O cantor e compositor Paulo Diniz. Foto: Max Levay. Divulgação
O cantor e compositor Paulo Diniz. Foto: Max Levay. Divulgação

O cantor e compositor faleceu ontem (22), de causas naturais, no Recife/PE

Em 1972, enquanto o baiano Caetano Veloso, exilado em Londres, “descia a estrada de Portobello ao som do reggae” (tradução livre de verso de “Nine out of ten”, segunda faixa de “Transa”), o pernambucano Paulo Diniz (Pesqueira/PE, 24/1/1940-Recife/PE, 22/6/2022) – falecido ontem, de causas naturais – lançava o primeiro reggae com letra em português: “Bahia comigo”, parceria com Odibar, gravada com adesão da guitarra de Luiz Vagner (1948-2021), ex-Os Brasas, falecido ano passado após dois AVCs.

Quero voltar pra Bahia (1970), um dos maiores êxitos da carreira de Paulo Diniz. Capa. Reprodução
Quero voltar pra Bahia (1970), um dos maiores êxitos da carreira de Paulo Diniz. Capa. Reprodução

Se não nasceu na Bahia, não foi a única vez que Paulo Diniz homenageou o lugar: a Caetano Veloso (e Gilberto Gil, então também no exílio londrino) dedicou “Quero voltar pra Bahia” (outra parceria com Odibar), em certa medida ofuscada pelo estrondoso sucesso de “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, de Roberto e Erasmo Carlos.

A música saiu com um “erro” na construção do refrão, em inglês, que repetia o verbo auxiliar. Quem alertou o cantor e compositor foi o poeta Paulo Leminski, seu “vizinho” no mítico Solar da Fossa. Para manter a métrica a música saiu assim mesmo e fez história.

Não foi a única vez que os Paulos Diniz e Leminski se encontraram. O título “Ponha um arco-íris na sua moringa” (com Odibar), um dos grandes sucessos da carreira do primeiro, foi pinçado do “Catatau”, prosa experimental que o segundo então estava escrevendo, ao mesmo tempo em que se interessava por aprender violão e por música popular.

Outras aproximações de Diniz com a poesia são as melodias que criou para dois poemas fundamentais, que certamente ajudou a popularizar: “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, e “José”, de Carlos Drummond de Andrade. Curioso que tais poemas foram musicados por outros artistas: Gilberto Gil, no caso do primeiro, e Heitor Villa-Lobos e Ernst Mahle, no caso do segundo.

“José” é tão popular, para além das rádios, bares e serestas em que continua hit absoluto, que virou bordão, potencializado por estes tristes tempos brasileiros. Diante de um problema ou dificuldade, não é incomum perguntarmos, a outros e/ou a nós mesmos: “e agora, José?”, o verso que abre o poema. Reza a lenda que Drummond, após o lançamento da música, não conseguia ler seu próprio poema sem cantarolar a melodia de Diniz.

Apesar desse grau de sofisticação, sua obra, no entanto, foi injustamente marcada por um preconceito constante – em parte, por vezes, alimentado (e praticado) por este repórter. A sigla de sua MPB seria “música para beber”, com motivação, talvez, em sua rouquidão e na temática de uma boa porção de seu repertório. Quem nunca tiver tomado nada com Paulo Diniz de trilha sonora atire a primeira pedra! Ou vá, ainda que à guisa de homenagem post mortem, corrigir essa imperdoável lacuna em sua formação sentimental.

A carreira de Paulo Diniz teve seus altos e baixos. Autor de, além das já citadas, sucessos absolutos como “Um chope pra distrair”, “Pingos de amor” (regravada pelo Kid Abelha na década de 1990), “Piri-Piri” (as três em parceria com Odibar), “Viola no paletó” e “Vou-me embora” (ambas em parceria com Roberto José).

“Vou-me embora, vou-me embora/ vou buscar a sorte/ caminhos que me levam/ não tem sul nem norte/ mas meu andar é firme/ meu anseio é forte/ ou eu encanto a vida/ ou desencanto a morte”, começa a letra da última, síntese possível de sua trajetória: do radialista que deixa a Pesqueira/PE natal para tentar a vida de artista no Rio de Janeiro ao cantor e compositor que tanto encantou a vida de quem o ouviu – e seguirá ouvindo. “Vou-me embora, vou-me embora/ nada que me resta/ se não a dor contida/ num adeus sem festa/ eu vou na ida indo/ que o temor desperta/ cuidar da minha vida/ que a morte é certa”.

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