Sob o codinome Los Sebosos Postizos, membros da banda pernambucana Nação Zumbi lançam tributo melancólico ao gênio Jorge Ben (Jor), com releituras de “A Tábua de Esmeralda”.

 

Este era esperado há anos: sob o pseudônimo Los Sebosos Postizos, a banda pernambucana Nação Zumbi lança, finalmente, seu álbum de tributo à obra de Jorge Ben Jor, quando o inventor carioca do samba-rock-tropicália ainda se chamava apenas Jorge Ben.

Macio e viajandão, o álbum Los Sebosos Postizos Interpretam Jorge Ben Jor participa de um movimento marcante entre os artistas pernambucanos que integraram a geração manguebit dos anos 1990. De alguns anos para cá, ficou evidente, entre eles, uma vocação para a revisão histórica de certas obras, autores e gêneros musicais brasileiros. Essa movimentação não se parece em nada, no entanto, com a avalanche de Acústicos MTV e releituras de sucessos antigos por seus próprios autores que caracterizou o ocaso da indústria fonográfica nestes anos 2000.

Os sobreviventes do mangue não têm feito um revisionismo retrô, previsível ou meramente saudosista. A Nação Zumbi, por exemplo, perverte a mitológica alegria da obra samba-rock-soul-funk etc. de Jorge e relê com melancolia reggae-dub-rock clássicos como “Quero Esquecer Você” (1963), “Frases” (1967), “O Telefone Tocou Novamente” (1970), “Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas” e “O Homem da Gravata Florida” (1974), entre outras preciosidades de Ben antes de optar definitivamente pela guitarra, em geral, e pelos discos O Bidu – Silêncio no Brooklin (1967) e A Tábua de Esmeralda (1974), em particular.

Entristecendo Jorge Ben, a Nação faz algo oposto, mas análogo, ao que China e o Mombojó fizeram (sem testemunho gravado em CD, até o momento) ao reler alegre e amorosamente a obra de Roberto Carlos, sob a alcunha Del Rey. Há projetos menos explícitos de releitura histórica, como se ouve nos dois discos do grupo Academia da Berlinda, um power grupo que compõe canções próprias sob inspiração direta e forte da chamada música cafona dos anos 1970, com foco acurado e apaixonado no pop paraense latinizado de Pinduca, Beto Barbosa e outros artistas.

Há duas setas aqui, apontando uma para a outra. Da morte do líder Chico Science (1966-1997) para cá, o manguebit parece ter se desagregado como movimento, mesmo tendo sido a grande novidade estética e política da música brasileira nos anos 1990. Em contrapartida, essa levada retrofuturista de Los Sebosos, Del Rey e Academia da Berlinda reorganiza e reorienta os herdeiros daquele momento histórico ímpar, rumo à sobrevivência e, quem sabe, ao futuro.

Ainda que egressos do manguebit pareçam por vezes oprimidos pelo legado do movimento embandeirado principalmente por Science e Fred Zeroquatro (líder do Mundo Livre S/A), é impossível esquecer, aqui, do Chico Science de “Da Lama ao Caos” (1994): “Com o bucho mais cheio comecei a pensar/ que eu me organizando posso desorganizar/ que eu desorganizando posso me organizar”. O pulso do manguebit, ou seja lá como se chame hoje o pop pernambucano, ainda é o das batidas do coração.

 

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