O Manto Tupinambá que estava em posse da Dinamarca: Conselho Tupinambá da Bahia quer criar um protocolo para ser seguido pelos eventuais tutores da peça

O povo Tupinambá de Olivença, na Bahia, reclama o cumprimento de um acordo relativo ao repatriamento do Manto Tupinambá que estava em posse do governo da Dinamarca. O Manto Tupinambá está desde a última segunda-feira, 8 de julho, no Museu Nacional do Rio, onde ficará em exposição pública, segundo nota do museu, em algumas semanas. O artefato voltou ao Brasil em definitivo, para ficar, após quase quatro séculos no Nationalmuseet de Copenhague, Dinamarca. “Após a adoção de todos os procedimentos necessários para a perfeita conservação da peça, tão importante e sagrada para nossos povos originários, apresentaremos o manto a sociedade”, informou o comunicado do Museu Nacional do Rio.

Mas, segundo o Conselho Indígena Tupinambá de Olivença (CITO), essa determinação viola um acordo que havia entre os novos tutores do manto e aquele grupo étnico. Esse acordo estabelecia uma cerimônia de recepção especial ao manto, considerado um ente sagrado do povo Tupinambá. Para a etnia, o Manto estabelece um elo espiritual com o povo Tupinambá, é parte integrante de sua aventura no Planeta, com o mesmo peso espiritual de um ancestral. Os responsáveis pelo retorno do manto foram, inicialmente, a indígena Amotara, mãe da primeira cacique do Povo Tupinambá, Jamopoty, no ano 2000 (quando o manto veio ao País para a Mostra Brasil +500, no Ibirapuera, Amotara o viu e disse: “Somos Tupinambá. Queremos o manto de volta”); mais recentemente, em 2022, a artista e ativista Célia Tupinambá entrou em contato com o manto e previu seu retorno; e, finalmente, do ponto de vista institucional, o Museu Nacional do Rio, que mediou as conversações. Mas o museu não cedeu aos pedidos dos líderes indígenas.

O manto é uma vestimenta de 1,80 metro de altura, feito com penas vermelhas da ave guará sobre uma base de fibra natural, e chegou ao Museu Nacional da Dinamarca (Nationalmuseet) em 1689. Segundo Célia Tupinambá, teria sido um presente entre reis: o soberano dinamarquês o recebeu do cacique tupinambá. Ficará agora sob guarda do Museu Nacional, destruído por um incêndio em 2018 e reconstruído nos últimos anos. O Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é a mais antiga instituição científica do Brasil, um dos maiores museus de história natural e de antropologia da América.

A nota divulgada pelo CITO na quarta-feira, 10, informou que a cacique Maria Valdelice de Jesus, a Jamopoty, teria recebido a informação, dos gestores do Museu Nacional do Rio, de que seria inviável organizar uma recepção prévia para seu povo antes da apresentação do artefato ao público. “O manto retornou para nós, mas ainda não foi recepcionado pelo nosso povo, de acordo com as tradições. Esse manto de mais de 300 anos é um ancião sagrado que carrega consigo a história e a cultura de nosso povo”, informa a nota do Conselho Tupinambá. Já o Museu Nacional diz que está trabalhando em diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas e quer fazer a primeira apresentação pública “com todo cuidado e respeito aos saberes dos povos indígenas”.

Ao FAROFAFÁ, nesta quinta-feira, 11, o Cito comunicou o seguinte:

“Estamos em um momento de preparo para a criação do Protocolo Tupinambá com diretrizes claras a serem seguidas pelas instituições que porventura forem escolhidos para alojar o manto. 

Houve um descumprimento evidente dos acordos feitos para que o Povo Tupinambá estivesse presente na recepção do manto e realizasse seus rituais para recebê-lo. 

Estamos empenhados em garantir que situações em que sejamos invisibilizados na nossa autoridade como povo pertencente ao Manto, deste sagrado ancião que precisamos defender, não se repitam. 

A resistência vem da estrutura que está posta, da estrutura que nos invisibiliza, que nos viola.

Ainda hoje, observamos essas práticas no Museu Nacional do Rio de Janeiro”.

Até 2009, o povo Tupinambá era considerado extinto no Brasil, apesar de haver aldeias com indíviduos que reinvindicavam a ancestralidade. Com a coleta de provas, documentais e genéticas, atestou-se sua sobrevivência. O último censo do IBGE contou 7 mil Tupinambá no Brasil. Atualmente, existem 10 mantos Tupinambá na Europa. Estão em Bruxelas, Basel, dois em Florença, um em Milão, outros na França. O que veio da Dinamarca é o que está em melhor estado de conservação. Eles são considerados fundamentais para que se resgatem ritos, práticas e conexões de uma população que chegou a ser totalmente invisível para a Nação. Nascida em 1982 na aldeia Tupinambá da Serra do Padeiro, em Olivença, no Sul da Bahia, Glicéria Tupinambá, a Célia, mestranda em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, reaprendeu a confeccionar o manto, tornando-se a primeira mulher a construir tal artefato em mais de 400 anos. Ela acha equivocada a tese de que todos eles foram fruto de saques ou expropriação de invasores estrangeiros. Os Tupinambá mantinham relações diplomáticas com outros reinos.

Amotara, indígena do povo Tupinambá, no reencontro com o Manto, no ano 2000, durante a Mostra do Redescobrimento. Ela foi a primeira a reivindicar seu retorno
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