei por falta de dinheiro. Na Zumbi fico feliz de encontrar pessoas como eu. Não é faculdade de patricinha e mauricinho. São pessoas como eu, que vieram do mesmo lugar que eu”.

Sua história se repete na fala de cerca de 20 alunos entrevistados pela reportagem em meio a uma reunião que discutia a realização de uma festa para comemorar os 117 anos da abolição da escravatura no Brasil, na sexta-feira 13. A maioria relata ter abandonado cursos de faculdades privadas por dificuldades econômicas e/ou de adaptação a universos de esmagadora maioria branca. Eis alguns depoimentos.

Fabiana Andrade, 22 anos: “Fiz vestibular na Anhembi, passei. Mas não fui fazer matrícula, custava R$ 700. Agora estou aqui, sou estagiária do Itaú, estou abrindo muito a minha mente”.

Edmilson Nascimento, 30 anos: “Estudava ciências da computação, mas odiava a faculdade. Tiravam dinheiro da pessoa, enchiam de aluno, não ensinavam nada. O problema é que era uma escola de playboys, e eu não suporto playboy. Administração não é meu sonho de curso, mas vim pelo projeto”.

Thiago da Conceição, 19 anos: “Fui contemplado com um curso de extensão na USP, e era o único negro. Me sentia estranho, me perguntava por que não havia outros. Depois tentei vestibular na Faap, não fui aprovado e fiquei muito deprimido”.

Haroldo Nascimento, 21 anos: “O que mais gosto é da consciência das pessoas que estudam aqui. Fiz dois anos de fisioterapia numa particular, no curso não existiam negros além de mim. Essa segregação me deixava profundamente triste”.

Luiz Henrique Ferreira, 28: “Sou de uma época em que a grande maioria das crianças negras parava de estudar para trabalhar e ia formar uma gama de fracassados. Eu não pensava em fazer curso superior, jamais iria me prestar ao papel de ser hostilizado. O hip-hop foi meu trampolim, por ele adentrei na causa negra”.

Edson Basílio, 29 anos: “Fiz Fatec, mas não tinha com quem conversar. O negro na sociedade é invisível. Aqui é um mirante, daqui a gente consegue enxergar longe”.

Único branco participando da reunião, Peterson Dias, 19 anos, fala de sua situação minoritária: “Me sinto em casa, sou tratado de igual para igual. Mesmo sendo branco, tenho consciência. Não é por ser branco na pele que eu sou do outro lado”, diz.

Também excêntrico no grupo é João Bosco Coelho, 47 anos, tratado como voz da experiência pelos colegas. Militante do movimento negro há 20 anos, ele soube da FAZP por uma entrevista do reitor à TV Assembléia e resolveu voltar à escola e retomar a administração, que no passado abandonara no quarto ano.

Coelho fala de um dos efeitos principais da retomada: “Quando passei no vestibular, tirei xerox da lista de aprovados e espalhei pela casa. Mandava por correio para minhas filhas, que não queriam saber de faculdade. Agora as duas estão estudando, e minha esposa disse que se abrir curso de direito aqui ela vem também”.

Aperto financeiro não é exclusividade dos alunos. A jovem escola é mantida exclusivamente pela receita das mensalidades, segundo afirma seu diretor administrativo, Lúcio Oliveira, que menciona também as receitas do cursinho pré-vestibular da FAZP, que reúne hoje 435 alunos matriculados por R$ 50 de mensalidade.

“Essa receita é suficiente em termos. Operamos ainda com déficit nesse início, apertados numa administração absolutamente enxuta”, descreve Oliveira, branco casado com uma descendente de japoneses que fora colega no curso de direito de José Vicente, 45 anos, que hoje acumula as funções de reitor da faculdade e presidente da organização não-governamental Afrobras, dentro de onde prosperou o sonho da faculdade (leia mais sobre Vicente no quadro à pág. 14).

A cota de 50% de vagas para negros instituída pela FAZP contrasta com dados estatísticos gerais do Brasil: segundo o IBGE, em 2003 o país possuía 5,9% de negros em sua população. Somados aos brasileiros pardos, no entanto, essa proporção subiria a 47,3%, ante 52,1% de brancos.

Outro contraste se estabelece na comparação entre esses percentuais e os que provêm do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao MEC: em 2003, os negros ocupavam 3,6% das vagas nas universidades – somados à população parda, chegavam a 24,1%, contra 72,9% de brancos ocupando os bancos do ensino superior.

No espelho invertido entre os 72,9% de brancos na universidade brasileira e os 82% de negros no micro-exemplo da nova Palmares, ouve-se o apito abafado de uma panela de pressão mantida quase sempre em silêncio pela maioria da sociedade.

Professor, doutor em administração, militante negro e autor do indignado livro Em Busca de um Caminho para o Brasil – A Trilha do Círculo Vicioso (Senac, 2001, tema de capa da CartaCapital nº 216), Helio Santos defende a legitimidade de uma escola como a FAZP:

“A Howard existe nos Estados Unidos desde 1855, 23 anos antes da Lei Áurea brasileira. Aqui, a FGV, o ITA e a FAAP são instituições brancas, e ninguém acha que são brancas, nem elas recebem esse rótulo. Eu queria que as outras escolas tivessem 18% de negros como a FAZP tem de brancos, mas nem isso elas têm”.

Ele avalia que a FAZP não simboliza o estabelecimento de novos guetos: “Os guetos já existem. É só ir às favelas, ou aos bons guetos. Há guetos de brancos, como o Itamaraty, as empresas, os clubes, e ninguém os contesta”.

Doutoranda em sociologia em Nova York e estudiosa de categorias raciais e da questão das cotas, a cientista social branca Lilia Tavolaro é uma que diz ver com reservas o que chama de “discurso anti-racista diferencialista”, que bipolariza a questão entre brancos e negros, seja pelo lado da “elite acuada, racista, que não quer abrir mão de nada” ou pelo dos que “tendem à racialização”.

“Sou crítica do conceito de raça, acho interessantes propostas que não sejam exclusivamente de recorte racial, mas também econômico. As iniciativas de inclusão têm de levar isso em consideração, brigar contra o racismo desconstruindo categorias raciais e respeitando ambigüidades e a identidade de cada um.”

“Quando a questão é colocada da forma ‘somos nós ou vocês’, a tendência é que os conflitos se acirrem, não que haja inclusão”, completa a socióloga, que saúda o discurso não exclusivista da FAZP. Helio Santos faz advertência parecida: “A FAZP não pode cometer o mesmo erro das universidades públicas brasileiras, que têm diversidade só da boca para fora. A diversidade é fundamental”.

Outro ponto de honra para ele é o da invisibilidade da população negra – usa o caso Grafite como exemplo. “Não há nada pior que a imprensa brasileira para falar de questão racial. Não se chamou um especialista negro para opinar, ninguém tratou a subjetividade do caso, ninguém abordou o fato de ele chorar 30 minutos sozinho no vestiário após ser xingado de ‘macaco’ e ‘negro filho da puta’. Do jeito que as coisas vão, ele vai acabar tendo que pedir desculpa.”

Sob o perigo da bipolarização maniqueísta, o próprio reitor da FAZP admite que se perguntou, de início, como seria possível “juntar nitroglicerina pura sem nada explodir”. “Nossa primeira apreensão era se conseguiríamos atrair os negros, que costumam cair fora de tudo que se relacione com discriminação, tristeza, sofrimento. Mas e os brancos, como iam interpretar? É racismo às avessas?”, questiona.

Ele mesmo responde, afirmando que a instituição jamais se descreve como uma “escola para negros” e busca a mistura e a sinergia de “negros de todas as cores”. Helio Santos o auxilia na contestação à tese do racismo às avessas: “É preciso ter poder para praticar racismo. Quantas empresas eu tenho para discriminar um jornalista ou uma atriz de novela por sua cor, ou para provar que os brancos são ruins?”.

A FAZP é formada majoritariamente por jovens entre 21 e 24 anos (são 28,4% do total), oriundos das regiões Leste (29,3%) e Norte (26,8%) de São Paulo, educados em escola pública (81,6%), com renda individual entre dois e quatro salários mínimos (44,1%), que trabalham durante o dia (81,8%) e ajudam a sustentar a família (48,1%). Eis mais alguns depoimentos de alunos.

Lilian Suares, 22 anos: “Quando soube da Zumbi eu não queria vir, por causa do nome, que me lembrava de escravo, de coisa antiga. No começo, se alguém perguntava onde eu estudava eu dizia ‘numa faculdade aí’. Mas minha cabeça mudou, eu não tinha idéia da importância de lutar pelos meus direitos”.

Gessica Mendonça, 24 anos: “Entrei aqui e conheci essas figuras que me ensinaram o que é ser preto, o que é ser mulher. Antes eu era contra as cotas, para mim é muito difícil aceitar o que vem do lado de lá. Mas mudei de idéia depois de ir a um congresso de estudantes, vi que também sou cotista e não tinha noção disso”.

Hélio Alexandrino, 23 anos: “Tentei emprego numa farmácia em frente ao Shopping Iguatemi, o cara me disse na cara dura que nem adiantava, porque não era bom ter uma pessoa de cor para aquela faixa de público. Foi com os Racionais MC’s que percebi de onde vinha minha dor”.

Marcos Araújo, 24 anos: “Sei que lá fora nos vêem como uma faculdade de negros, que tem gente torcendo para que haja um fracasso. A classe dominante do país torce contra nós”.

Para atender a inquietações como essas, a FAZP montou um núcleo de apoio psicológico, que conta hoje com o trabalho diletante de cinco especialistas, coordenadas pela psicóloga negra Maria Célia Malaquias, que em seu próprio consultório atende clientela predominantemente branca.

Seu núcleo é uma das atividades de extensão da FAZP, que inclui curso de dança de samba-rock (ministrado por alunos da escola, por R$ 10 ao mês) e deve abrigar em breve também um curso de cabeleiros afro. O prédio ainda sedia cursos vespertinos de instrumentos e regência orquestral para crianças, em sinergia com o Projeto Guri, e vem exibindo a mostra de vídeos Cinema Negro, com títulos como Cidade de Deus, Febre da Selva e Madame Satã.

E a população quilombola da FAZP tem também seus profissionais-satélites, como Neusa Costa, proprietária (e administradora formada) da cantina, que fica ao lado da reitoria. “O caso Grafite parou a escola, todo mundo se reuniu aqui para discutir. Fico vendo os alunos quando entram na escola e um tempo depois. A aparência muda, a auto-estima cresce, eles se sentem universitários. Discutem história, raça, coisas que nunca me interessaram. Meu sonho é ver a primeira turma formada”, diz Neusa.

“Tenho 50 anos, na minha geração não havia nada disso, não”, diz a responsável pela ainda modesta biblioteca da escola, Vera Vieira Martins, que antes de bibliotecária foi tecelã, telefonista e funcionária pública. Carlos Gottschald, branco de olhos azuis, é inspetor e faz-tudo no prédio. “Não me sinto minoria aqui. Meu genro é negro, meu netinho moreno é minha paixão”, afirma.

Ezequiel Tiago, o porteiro, é negro e diz que sente vontade de voltar a estudar. “Aqui é uma família para mim, convivo com pessoas de outras culturas, que chegam cansadas e ainda têm força para batalhar por um futuro melhor. Para mim não dá, pelos horários, mas vou incentivar meus filhos a estudarem.”

Negra também é a faxineira Cláudia, que a reportagem da CartaCapital presencia entregando a Cristina Jorge um par de brincos coloridos – é seu presente de dia das mães à diretora. Ela resiste em conceder entrevista ao repórter (branco de olhos azuis), mas acaba falando sobre voltar a estudar: “Vontade a gente tem. Um dia eu volto”. Seu nome completo, Cláudia se recusa a declarar. “Meu sobrenome eu não entrego a ninguém.”

UM EX-MATUTO
O reitor já foi bóia-fria e delegado

Autodeclarado “matuto de Marília”, órfão de pai desde 1 ano de idade, filho de mãe empregada doméstica e caçula entre sete filhos, o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares ostenta um currículo atribulado. José Vicente entrou no mercado de trabalho como bóia-fria, foi músico amador de bandas marciais da cidade e publicou poemas em jornais locais.

Demitido do biotério de uma universidade, virou policial para sobreviver e pagar um curso de direito. Formado, pediu baixa na Polícia Militar e abriu seu escritório. Paralelamente, passou a freqüentar a Escola de Sociologia Política de São Paulo, onde conviveu com “petistas de boina, sindicalistas da CUT, militantes homossexuais, índios e um pequeno grupo negro”.

Desse grupo surgiria o embrião da ONG Afrobras, fundada em 1996. E Vicente voltou ao ofício policial enquanto arquitetava a FAZP: até 2003, foi delegado do 5º Distrito Policial, na Aclimação.

No percurso, cevou apoios tão variados como o de setores da USP (que ajudaram a traçar um plano estratégico para a escola), da Escola Metodista de Piracicaba (parceira pioneira da Afrobras no projeto de bolsas Mais Negros nas Escolas) e do cantor Netinho de Paula (que disseminou a notícia da FAZP em seu programa de tevê).

Tobias da Vai-Vai, Fundo de Quintal e Negritude Jr. cederam shows para arrecadar fundos; do governo estadual de São Paulo, conseguiu-se a reforma da atual sede alugada da escola. Empresas envolvidas com responsabilidade social e políticas afirmativas, como Nestlé, Microsoft, IBM e Itaú entraram com doações de computadores, instalação de programas, oferta de estágios etc.

“Faço pressão psicológica, sempre que um grande empresário me fala sobre política de inclusão, peço que ele olhe à sua volta e me diga quantos negros está empregando.” Nesse périplo, chegou até a grandes empresários de comunicação, que, diz, “ajudaram não atrapalhando”.

Não é humilde quanto ao papel que sua jovem escola vem desempenhando: “Conseguimos criar um recorte histórico. A discussão sobre a questão negra hoje só pode ser daqui para cima. Não dá mais para falar em pandeiro, zabumba e baixo de viaduto para instalar instituição negra”.

É nesse espírito que celebra a independência de seu quilmbo: “Aqui não há mecenas nem braço político, sindical ou religioso”.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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