pavilhão de água digital, em zaragoza, espanha

LEAPFROGGING é um conceito novo, que mostra como o desenvolvimento tecnológico em países emergentes, mais pobres, pode ser mais sofisticado e ambientalmente correto do que nos países industrializados.

O arquiteto italiano Carlo Ratti é professor no Massachusetts Institute of Technology (autor de numerosos livros e ensaios para Domus, Scientific American e The New York Times) e teve seu trabalho exposto na Bienal de Veneza, no Design Museum de Barcelona, no Science Museum de London e no Museum of Modern Art de New York.

Ratti considera que um exemplo de LEAPFROGGING é a telefonia celular na África, menos danosa ao ambiente e mais sofisticada do que na Europa e nos Estados Unidos.
Ratti faz um trabalho de tecnologia de ponta na arquitetura, preconizando uma revolução digital no meio. Eu o entrevistei na semana passada por ocasião do evento ArqFuturo, do qual ele participa esta tarde.

O ambiente onde Ratti desenvolve isso é o laboratório SENSEable City, que trabalha, entre outros projetos, no mapeamento e entendimento do fluxo do lixo por meio de sensores. O negócio do lixo já está sendo desenvolvido em Seattle e foi encomendado agora por São Paulo (http://senseable.mit.edu/foragetracking/)

“Uma das coisas que aprendemos no rastreio do lixo é que somente a troca de informação pode promover mudança comportamental. As pessoas envolvidas no projeto, em Seattle, se tornaram habilitadas a seguir seu lixo. E isso os ajudou a mudar alguns de seus hábitos. Uma pessoa de Seattle nos disse: “Eu costumava beber água em garrafas plásticas e jogá-las fora pensando que elas desapareceriam. Mas agora sei que isso não é verdade. Elas apenas vão parar a algumas milhas de sua casa. Então, parei de beber água em garrafas plásticas”.

Carlo Ratti também trabalhou em uma solução para o problema do tráfego urbano em Cingapura. “Novas tecnologias podem nos ajudar a melhorar as condições do trafego. O problema de hoje não é de “capacidade”, mas de “picos”. E a tecnologia pode ajudar a reduzir picos. Em Cingapura, temos um escritório trabalhando num programa chamado Future Urban Mobility. Correntes de dados dão aos cidadãos acesso ao tráfego por meio de visualizações dinâmicas. O projeto, LIVE Cingapura, usa informações em tempo real gravadas por uma miríade de equipamentos, microcontroladores e sensores encontrados em nosso ambiente urbana, e isso serve para analisar o pulso da cidade, momento a momento. O resultado permite um novo entendimento da cidade, e a otimização de suas possibilidades, ajudando a experiência humana como nunca antes aconteceu. Aplicativos informam aos comutadores qual o melhor meio de chegar mais rápido às suas casas, como os moradores podem reduzir o consumo de energia em sua vizinhança e como os moradores podem encontrar um táxi para cruzar a ilha quando há uma tempestade e todos os veículos parecem ter desaparecido.

“Sendo breve, digo que a solução para os problemas do tráfego urbano de amanhã é FIM DO ASFALTO, MAIS SILÍCIO” (ou seja: estruturas digitais no lugar de estruturas físicas), afirmou o arquiteto.

Ratti preconiza um admirável mundo novo baseado na tecnologia, e incita as populações a formarem o que ele chama de CROWD-SOURCED FUTURE!

Todas essas experiências levaram Carlo Ratti a desenvolver uma ideia de ciências sociais computacioniais, que se baseiam no fato de que o mundo produz uma quantidade monstruosa de conteúdo digital. A cada dois dias, diz um estudo de Eric Schmidt (do Google), nós criamos uma quantidade de informação maior do que criamos do começo da humanidade até 2003. E essa informação pode nos ajudar a entender melhor nossas cidades e nós mesmos.

Ele foca num determinado instante em que a revolução digital se torna arquitetônica, e em como a tecnologia revoluciona atitudes de espaço, escala e expressão de estrutura. Haveria também uma correspondência para a estética nesse seu ponto de vista, uma nova linguagem?

“Vejo o desenvolvimento de uma arquitetura de maior resposta, uma arquitetura que sente e responde. Gostaria de citar dois exemplos de arquitetura que nós fizemos. Um é o The Cloud (www.raisethecloud.org), que pode ser um bom exemplo de como os cidadãos podem se juntar e fazerem novos planos urbanos e arquitetônicos. É um novo tipo de ativismo de cidadania. Poderia ser interessante para se explorar na Olímpiada do Rio?”, me disse o arquiteto e engenheiro

“O outro projeto é o Pavilhão de Água Digital, um projeto que fizemos na entrada na exposição mundial de Zaragoza, e que foi nomeado Melhor Invenção do Ano pela revista Time. As paredes são compostas de cascatas de “água” digital controlada, que podem gerar escritos, elementos decorativos ou espaços de acessos. O resultado é um lugar que é interativo e reconfigurável em que cada uma das suas paredes pode se tornar, potencialmente, uma entrada ou uma saída, enquanto as divisões internas podem ser reformuladas de acordo com o número de pessoas presentes. Dá a uma nascente comunidade digital de “fontes abertas” a tomada de controle dos edifícios como um novo tipo de espaço público e interativo. The Cloud propõe um nova forma de deck de observação, inteiramente nova, conectando visitantes de toda Londres com o resto do mundo, imergindo as pessoas em eufóricas ventanias e conteúdo digital. Cada passo do indivíduo no acesso à The Cloud integra de um vasto esforço de suprimento de energia. Todos ao redor do mundo podem contribuir a The Cloud, seja por meio de visitas ou patrocinando um LED, ajudando a manter a chama da lâmpada de Londres acesa.”

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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