A cineasta Maria Augusta Ramos. Retrato: Mariana Pekin. Divulgação
A cineasta Maria Augusta Ramos. Retrato: Mariana Pekin. Divulgação

“Amigo secreto” estreia hoje (16) nos cinemas brasileiros

Amigo secreto. Cartaz. Reprodução
Amigo secreto. Cartaz. Reprodução

Quatro anos após “O processo” (2018) a cineasta Maria Augusta Ramos torna a mergulhar nos bastidores da História, sem se preocupar com “distanciamento” ou “isenção”. A exemplo do filme anterior, aprofunda o noticiário cotidiano, colaborando para uma melhor compreensão dos fatos por parte dos espectadores.

O filme de 2018 acompanhava os bastidores do processo que terminou com a cassação do mandato legítimo da presidenta Dilma Rousseff (PT) num golpe político-jurídico-midiático; “Amigo secreto” (2022) tem por foco a operação Lava-jato, cujos “heróis” de outrora, endeusados por amplos setores da mídia, da política e da população, afundam cada vez mais na lama em que chafurdaram. Em ambos, Maria Augusta Ramos é movida pela indignação diante de injustiças, a principal força motriz de seu cinema.

Seu principal expoente, o ex-juiz, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo neofascista de Jair Bolsonaro e ex-pré-candidato à presidência da República Sérgio Moro, caiu em descrédito e desgraça após o vazamento de mensagens trocadas entre integrantes da operação que ajudou a quebrar o país.

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A audiência em que Lula "jantou" Moro. Still. Reprodução
A audiência em que Lula “jantou” Moro. Still. Reprodução

É nesta forçada confissão de crimes que o novo filme de Maria Augusta Ramos se alicerça. As câmeras passeiam, entre imagens de arquivo e realizadas para o documentário, pela audiência em que Lula “jantou” Moro e pelas redações de The Intercept Brasil e El País Brasil – o último infelizmente com atividades já encerradas por aqui –, veículos de comunicação de origem estrangeira que se dignaram a cumprir o papel jornalístico de que a imensa maioria da mídia brasileira abdicou em nome de “escolhas muito difíceis”.

Os jornalistas Leandro Demori, do primeiro, Carla Jimenez, Regiane Oliveira e Marina Rossi, do segundo, acompanham o descrédito em que mergulha a farsa que fragilizou o sistema de justiça brasileiro, sua confiabilidade e a própria democracia. A “Vaza-jato”, trocadilho inteligente, revelou a podridão das entranhas da operação sobre a qual se debruçaram, a partir de conversas tidas através de aplicativos de mensagens.

Uma das questões levantadas pelo quarteto é uma (auto-)crítica ao jornalismo e às armadilhas em que por vezes cai, contraditoriamente: a credibilidade de instituições como o Ministério Público e o Poder Judiciário levam meios e profissionais de comunicação a encampar suas narrativas, sem questionamentos ou investigações mais profundas. “A imprensa comprava tudo” afirmam, lembrando, para além da Lava-jato especificamente, o copia e cola em que em geral se transformou o jornalismo no Brasil.

O resumo da ópera é sabido por todos: com o marketing alicerçado por mentiras (fake news é eufemismo), modus operandi bolsonarista, a Lava-jato (que começa com um erro grosseiro e bastante comum em seu batismo) foi vendida como a maior operação de combate à corrupção do Brasil em todos os tempos, mas seus juízes e procuradores cometeram diversos crimes para tirar da corrida eleitoral o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, líder em todas as pesquisas de intenção de voto em 2018. Não à toa, Moro ganharia um ministério no início do mandato de Bolsonaro.

“Amigo secreto” já chega “defasado” em alguma medida, já que a Justiça Eleitoral impediu a aventura político-partidária de Sérgio Moro e ele não mais será candidato à presidência da República; seu discurso assumindo entrar na política é cínico, para dizer o mínimo. O principal desdobramento da Lava-jato é a eleição e o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, com seus crimes e discursos diários de incitação à violência e ao ódio, o saque, a corrupção, o golpismo e a mentira como bússola.

É óbvio que um filme não daria conta de tudo, mas Maria Augusta Ramos não teme os riscos: seu cinema é feito no calor dos acontecimentos. Seu novo longa-metragem é uma coprodução Brasil, Alemanha e Holanda, com produção de Nofoco Filmes, Docmakers e Gebrueder Beetz Filmproduktion e coprodução da Vitrine Filmes – sua primeira coprodução –, além da distribuição do filme no Brasil. “Amigo secreto” estreia hoje (16) nos cinemas brasileiros.

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