Uma experiência de dupla afirmação, a HQ Monstrans: experimentando horrormônios, do transmasculino Lino Arruda, foi selecionada pelo programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e, no último dia 6 de julho, chegou finalmente aos leitores em edição limitada. Seu núcleo reúne três histórias que usam como metáfora as noções de “monstruosidade” para tratar de experiências de segregação e bullying vividas, em parte, pelo próprio autor. A obra também conta com versões em inglês e espanhol.

Escorado num background visual híbrido que vai de Marcatti a Francis Bacon, de Goya a Lourenço Mutarelli, Lino Arruda usa o corpo como aríete da comunicação, dissolvendo as emoções em transmutações e amputações que criam uma atmosfera densa, única. Doutor em Literatura, o ilustrador e quadrinista Arruda examina questões suspensas da infância, da família, da escola, da profissão, sempre com um texto de grande maturidade. “Numa realidade em que o presente não reflete o passado e no futuro nem se pensa, já vinha me familiarizando com a ideia de que não chegaria a ficar velho.”

Numa vertiginosa dissecação psicanalítica, a obra mapeia pontos de fragilização da pessoa trans num mundo despreparado para lidar com a diferença, encarando questões de deficiência, lesbianidade e transmasculinidade. “Animalidades híbridas, seres fantasmagóricos e monstruosidades amorfas fazem parte de uma corporalidade dissidente, que tenciona os limites da inteligibilidade, do compreensível, e questiona o anseio por visibilidade”, diz o material do Itaú Cultural. Arruda passeia por um emaranhado de citações que dão um peso meio acadêmico ao trabalho, mas não é o que prevalece – o trabalho foi elogiado em todos os quadrantes, da escritora Sunaura Taylor à editora Susan Stryker, com uma bela reverência da travesti Amara Moira.

O álbum pode ser adquirido no próprio site do artista https://linoarruda.com/loja/. 20% do valor arrecadado com a venda de Monstrans será destinado para casas de apoio à pessoas trans de sete estados do Brasil.

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