Deus tem Aids. Frame. Reprodução
Deus tem Aids. Frame. Reprodução
Deus tem Aids. Frame. Reprodução
Deus tem Aids. Frame. Reprodução

Valendo-se de teatro, performance, arte urbana e poesia, o documentário “Deus tem Aids” faz a seus espectadores duas perguntas secas, duras, diretas, ao mesmo tempo à queima-roupa e subliminarmente: do que você tem medo? O que te incomoda?

O filme é aberto com a sobreposição de vozes do noticiário sensacionalista dos anos 1980, quando a Síndrome da Imunodeficiência Humana, mais popularmente conhecida como Aids, era ainda uma tremenda incógnita, sem cura (como até hoje, embora já seja controlável, com o uso de medicações) e tratada de maneira pejorativa e preconceituosa, como “peste gay” ou “câncer gay”, colaborando para a estigmatização da comunidade homossexual.

Através dos depoimentos de oito personagens – Carué Contreiras, Ernesto Filho, Flip Couto, Kako Arancibia, Marcos Visnadi, Micaela Cyrino, Paulx Castello e Ronaldo Serruya, sete artistas e um médico – soropositivos, os diretores Fábio Leal e Gustavo Vinagre (que assinam o roteiro com Tainá Muhringer) conseguem demonstrar o quanto os estigmas e preconceitos em torno da Aids ainda são praticamente os mesmos de há 40 anos, quando do surgimento da epidemia.

Um ator, entre outros dois, pergunta a uma plateia, quem dos três eles acham ser soropositivo; um médico, nu, deitado em uma rede, confessa só ter se sentido seguro para falar abertamente de sua condição após passar em um concurso público, mesmo com o código de ética do Conselho Federal de Medicina garantindo-lhe segurança.

Uma performer cola lambe-lambes onde se lê “$oropo$itiva” na paisagem urbana, feitos a partir das bulas de seus medicamentos; segura um letreiro cujas luzes acesas nos permitem ler “eu não vou morrer” e revela a comoção em geral causada em interlocutores quando ela revela sua condição, o que a leva a uma lembrança da infância: machucada, na escola, pediu a enfermeira que colocasse luvas, pois convivia com HIV (sua mãe morreu vitimada pelo vírus), passando a ser evitada por colegas: “minha mãe disse que eu não posso andar com você, porque você tem Aids”.

“Vamos conversar sobre HIV e Aids”, lemos em uma placa carregada por alguém que se dispõe a conversar. “Essa conversa não é só para quem tem, é justamente o contrário”, adverte a um transeunte. E ouve histórias, que nos conta através do filme. E há performances que incluem nudez, saliva, sangue e o incômodo causado por estes elementos.

Desde março de 2020 duas pandemias se justapõem no Brasil: a de Aids, que ainda mata cerca de 10 mil pessoas anualmente no país, e a de covid-19, em cujo atual estágio o Brasil ocupa o terceiro lugar em mortalidade (atrás de Estados Unidos e Japão), com mais de 130 mortes diárias e um total de 690 mil vítimas desde o início da crise sanitária global.

Em meio ao caos, o negligente governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro incentivou medidas de contágio por covid-19, incentivando aglomerações e o não-uso de máscaras de proteção facial, atrasou a compra de vacinas contra o coronavírus enquanto negociava propina em sua aquisição, retirou do ar sites com informações sobre Aids, cortou verbas de programas de combate ao HIV (no que o Brasil era referência mundial) e, no auge do descalabro e da desinformação que foi o governo ora em estado terminal, o próprio presidente chegou a afirmar que a vacina contra a covid-19 causaria Aids, o que contribuiu para levar o Brasil a baixos índices de cobertura vacinal contra a covid-19 e outras doenças, como a poliomielite, outrora erradicada.

O título provocativo e impactante é retirado de um poema lido por um dos personagens do documentário, que estreia nas salas de cinema brasileiras oportunamente nesta quinta-feira, 1º. de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

Deus tem Aids. Cartaz. Reprodução
Deus tem Aids. Cartaz. Reprodução

Serviço: “Deus tem Aids” (documentário, Brasil, 2022, 82 minutos), de Fábio Leal e Gustavo Vinagre. Estreia hoje nos cinemas brasileiros.

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Veja o trailer:

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