Ao contrário do que afirmou em uma entrevista coletiva nesta segunda-feira, 1º de junho, quando explicou a jornalistas que conheceu circunstancialmente a empresária Karina Ferreira da Gama durante a Expo Cristã (uma feira que não tem relação alguma com a produtora), o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB-SP) já tem um relacionamento consolidado com a empreendedora que produz o controverso filme Dark Horse. Há diversos registros dessa aproximação na própria agenda de Prefeito de São Paulo. Em 22 de fevereiro de 2023, por exemplo, Nunes recebeu Karina em seu gabinete, na condição de presidente da ONG Academia Nacional de Cultura (sob investigação da polícia de São Paulo), e membro integrante do GT Cristão. “O encontro contou com a presença da secretária municipal de Cultura, Aline Torres“, informa a agenda.

Há 5 anos, em 2 de julho de 2021, Karina já frequentava o governo de Nunes, então em seu primeiro mandato (como vice empossado do prefeito que tinha morrido havia apenas dois meses, Bruno Covas). Ela era conselheira suplente nomeada para o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente como representante da sociedade civil, agora na condição de presidente do Instituto Conhecer Brasil, prinicpal ONG sob investigação (em 2024, firmou um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura). Ao G1, Nunes disse que conhecia a empresária de eventos da Expo Cristã (evento que negou, em nota oficial, que a empresária tenha qualquer vínculo com a mostra). “Mas não é uma pessoa que eu tenho contato. Já tive, mas não é uma pessoa que eu converso, que eu tenho contato, não”, afirmou o prefeito, ressaltando que a empresária é uma pessoa “trabalhadora e decente”. A polícia apreendeu notas frias e documentos questionados na sede da produtora, e há suspeitas que o dinheiro de serviços não prestados possa ter ido para a produção do filme sobre o ex-presidente, hoje em prisão domiciliar, Jair Bolsonaro.

A empresária também realiza em São Paulo um mega-evento chamado The Connect Faith – Fé, Cultura e Inovação, que este ano está previsto para acontecer entre 7 e 11 de outubro, no São Paulo Expo. No ano de 2025, o evento foi viabilizado por meio de um aporte financeiro institucional de 3,5 milhões de reais da Prefeitura de São Paulo, via Secretaria Municipal de Turismo e SPTuris, para uma das ONGs de Karina Ferreira da Gama (que também levou 5 milhões de reais do governo do Distrito Federal, do ex-governador Ibaneis Rocha, pivô do esquema Banco Master, para tocar um projeto em Brasília).

A edição de 2026 do Connect Faith pretende reunir o suprassumo do extremismo religioso, com convidados como o pastor-deputado Marco Feliciano, e os pastores Estevam (preso nos Estados Unidos com dólares escondidos dentro de uma Bíblia) e Sônia Hernandes, entre outros. Sem o dinheiro da Prefeitura, no entanto, pode correr risco de cancelamento. Embora se apresente como um evento tradicional, não há registros de outras edições do Connect Faith antes de 2025. Há um mês, a reportagem de FAROFAFÁ esteve no endereço registrado como sede jurídica das ONGs de Karina na Avenida Paulista e não havia nada relativo às empresas ali. A busca policial se deu em outro endereço comercial de atividade da empresária, na rua Haddock Lobo, que não foi atualizado para fins judiciais.

A investigação, que começou com o superfaturamento do filme Dark Horse, pode ter conduzido à principal operadora do esquema evangélico do bolsonarismo. O GT Cristão (Grupo de Trabalho Cristão), que Karina disse representar em encontro com Nunes em 2023, é uma organização que funciona em São Paulo para interlocução e lobby entre pastores e igrejas evangélicas, o setor empresarial e interlocuções política, com vistas a fortalecer politicamente o campo ultraconservador. Reúne 400 pastores e 5 mil igrejas evangélicas.

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