Em 2010, numa mesa do lendário Jobi, no Leblon, Fausto Fawcett falava pela primeira vez sobre o seu próximo romance, Favelost, ambientado num futuro distópico na grande mancha urbana formada pelo encontro das metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro. “Nada dura mais de três meses: nem empregos, nem produtos, nem pessoas.”

Doze anos depois, como de hábito, todas as profecias de Fausto Fawcett se confirmaram, exceto a da efemeridade total. Sua própria obra, de uma admirável consistência estética e crítica, se mantém coesa e firme mesmo no solo balnear e movediço da pós-modernidade. Tanto que Favelost deu cria: nesta quinta-feira, 7, e em todas as quintas-feiras de julho (14, 21 e 28), em São Paulo, no Madame Club (antigo Madame Satã, na Rua Conselheiro Ramalho, 873, Bela Vista), Fausto apresenta o show homônimo Favelost por meros 50 mangos. Ele volta assim ao disco, coisa que tinha feito pela última vez há quase 30 anos, mostrando nove canções feitas em parceria com o músico eletrônico Furio/Jarbas Agnelli e com o VJ Jodele Larcher (responsáveis pelas instalações mapeadas e sonoras, analógico-digitais), e sempre com uma musa à frente (desta vez, ruiva, a atriz Carolina Meinerz, que participa em vídeo do show).

Os parceiros de Fausto Fawcett nessa empreitada são dois notáveis. O cineasta Jodele Larcher é um dos pioneiros das linguagens de videomapping, motion design e videografismos no Brasil, além de ser testemunha audiovisual de todas as constelações do showbiz desde tempos imemoriais. Já Jarbas Agnelli, pioneiro dos big beats, tem um background extra: é bisneto do maestro ítalo-brasileiro Furio Franceschini, que foi o organista responsável pela construção do órgão da Catedral da Sé, em São Paulo (daí vem o nome do projeto, Furio, além de uma das composições do disco). Favelost também tem participações de André Abujamra, Irmãs Paixão e Marcos Suzano.

Favelost, o disco, é (sendo redundante na avaliação) vertiginoso, com um componente formidável de apelo à dança. Fausto Fawcett mergulha o ouvinte numa memória pop líquida que mistura desde The Model, do Kraftwerk, até missa católica dos anos 1920. A concepção, como de hábito, funde a vanguarda audiovisual com a narrativa literária e a visão cênica de um musical. Por baixo de tudo, como mantras conferindo significado à pulverização de sons e imagens, está a voz e a lírica de Fausto, que sabe precisamente o que está dizendo e por que está dizendo.

O álbum abre com “Primitivo Tambor”, que abraça a “dança dos conflitos, a dança dos confrontos” e fecha com um solo gospel a capela. Os diagnósticos de Fausto não contêm autocomiseração, ele identifica todas as tempestades primitivas, vê claramente todos os que estão “babando de solidariedade, babando de sentimento familiar, babando de ódio, babando de amor, babando de indignação, babando de metafísica”.

“O Que É Real e o Que Não É Real” é a mais irresistível de todas as batidas do álbum. Um lençol freático de melancolia afoga a melodia, com a voz de Fausto mais nítida e warholiana: “É aqui mesmo que eu deveria estar?/ é assim mesmo que eu deveria amar?”. “Guindastes Evangélicos”, sob batida mais esquizofrênica e repetição psicótica (“qual é sua operadora?”), é um mergulho no gigantesco canteiro de obras em que a religião é transformada em iguaria midiática. “Nuvens de James Brown” tem uma pulsão de acid jazz (“aceite James Brown no coração”).

“Festa no Iate Espacial é um som protoeletrônico da melhor cepa dos anos 1980, pueril e infectante. “Corações Flutuantes” viaja para o interior da ironia em viagem de lisergia cósmica, lugar de “uma estranha alegria de viver sem gravidade, só na base da leveza, só na base da leveza da beleza”. “Favelost, o Baile” cria o Baile da Ilha Fiscal da Perturbação Tecnológica. O Complexo de Édipo de Fausto é colocado dentro de um moedor de sucata em “Psicótica Mãe”.

Ouça aqui o álbum Favelost inteiro.

Como autor, Fausto publicou quatro livros: Santa Clara Poltergeist (Editora Eco, 1990), Básico Instinto (Editora Reluma Dumará, 1992), Copacabana Lua Cheia (Editora Dantes, 2001) e Favelost (Martins Fontes, 2012).

Formado em Jornalismo pela PUC do Rio de Janeiro, gravou o primeiro disco, Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, em 1987, pela multinacional Warner. Muitos tentaram lhe atribuir pioneirismo de hip-hop por conta de hits como “Kátia Flávia “(que fez parte da trilha sonora dos filmes Lua de Fel, de Roman Polanski; O Super Outro, de Edgar Navarro Filho; e Tropa de elite, de José Padilha), mas ele gentilmente recusou tais antevisões. “A falação do hip-hop tinha um certo padrão, tinha a aceleração dos negões americanos. O meu era mais ralentado. Não acho que fosse um rap, porque é um gênero mais padronizado. Mesmo Chico Buarque e Caetano fizeram música que tinha uma verborragia caudalosa, e Arrigo Barnabé tem o Clara Crocodilo. Eu diria que tenho uma coisa própria, mais ligada à coisa do rádio e da falação teatral”, explicou, em 2010.

Essa falação nunca equiparada na seara do pop nacional ainda rendeu os álbuns Império dos sentidos (Warner, 1989) e Básico instinto (Sony, 1993). Fausto também escreveu quatro peças teatrais, três em parceria com Hamilton Vaz Pereira (mentor do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone): Olhos Ardentes (1985), Amizade de Rua (1986) e Ataliba, a Gata Safira (1988), e outra com o diretor Henrique Tavares, Cidade Vampira (2005).

A banda do show no Madame terá Fausto à frente (voz e bênçãos copacabânicas), Jarbas Agnelli (teclados), Gabriel Agnelli (baixo), Daniel Indio Camiranga (guitarra) e Rodrigo Sha (sax).

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