Equipe de acusação no julgamento da ditadura militar, tema do filme "Argentina 1985"
Equipe de acusação no julgamento da ditadura militar, tema do filme "Argentina 1985" - Foto Divulgação

Ricardo Darín, esplêndido como sempre, faz de Argentina, 1985 uma primorosa película libertária para o povo argentino. Nela, vemos a importância do ajuste de contas para fazer com que comandantes das forças militares daquele país fossem parar atrás das grades. Era o mínimo o que deveria acontecer com os responsáveis pelo desaparecimento de 30 mil pessoas, vítimas da ditadura de 1976 a 1983. O Brasil de 2022 que emergiu das urnas bem que poderia trilhar o mesmo caminho, “duela a quien le duela”.

Os horrores de governos equivocados e tiranos deveriam ser julgados por sua população. Foi o que fez o promotor de Justiça Julio Strassera (Darín). Com o fim da ditadura em 1983, a Argentina passa a discutir se levaria ao tribunal o alto escalão de militares, entre eles o presidente Rafael Videla (Marcelo Pozzi). Naquele ano, Raúl Alfonsín adota como mote eleitoral da campanha que o levou à presidência a questão dos desaparecidos da ditadura. Em 1985, inicia-se, de fato, o histórico julgamento de reparação, em que foram ouvidos centenas de testemunhas, em um caso que se tornou midiático.

Em exibição na Amazon Prime Vídeo, Argentina, 1985 alterna entre as tentativas de convencer os familiares das vítimas a deporem e as ameaças que as equipes de promotores e advogados sofriam. Foi a primeira vez que uma ditadura militar foi julgada e condenada por um tribunal civil no mundo. Dirigido por Santiago Mitre, o longa foi escolhido para representar o país na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2023.

Não é despropositado cobrar reparação no Brasil 2022. Os brasileiros enfrentaram uma ditadura muito mais longa que os vizinhos argentinos, e jamais teve a coragem de enfrentar seus fantasmas como se deve. Quando o fez, coincidência ou não, a presidenta Dilma Rousseff foi apeada do poder sob um pretexto qualquer. Muitos não perdoaram que Dilma tivesse tido a coragem de levar adiante a Comissão Nacional da Verdade. Neste ano que marca o fim do ciclo do mais perverso governo deste a ditadura, o País se vê diante do mesmo desafio histórico: encarar ou não a realidade bem diante de seus olhos. Jair Bolsonaro será julgado por seu governo?

Argentina, 1985 é vibrante, não durante toda a película, mas pela potência de sua narrativa. Durante meses, os argentinos e o mundo testemunharam os desassombros praticados pelo generais de alta patente, que imaginavam que sairiam impunes das atrocidades que cometeram. As relações de poder ainda vigoravam na Argentina de Afonsín, e os militares posavam de “cidadãos de bem”. Ao ver como Strassera se apoiou na força de jovens para colher provas contra os algozes da ditadura é comovente. O copromotor Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani) questionava o veterano promotor, ao mesmo tempo em que tinha conflitos internos dentro de sua própria família. Ambos tinham, ao seu lado, uma aguerrida equipe de jovens de advogados e assistentes, alguns com 20 e 21 anos, que sabiam da importância de levar adiante o caso.

Com depoimentos dolorosos, que relatavam as torturas e as perseguições do aparato militar, o filme reaviva como esse julgamento foi um divisor de águas para o país vizinho. Gerações cresceram nos últimos anos sem se dar conta de que a Argentina fez um acerto de contas com seu passado ou que houve uma ditadura sanguinária. Filmes como Argentina, 1985 ajudam  a lembrar, sobretudo entre os mais jovens, que a liberdade que podemos gozar nos dias de hoje custou a vida de milhares de pessoas, e que se tudo fosse empurrado para debaixo do tapete isso talvez nem fosse mais possível.

Argentina, 1985. De Santiago Mitre. Na Prime Vídeo. Argentina, 2022, 140 mins.

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