A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para seu quarto mandato presidencial, domingo passado (25), breca mais uma tentativa de golpe contra o povo brasileiro que, por muito pouco, e após uma virada histórica no segundo turno, não viu a dilapidação da Constituição Federal e de direitos garantidos na carta magna.
O adversário “grã-fino”, como Lula se referiu a Flávio Bolsonaro (PL) no debate da Rede Globo, obrigando-lhe a um pedido de desculpas por capacitismo — chamou-o de “nove dedos” aludindo a uma deficiência física do petista —, tentou se travestir de moderado, mas não colou. Derrotado nas urnas, sem abrir o sigilo, sem explicar os milhões recebidos de Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai e uma série de outras relações e crimes pelas quais é investigado, abandonou seus eleitores e o país.
Estamos em 2026 quando se completam 10 anos do golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff (PT) legitimamente eleita pelo voto popular, em um golpe político-jurídico-comercial-midiático-misógino.
É estarrecedor que, após o desastroso governo do neofascista Jair Bolsonaro (2018-2022), em meio à pandemia de covid-19, mas não só, ainda seja tão grande o percentual do eleitorado que desejava entregar o país aos Estados Unidos, tendo o filho senador, agora fugitivo, como preposto. Grande, mas, ainda bem, insuficiente.
Foi no golpe disfarçado de impeachment, na sessão do Congresso que anunciou a cassação do mandato de Dilma que o então deputado Jair Bolsonaro ganhou fôlego e o bolsonarismo eclodiu. O então deputado federal Jean Wyllys errou a cusparada e o pai da organização criminosa, hoje cumprindo prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, saiu livre após cometer o crime de exaltar o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), “o pavor de Dilma Rousseff”, ao anunciar seu voto pela cassação.
O resto é história que a gente conhece, embora alguns tenham memória mais curta (ou seletiva) ou sintam algum prazer em flertar com o autoritarismo e toda a sorte de crimes perpetrados pela família em nome, pasmem, do combate à corrupção e outros chavões.
A pianista e compositora Juliana Rodrigues lançou no último dia 31 de agosto — data exata da malfadada citada sessão — o videoclipe “Libertad”, peça composta sobre trechos do poema “Glosa III”, da escritora e poeta hispano-paraguaia Josefina Plá (1903-1999), recitados pela percussionista cubana Yordanka Medina, sobrepostos a trechos de entrevista concedida por Dilma Rousseff a Mariana Godoy, na Rede TV!
O videoclipe, com edição de Vini Uehara, se completa com ilustrações de Ariane Rodrigues, fotografias de Bia Varella, ilustrações de Malu Bandeira, dança de Maria Basulto e Lari Zani, e fotografias e vídeos de Lethicia Galo.
Como diz o famoso cartum, “vamos fazer poesia, os fascistas detestam poesia”. Juliana Rodrigues vai além, em “Libertad”, baseada no conceito de “som da aura”, desenvolvido por Hermeto Pascoal (1936-2025), que prevê transformar fala, ruídos e a voz de uma pessoa em melodia e harmonia.
Música, palavra, imagem — inclusive a Ligiana Costa no ensaio fotográfico de seu álbum “Errante Voz Ativa” (ybmusic, 2020) —, memória, resistência política e feminismos são amalgamados em “Libertad”, peça que ajuda a entender parte do abismo da tal “polarização”, basta lembrarmos as declarações de apoio de artistas para um e outro candidato nas últimas eleições.
Uns usam de eufemismos para tentar justificar a ditadura militar que assassinou Vladimir Herzog (1937-1975) e tantos outros, afirmando que naquele tempo é que era bom, porque a música prestava, frequentam shows pagos pelos cofres públicos, vangloriando-se de não usar a Lei Rouanet; outros conseguem transformar tragédia em beleza e convite à reflexão.
*
Assista “Libertad”:

Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.




